Freemason

A iniciação (O número três)

✍️ Desconhecido 📅 05/10/2023 👁️ 7 Leituras

Três, three

Fui iniciado na Maçonaria Regular aos 22 dias do mês de Novembro do ano Maçónico de 5997.

Tudo aquilo que vivi nesse dia, e que jamais esquecerei, desde a Recepção no Templo, a passagem pela Câmara de Reflexão (tendo vindo a perceber mais tarde ter sido aquela a minha primeira prova, a da Terra), a Cerimónia de Iniciação (com os seus Juramentos e a oferta da Luz) e terminando no Ágape não é exprimível por palavras!

Percebo hoje, volvidos que estão alguns meses e passadas que estão algumas horas lendo Bibliografia diversa, que o Segredo Maçónico é isso mesmo, o facto de não ser possível exprimir o que se sente sem desvirtuar a grandiosidade da Luz que nos vai enchendo a alma sessão a sessão, livro após livro!

Naquele dia foi-me dito que o trabalho do Maçom visa o aperfeiçoamento dele próprio e que para tal deveria executar uma prancha como prova da pesquisa efectuada em busca da explicação deste ou daquele símbolo!

Poderia perguntar-me da necessidade de se estudarem símbolos, mas, como define Leon Zeldis, “os Símbolos são ferramentas do Pensamento, modos diferentes de encarar a Realidade, de percebê-la e integrá-la em nós.(…) As ferramentas Simbólicas que empregamos na Maçonaria estão destinadas a revelar-nos de forma directa certos aspectos da realidade do Macrocosmo que nos rodeia e do Microcosmo, o Homem”.

Sendo assim, o estudo dos Símbolos e doutros aspectos permite que se adquira e se desenvolva em cada um o Conhecimento Maçónico, sempre mediante o esforço individual.

Mediante a dedicação ao progresso individual, poderemos passar da ignorância à Mestria.

Dos muitos que gostaria de expor, houve um que desde logo aquele dia me ficou na cabeça, o Número Três!

Este estivera presente durante toda a Cerimónia de Iniciação : nas Três perguntas do Testamento na Prova da Terra, nos Três Toques à Porta do Templo, nas Três Viagens Simbólicas que, como profano, tivera de efectuar na busca da Luz, na minha Idade como Aprendiz, nos Golpes de Malhete, etc…

À medida que comecei a participar nas sessões e a buscar a Perfeição na pesquisa individual, encontrei este número muitas mais vezes

Sendo assim, e porque “aspiro à honra de ser recebido entre os Companheiros”, tracei a prancha que vos apresento de seguida que traduz um degrau no gradual aperfeiçoamento que me propus efectuar quando prestei, naquele dia, os Juramentos no Altar sobre as “Três Grandes Luzes” da Respeitável Loja Camões, N°15, a Oriente de Cascais.

Entre os dias da Criação, o Terceiro dia é considerado especialmente favorável, porque nesse dia Deus disse Três vezes seguidas que era bom.

As Tábuas da Lei foram recebidas por Moisés numa Terça-feira e os Patriarcas eram em número de Três : Abraão, Isaac e Jacób .

Já os povos da Antiguidade reconheciam a fundamental importância dos números na Natureza e, nestes, os Pitagóricos atribuíram aos números propriedades simbólicas e esotéricas.

Para estes, o Três, ou Ternário, era designado por “A Perfeita Harmonia”. Era o Primeiro Número Verdadeiro, já que a diferença entre o 1 e o 2 tem principio, meio e fim. O Três representava o Universo em geral – Macrocosmo – e o homem em particular – Microcosmo.

Pitágoras afirma que com a Tríplice formada pela : Razão (que vê e julga), Força (que retém e modera) e o Conselho (que esclarece e adverte), o Homem é virtuoso e vivendo em segurança sob o escudo da Sabedoria encontra a Felicidade.

Como número inteiro, o Três, é a soma da unidade (primeiro n° impar) com o dois (primeiro n° par). O ímpar representa o Princípio activo ou masculino e o par é o Princípio passivo ou feminino.

Sendo assim, o Três representa a combinação destes Princípios e é então um símbolo da totalidade das possibilidades.

O espaço que nos rodeia é tridimensional, em que as três dimensões : lado, altura e largura são postas em ângulo recto umas com as outras.

O próprio factor tempo oferece-nos, sem que nos apercebamos, uma tríade de aspectos, o Passado, o Presente e o Futuro.

A nossa existência é marcada por três fases : nascimento, vida e morte.

As perguntas fundamentais da Filosofia são três : De onde viemos?, Quem somos? E Para onde vamos?.

Na Psicologia Três são as funções da mente humana : Intelecto, Afectividade e Volição. Três são os sentidos que actuam à distância : a vista, o ouvido e o olfacto.

Nós próprios, no nosso dia a dia dividimos o corpo humano em três : cabeça, tronco e membros.

No Cristianismo o Três surge com a Santíssima Trindade : Pai, Filho e Espírito Santo.

Três Magos : Baltazar, Gaspar e Melchior foram adorar o Menino e ofereceram os Três Princípios : ouro – princípio solar, ou a Realeza – o incenso – principio terrestre, ou a Divindade – e a mirra – principio aquoso, ou a Humildade.

Três discípulos enganaram Jesus : Judas o trai, Pedro o renega por Três vezes (mas nem por isso deixa de receber as Três chaves do Paraíso) e Tomé duvida dele.

Três pregos prenderam Jesus à Cruz e Três dias passou no Sepulcro.

No Templo de Salomão o Três surge inúmeras vezes : possuía três secções principais (a sala, o Santo e o Santo dos Santos); três materiais apenas foram empregues na sua construção (pedra-estabilidade(Boucher), madeira- vitalidade- e Ouro-espiritualidade); Três Átrios (Átrio dos Gentios, Átrio de Israel e o Átrio dos Sacerdotes)

Três foram os assassinos de Hiram Abi (ou Abiff), artífice de metais e têxteis e pedreiro- arquitecto que, segundo a Bíblia, foi enviado ao Rei Salomão pelo Rei Hiram I para o ajudar na construção do referido Templo. A Lenda Maçónica fá-lo morrer às mãos de Três companheiros maus que o queriam obrigar a revelar os seus segredos e que personificam os vícios capazes de aniquilar a alma : inércia, sensualidade e o orgulho. É, Hiram Abiff, a figura central do Ritual de Mestre e, por isso, um dos Símbolos mais importantes da Maçonaria.

Três também foram as vezes que os Mestres tentaram erguer o seu Cadáver.

Na Lenda de Édipo a pergunta da Esfinge era Tríplice : Qual o animal que, de manhã, caminha sobre quatro patas, ao meio-dia, sobre duas patas e à tarde sobre três? A resposta é o Homem : ele gatinha quando criança, caminha erecto quando adulto e se apoia numa bengala quando atinge a velhice. Outra explicação sugere que no começo do envolvimento espiritual o homem (ignorante) só aprecia a evidência dos seus sentidos : o Quarternário, o Mundo Físico; logo, ele (que se encontra em luta com a dualidade da sua natureza) chega a considerar o mundo como uma oposição de qualidades – o Binário – e quando o seu desenvolvimento chega à velhice, concebe a unidade perfeita simbolizada pelo Ternário, onde a humanidade espiritual, intuitiva, cujo Triplo Poder da vontade, amor e inteligência actua livremente.(o Tripé é, por excelência, o suporte dos corpos).

Três também, são as Fúrias, ou as Três Terríveis Deidades Femininas que simbolizam diversas coisas, entre elas os três vilões que assassinaram o Mestre.

Vénus fazia-se acompanhar dos jogos, dos risos e dos amores.

Os Templários veneravam o Três : era perguntado por três vezes ao recipiendário se ele queria ser admitido. Submetiam-no por três vezes ao mesmo interrogatório e ele devia, por sua vez, pedir por Três vezes pão e água. Os Cavaleiros estavam sujeitos a Três votos : pobreza, castidade e obediência. Observavam Três Jejuns, comungavam Três vezes ao ano e ouviam missa e comiam carne Três vezes por semana.

Cada Nação tem a sua Religião Exotérica e Esotérica, a primeira para as massas e a Segunda para as pessoas instruídas. Os Hindus tinham Três graus com vários sub-degraus; os Egípcios tinham igualmente Três graus preliminares que eram designados de Três Guardiões do Fogo nos Mistérios; os Chineses tinham a Sociedade Tríada e os Tibetanos têm, ainda hoje, o Triplo Passo que surge no Vedas simbolizado pelos Três passos de Vishnu.

A Primitiva Igreja Cristã reconhecia Três etapas de Progresso Místico, que se designavam por Purificação, Iluminação e Perfeição, que correspondem aos Três primeiros Graus da Maçonaria Simbólica.

Em toda a parte a Antiguidade mostra um elevado respeito pela Triada, pelo Ternário e pelo Triângulo, tida como a primeira figura geométrica.

O Triângulo Rectângulo é tido como um dos mais importantes Símbolos Cósmicos da Antiguidade. Este pode ser considerado como a metade dum quadrado cujo dobro é a medida em planta duma Loja Maçónica.

O Três na Maçonaria Simbólica

O Ano Maçónico começa no Terceiro mês, Março, porque no Egipto os mistérios começavam no Equinócio da Primavera (primum tempus), mas como o dia em que ocorre o Equinócio é variável, escolheu-se a data fixa de 1 de Março.

Três são os graus (que formam a Maçonaria de S. João ou as Lojas Azuis) iniciais num conjunto de 33 (dois três) do REAA; Três é o distintivo do primeiro grau, o de Aprendiz, pois a idade é de três anos e tanto a Bateria, a Aclamação e os Passos são triplos. A Idade do Aprendiz é de Três anos pois na antiguidade o aspirante não era admitido senão depois de decorrido esse lapso de tempo; o primeiro dos Três passos irregulares (entenda-se irregular, neste contexto, como a indecisão do iniciado, ainda ignorante, cujos passos não são firmes!) do Candidato é dado com o pé esquerdo, o mais próximo do Coração para o lembrar que o amor deve imperar sobre as suas decisões.

Segundo alguns autores, o Avental do Aprendiz (que possui a abeta levantada) representa o Triângulo sobre o quadrado, ou seja, o Espírito sobre a Matéria (Quaternário devido aos Quatro Elementos). O Avental com a abeta levantada é uma insígnia de cinco ângulos, indicando os cinco sentidos através dos quais entramos em relação com o mundo material que nos circunda, mas que por outro mostra que a porção triangular de cima, com a porção quadrangular de baixo a natureza do Homem é uma Dualidade de alma e corpo. O Trilateral emblema adicionado ao quadrilateral formam o Sete que é o número perfeito, escrito numa antiga doutrina hebraica à qual a Maçonaria está intimamente aliada.

Três são as Virtudes Principais da Maçonaria : Fé, Esperança e Caridade. A Escada Ascensional das virtudes de perfeição, que figura no Quadro de Aprendiz de algumas Lojas Simbólicas, tem por emblemas : Cruz, a Âncora e o Cálice.

O Homem, o Séptuplo ser é a mais dilecta das Obras do Criador, daí que para que uma Loja seja justa e perfeita requeira sete irmãos, com o grau de Mestre, como oficiais principais.

Para os Pitagóricos a Alma é simbolicamente um número que se move por si mesmo e contém o quatro, os animais eram ternários e o homem virtuoso era um septenário ao passo que o homem mau era um quinário por ser formado por um binário e um ternário, e para eles o Binário trazia a desordem, o homem perfeito era um ternário e um quaternário, três elementos espirituais sobre quatro materiais.(década)

Três são os golpes de malhete que o VM dá sobre a Espada Flamejante aquando da Sagração do recipiendário e Triplo é o beijo de Paz e União.

O Três surge no Testamento Maçónico com as três perguntas relacionadas com os deveres (Três são os Deveres : para com Deus, para consigo mesmo e para com a sociedade). Estas podem ser completadas por uma Quarta, simbolizando a fórmula esotérica, “3 e 4”.

Na Câmara de Reflexão o candidato observa os Três Princípios Alquímicos : o sal, o enxofre e o mercúrio. O Enxofre representa o princípio activo, ou masculino; o Mercúrio é o princípio passivo, ou feminino e o Sal pode ser representado por um Triângulo (tal como os princípios alquímicos).

Os Três deveres Maçónicos são relacionados, por Oswald Wirth, com os referidos Princípios Alquímicos, sendo que o Enxofre se relaciona com os deveres para com Deus, o Sal com os deveres para consigo mesmo e o Mercúrio com os deveres para com a sociedade.

Três são as Grandes Luzes da Maçonaria (Volume da Lei Sagrada – para guiar a fé; Esquadro – para orientar as acções da vida – e Compasso – para dirigir os deveres para com o próximo e seus irmãos).

Três são as Luzes dum Templo (V:. M:., o Sol e a Lua – 1° e 2° vigilantes), Três são os pilares que sustentam o Edifício (Sabedoria, Força e a Beleza – V:. M:., 1° e 2° vigilantes), estes pilares estão representados, na Tábua de Traçar, pelas colunas : Jónica, a Dórica e a Coríntia, sustentando imagens de Três figuras principais da História Maçónica : o Rei Salomão, o Rei Hiram (de Tiro) e o Arquitecto Hiram Abiff. Sabedoria, Força e Graça são os nomes de Três Sefirot da Cabala, que formam um ângulo recto no desenho tradicional da Árvore de Sefirot em forma análoga às Três estátuas que se encontram em alguns Templos Maçónicos : Minerva – Deusa da Sabedoria -, Hércules – símbolo do Vigor e da Força – e Vénus – Deusa da Beleza e da Graça.

Três são as Jóias Móveis (Esquadro – V:. M:.; Nível – 1° Vig:. – e Prumo – 2° Vig:.).

Três são as Jóias Fixas (Pedra Bruta, Cúbica e Tábua de Traçar) e Três são os Ornamentos (o G, o Piso Mosaico e a Orla Dentada).

Ao ser iniciado foram-me ditas três coisas : “O Maçon vai a um Templo para vencer as suas paixões, submeter as suas vontades e fazer novos progressos na Maçonaria”. Sendo assim Três são os Campos de Actividade Mental dum Maçom : O afecto, a vontade e o intelecto.

Três são as Viagens Simbólicas que o recipiendário efectua no caminho da Purificação, sendo que o é sucessivamente pelo Ar, pela Água e pelo Fogo. Anteriormente já havia sido purificado pela Terra aquando da estadia na Câmara de Reflexão, sendo que surge de novo a Fórmula Esotérica “3 e 4”, que corresponde à Terra, com o corpo físico e a vida material, de seguida, o Ar corresponde à mente e à filosofia, a Água corresponde à alma e à religião e o Fogo corresponde ao espírito e á iniciação. Segundo Boucher, o Neófito, ou Recipiendário, vai, durante a Iniciação, libertar- se sucessivamente dos laços com a vida material, a filosofia e a religião para atingir a Iniciação Pura, o estado Bruto.

As Três viagens simbolizam as viagens que os antigos filósofos, fundadores de mistérios, faziam para adquirir novos conhecimentos e o seu número indica só lugares onde as ciências eram cultivadas primitivamente : a Pérsia, a Fenícia e o Egipto. As purificações que acompanham essas viagens lembram ao homem que ele nunca é suficientemente puro para chegar ao Templo da Filosofia.

É ao Terceiro golpe de Malhete que o candidato recebe a Luz.

O reconhecimento dum Maçon dá-se de Três formas : pelo Sinal, pelo Toque e pela Palavra. Pois o Maçom reconhece-se pela sua maneira simples, franca e equitativa de actuar; pela sua linguagem sincera e franca e pela solicitude fraternal que manifesta para com todos aqueles a quem está unido por laços de solidariedade.

Os sinais Maçónicos fazem-se pelo Esquadro, Nível e Prumo, inspirados em ideais de Justiça, Igualdade e Rectidão.

Segundo Oswald Wirth, a Bateria Tríplice do Grau de Aprendiz significa : “Pedi e recebereis – a Luz; Buscai e encontrareis – a Verdade – e Batei e lhe abrirão as Portas – do Templo”.

O Delta Luminoso com o Olho desenhado no seu centro é constituído por três partes : o Triângulo, o Olho que representa a Inteligência e os Raios que saem do Triângulo expressam a actividade constante de expansão do Ser.

Outro facto interessante é o símbolo representado pelo Triângulo Maçónico, representado por Três pontos (*) : Bem pensar, Bem falar e Bem fazer. Segundo J. C .A. Fisch, estes Três pontos têm a sua origem nos hieróglifos Egípcios, pois no plural colocavam Três Flores de Loto em continuação da inicial dum nome genérico.

Este símbolo parece ter sido utilizado pela primeira vez em 3 de Dezembro de 1764, quando se comprova o seu uso numa Acta de Eleição do Oriente de Bensanson, embora estivessem dispostos de forma distinta da actual, com dois pontos na vertical e um Terceiro em ângulo recto à sua direita.

O Pentagrama, ou Estrela Flamejante, possui um grande significado, podendo ser construída cruzando Três Triângulos iguais, sendo que se lhe pode atribuir o nome de Tríplice Triângulo Cruzado.

Os mesmos Três Triângulos dispostos doutra forma, representam o avental de Aprendiz, bem como o de Mestre.

A Letra G é a Terceira letra dos primeiros alfabetos (Gimel em Hebraico e Gama em Grego), sendo que, segundo alguns autores, significa Geometria.(A Geometria mede a extensão pelo ponto, a linha e a superfície; ela compreende a Trigonometria, ou Ciência do Triângulo e toda a superfície é redutível a Triângulos). No pentágono (símbolo do Companheiro) está implícito o triângulo (símbolo do Aprendiz) e no heptágono (símbolo do Mestre) está implícito o símbolo do companheiro.

G. L.

Nota

  • Esta Prancha foi realizada em 1998 aquando da passagem ao Grau de Companheiro.

Bibliografia

  • “Estudos Maçónicos”, Leon Zeldis, Ed. Trolha, Lda
  • “Ritual do A*M*”, Joseph-Marie Ragon, Ed. Pensamento
  • “Dicionário da FM e dos FM”, Alec Mellor, Ed. Sociedade das Ciências Antigas
  • “Dicionário de Maçonaria”, Joaquim Gervásio de Figueiredo, 33° , Ed. Pensamento

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