O verdadeiro salário do Companheiro Maçom
A jornada na coluna do sul: “o verdadeiro salário do Companheiro Maçom”
A passagem do Aprendiz para a Coluna do Sul constitui um dos momentos mais simbólicos e transformadores na caminhada do Maçom. Após ter permanecido por tempo suficiente no ambiente sombrio, silencioso e reflexivo do Norte, onde a sua única atribuição era desbastar a Pedra Bruta por meio da escuta atenta e do isolamento interior, abre-se ao Maçom a oportunidade de avançar em direcção ao Sul. Trata-se do quadrante em que a iluminação atinge o seu cume, o ponto em que o sol brilha com a máxima intensidade. Esta transição espacial dentro do Templo reflecte, no plano humano, a passagem de uma aprendizagem essencialmente receptiva para uma postura activa, pautada pela clareza de propósito, pelo discernimento e pelo amadurecimento intelectual.
Ancorada no pilar da Beleza e associada à energia plena do meio-dia, a Coluna do Sul cobra do Companheiro uma conduta substancialmente diversa daquela adoptada nos seus primeiros passos na Ordem. A hesitação típica de quem acabou de transpor os passos da Iniciação precisa dar lugar à firmeza. O tempo do silêncio absoluto ficou para trás, não porque a prudência tenha perdido a sua utilidade, mas porque o Maçom agora possui repertório e estrutura para encarar a luz directa sem o risco de ter a visão ofuscada. A intuição, embora continue sendo um vector importante, cede o protagonismo ao estudo metódico, ao exercício do raciocínio lógico e à aplicação das ciências e das artes.
Neste segundo estágio, a natureza do trabalho se altera profundamente. A força física necessária para desferir os primeiros golpes com o malho e o cinzel deixa de ser o factor principal. Entram em cena, com papel central, os instrumentos de precisão e cálculo: o esquadro, o nível, o prumo, o compasso, a régua de 24 polegadas e a alavanca. O foco da lapidação migra da mera eliminação das arestas grosseiras para a mensuração rigorosa da forma. Trata-se de usar a inteligência e o equilíbrio emocional para dar contornos harmoniosos à arquitectura interior do próprio indivíduo, preparando-o para assumir responsabilidades mais elevadas no canteiro de obras.
O Grau de Companheiro funciona, assim, como uma estrutura de sustentação entre o despertar inicial do Aprendiz e a plena maturidade do Mestre. É a fase em que a assimilação de conceitos teóricos se traduz em prática. Ao estudar as tradicionais Artes Liberais, divididas em Trivium (Gramática, Lógica e Retórica) e Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), o Maçom desenvolve uma base intelectual sólida. Isso o capacita a analisar a realidade de forma autónoma, sem aceitar verdades prontas nem se submeter a dogmas. Neste contexto, a Geometria vai muito além da simples medição do espaço físico: ela passa a ser vista como a manifestação máxima da ordem e da harmonia que sustentam o Universo.
A pedra, que no início da jornada do Aprendiz ostentava um aspecto áspero e irregular, vai gradativamente assumindo contornos polidos e superfícies alinhadas. O objectivo final dessa transformação jamais foi o isolamento do indivíduo numa redoma de erudição estéril, mas sim a preparação dessa pedra para que ela possa se encaixar com exactidão no edifício da sociedade. Trabalhar no Sul significa exactamente assumir essa responsabilidade: produzir de forma autónoma, manter a consciência lúcida aos desafios e dedicar-se à construção de trabalhos que tenham utilidade prática e carácter duradouro.
No entanto, o entusiasmo despertado por essa nova etapa exige o contraponto constante da prudência. O ambiente do Sul, marcado pela abundância de luz e de estímulos intelectuais, impõe um rigoroso compromisso ético. A prioridade absoluta do Companheiro passa a ser a busca incessante pela verdade, o que exige manter o senso crítico apurado e rejeitar os atalhos do fanatismo e da vaidade. Fortalecido pela clareza que essa posição proporciona, ele deve actuar com serenidade, equidade e fraternidade, actuando como um elemento de equilíbrio tanto nos trabalhos internos da Loja quanto nas interacções diárias da vida profana.
A lapidação da pedra assume, no Grau 2, um nível de exigência incomparavelmente maior. O que se espera do Companheiro não é uma perfeição inalcançável ou utópica, mas sim uma conduta pautada pela coerência entre o discurso e a prática, sempre balizada pelos princípios fundamentais da instituição maçónica.
Ao concluir a sua permanência na Coluna do Sul, o Maçom descobre que a sua verdadeira recompensa não possui natureza material. Na Maçonaria Operativa dos antigos construtores de catedrais, os pedreiros qualificados recebiam moedas de metal e mantimentos como contraprestação pelo trabalho executado. Na Maçonaria Especulativa e Filosófica contemporânea, esse pagamento se transfigura em valores morais e intelectuais. O “salário” do Companheiro vem sintetizado em três símbolos universais:
- O Trigo: Representa a nutrição da mente, a colheita legítima resultante do esforço contínuo e a consolidação da aprendizagem intelectual. É a sustentação necessária para que o trabalhador não esmoreça diante das dificuldades do caminho.
- O Vinho: Simboliza o vigor vital, a alegria do trabalho realizado em comunidade e o espírito de fraternidade que renova as energias. O vinho é o elemento que alegra o espírito e fortalece os laços que unem a irmandade.
- O Azeite: Representa a paz de espírito, a sabedoria aplicada ao quotidiano e a unção da serenidade. O azeite é o bálsamo que suaviza o atrito entre os homens, permitindo manter a temperança e a clareza mental mesmo nos momentos de turbulência.
O pagamento real acumulado ao longo da jornada na Coluna do Sul traduz-se, portanto, numa mente emancipada, livre na razão e afiada pelo método numa consciência absolutamente tranquila.
Todo este arcabouço conceitual e ritualístico careceria de sentido se ficasse confinado às paredes do Templo. Para que o Companheiro possa almejar a elevação ao Grau de Mestre, é preciso demonstrar capacidade de projectar essas aprendizagens no mundo profano. O conhecimento assimilado não é um tesouro a ser escondido, mas sim uma ferramenta a ser empregada em benefício da colectividade.
Esta projecção prática na vida quotidiana se opera em diferentes frentes:
No âmbito pessoal e familiar, o salário simbólico recebido deve se traduzir em conduta exemplar. O Maçom aplica a rectidão do esquadro e o nivelamento do nível nas suas decisões familiares e profissionais, garantindo que as suas acções permaneçam sempre alinhadas com a integridade.
Na esfera social e intelectual, o uso do raciocínio lógico e da análise crítica serve de escudo contra as investidas do fanatismo, da ignorância e da intolerância. O Companheiro utiliza a reflexão estruturada para mediar conflitos, desarmar discursos extremistas e promover o diálogo construtivo nos ambientes onde está inserido.
No campo colectivo, a aplicação do “azeite” da concórdia permite apaziguar tensões e construir pontes em cenários marcados pela polarização. Ao mesmo tempo, o compartilhamento do “trigo” do conhecimento assegura que os recursos intelectuais e morais acumulados sirvam para incentivar o desenvolvimento das pessoas ao seu redor, contribuindo activamente para a consolidação de uma sociedade mais justa, consciente e fraterna.
Em última análise, estar na Coluna do Sul ultrapassa em muito a mera ocupação de um espaço físico no Templo: representa uma profunda mudança de mentalidade e de postura existencial. É o momento exacto em que o Maçom interioriza a premissa de que a erudição e a técnica não possuem valor real se não forem convertidas em virtude aplicada, em trabalho constante e em serviço prestado à humanidade. Somente após demonstrar a plena assimilação dessa caminhada, unindo a correcção moral, o domínio da ritualística e o compromisso ético com a Ordem, o Companheiro comprova estar devidamente preparado para dar o próximo passo e ser elevado à plenitude do Grau de Mestre.
Maurilo Antonio Corrêa Humberto, M. I. – ARLS Marrey Junior, nº43 e ARLS de Estudos Luz do Oriente, nº327 – Grande Oriente Paulista – GOP
Bibliografia
- Ritual de Companheiro Maçom do Grande Oriente Paulista – GOP
- A Filosofia dos 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito – José Loiola – Cap. II – O Grau de Companheiro – Ed. A Trolha – 2024.
- O Trivium As Artes Liberais da Lógica, da Gramática e da Retórica – Irmã Miriam Joseph – tradução e adaptação de Henrique Paul Dmyterko – É Realizações Editora – 2008.
- Quadrivium – As Quatro Artes Liberais Clássicas da Aritmética, da Geometria, da Música e da Cosmologia – John Marineau – tradução de Jussara Trindade de Almeida – É Realizações Editora – 2014.
- Ordem Sobre o Caos – Kennyo Ismail – Capítulo “Segundo Grau: Companheiro”, pág.. 77 – Editora No Esquadro – 2020
- Do Aprendiz ao Mestre – Marcos André Matta Dantas – Capítulo 2 – Companheiro – pág.. 97 – Editora “A Trolha” – 2010.
- Grau do Companheiro e seus mistérios – Jorge Adoum – Editora Pensamento – 2006.
