Uma aproximação do Zoroastrismo
A Maçonaria é permeada de tradições e símbolos que ecoam pela busca incessante pelo conhecimento e pela luz, e, assim, repleta de conhecimentos que remetem a mitologia persa. Existem poucas fontes que aproximem o estudioso da compreensão do zoroastrismo e do Mitraísmo. Neste sentido, o texto se propõe a servir de primeiro contacto com esse vasto universo, que nos intriga pela riqueza e complexidade das histórias.
Imaginemos um cenário onde o universo não é apenas palco de eventos visíveis, mas um teatro cósmico, onde forças invisíveis duelam, moldando o destino do mundo. É exactamente assim que a mitologia persa nos convida a reflectir sobre a realidade: um lugar onde luz e trevas travam batalhas eternas, personificadas em deuses, demónios e heróis que representam muito mais que simples personagens de lendas antigas. Nesta luta, o propósito maior é o equilíbrio, a busca pelo autoconhecimento e pela harmonia, temas profundamente ressonantes com os princípios da Maçonaria.
A antiga Pérsia, coração do actual Irão, era o lar dessas lendas que se entrelaçam com o Zoroastrismo ou masdaísmo, masdeísmo/mazdeísmo ou parsiano, uma das primeiras religiões monoteístas. O Avesta é o texto sagrado do zoroastrismo, religião fundada por Zaratustra (ou Zoroastro), e é considerado um dos livros religiosos mais antigos. Embora o zoroastrismo e a religião védica dos brâmanes compartilhem algumas raízes culturais, são tradições religiosas distintas. O zoroastrismo desenvolveu-se na antiga Pérsia, enquanto os textos védicos e o hinduísmo são originários da Índia. Os Vedas, que são os textos sagrados mais antigos do hinduísmo e da religião bramânica, são independentes do Avesta, apesar de ambos os sistemas religiosos terem influências arianas comuns na sua origem [BOYCE, 2001].
Zaratustra foi um profeta que viveu provavelmente entre 1500 e 1000 a.C. (as datas exactas são debatidas). Ele nasceu na região que corresponde ao actual Irão ou Ásia Central, e foi um reformador religioso que se opôs aos rituais antigos e ao politeísmo prevalente na sua época. A Ssua principal contribuição foi pregar o monoteísmo, centrado no culto a Ahura Mazda, o deus supremo, e uma ênfase na moralidade pessoal baseada no livre-arbítrio. [GATHA, s.d.].
Também é visto como um profeta que recebeu visões de Ahura Mazda, e os seus discípulos e seguidores ajudaram a preservar os seus ensinamentos, tanto oralmente quanto por escrito, posteriormente compilados no Avesta durante o período do Império Sassânida, por volta do século IV d.C. [BOYCE, 1979].
Zaratustra não deixou escritos directamente, mas os seus ensinamentos estão preservados nas Gathas, que fazem parte do Yasna. A sua mensagem central é a luta pela verdade (asha) contra a mentira (druj), e ele encorajava os seres humanos a escolherem o bem através do seu livre-arbítrio. [MEHR, 2003].
São os seus principais ensinamentos:
- Dualismo moral: Zaratustra introduziu o conceito de uma luta eterna entre o bem (Ahura Mazda) e o mal (Angra Mainyu), com os humanos desempenhando um papel crucial na escolha entre essas forças.
- Livre-arbítrio: Os seres humanos devem escolher entre a verdade (asha) e a mentira (druj), e assuas acções determinam o seu destino no julgamento final.
- Ressurreição e Frashokereti: O zoroastrismo ensina que, no fim dos tempos, haverá um julgamento universal e a vitória final do bem, com a renovação do mundo (Frashokereti) e a ressurreição dos mortos.
O Avesta contém os ensinamentos e hinos litúrgicos da religião, assim como instruções sobre leis de pureza e rituais religiosos. Ele é dividido em várias partes, sendo as mais importantes:
- Yasna: A principal seção litúrgica do Avesta, que inclui os Gathas, hinos atribuídos directamente a Zaratustra. Estes hinos enfatizam o papel do ser humano no universo, o seu livre-arbítrio, e a luta entre o bem e o mal.
- Visperad: Uma colecção de orações complementares ao Yasna, usada em cerimónias específicas.
- Yashts: Hinos dedicados às divindades menores, chamadas Yazatas, que são emanações de Ahura Mazda (o deus supremo do zoroastrismo) e estão associadas a elementos naturais, como a água e o fogo.
- Vendidad: Um conjunto de leis e mitos, incluindo instruções sobre purificação e protecção contra espíritos malignos.
A narrativa zoroastriana começa com Ahura Mazda criando o universo perfeito, cheio de ordem e harmonia e ele é o governante da criação e o protector da ordem moral. Ahura Mazda (“Senhor da Sabedoria”) cria o mundo em sete etapas ou criações: o céu, a água, a terra, as plantas, os animais, os humanos, e por fim o fogo, que é sagrado no zoroastrismo. Mas, Angra Mainyu corrompeu essa criação com o mal, introduzindo caos, doenças e morte. Este acto de corrupção dá início ao conflito cósmico entre as forças do bem e do mal.
O objectivo final do zoroastrismo é o Frashokereti, o tempo no qual o bem triunfará sobre o mal, Angra Mainyu será destruído, e o universo será purificado e restaurado à sua forma original, perfeita e imortal. Isso será seguido pela ressurreição dos mortos, o julgamento final e a vida eterna para os justos. Todos os mortos serão ressuscitados e julgados com base nas suas escolhas morais. De acordo com essa crença, no final do conflito entre Ahura Mazda e Angra Mainyu, haverá um renascimento do mundo. O mal será derrotado para sempre, Angra Mainyu será destruído, e o universo será purificado.
Esta visão de restauração final se assemelha a algumas crenças escatológicas de outras religiões, como o Apocalipse no cristianismo, onde o mundo será julgado e renovado.
No zoroastrismo, além de Ahura Mazda, o deus supremo, há várias entidades divinas menores chamadas Amesha Spentas (Espíritos Santos ou Benéficos) e Yazatas. Estes seres menores não são “deuses” no sentido de divindades autónomas, mas são emanações ou aspectos da criação de Ahura Mazda, ajudando na manutenção do mundo e na luta contra as forças do mal, representadas por Angra Mainyu (Ahriman) e seus seguidores.
Os Amesha Spentas são as seis emanações mais elevadas de Ahura Mazda. Eles são aspectos da sua divindade e também actuam como guardião de diferentes partes da criação. Eles simbolizam qualidades espirituais e virtudes que os seguidores do zoroastrismo devem cultivar. Os Amesha Spentas são:
- Vohu Manah (Bom Pensamento): Responsável por guiar os humanos a tomar decisões correctas e justas.
- Asha Vahishta (Melhor Verdade ou Justiça Divina): Representa a verdade e a ordem cósmica.
- Spenta Armaiti (Devoção Santa): Relacionada à piedade e devoção, ela é também associada à Terra.
- Khshathra Vairya (Domínio Desejável): Simboliza a paz e o governo ideal.
- Haurvatat (Integridade ou Perfeição): Guardiã das águas e símbolo de saúde e perfeição.
- Ameretat (Imortalidade): Guardiã das plantas e símbolo da imortalidade espiritual.
Estes seis Amesha Spentas, junto com Ahura Mazda, constituem uma heptade divina que supervisiona e protege a criação de Ahura Mazda. Eles estão associados a elementos do mundo natural e representam virtudes morais que os zoroastrianos devem seguir.
Além dos Amesha Spentas, o zoroastrismo reverencia os Yazatas, que são seres espirituais criados por Ahura Mazda para ajudar a guiar a criação e manter a ordem contra as forças do caos e da destruição de Angra Mainyu. Alguns dos Yazatas mais conhecidos são:
- Mithra (Mitra): Divindade associada à luz, ao juramento e aos contratos. Mithra protege o pacto entre homens e entre homens e Ahura Mazda.
- Sraosha: Yazata da obediência e da disciplina, ele também é responsável por proteger a humanidade das influências do mal.
- Anahita: Divindade associada à fertilidade e às águas, também relacionada à pureza.
- Verethragna: Yazata da vitória e da guerra, frequentemente invocado em batalhas.
Estes seres são intermediários entre Ahura Mazda e a humanidade, ajudando a garantir a ordem cósmica e a manter o equilíbrio no universo.
Mitra, nesse contexto, era originalmente uma divindade menor que se tornou um intermediário entre Ahura Mazda e os seres humanos. Ele era o defensor da verdade e o garantidor dos contratos e juramentos, assegurando que as promessas feitas fossem cumpridas. O seu papel de “guardião dos contratos” simbolizava não apenas acordos humanos, mas também o equilíbrio cósmico e a ordem do universo. Isto reflecte o seu papel de justiça divina e mediador da ordem cósmica, onde a palavra dada tem um valor sagrado.
Há uma relação simbólica com o ciclo do dia e da noite no zoroastrismo, representando a eterna luta entre luz e escuridão, entre o bem e o mal. O Sol, especialmente ao meio-dia, é frequentemente associado à vitória da luz e da verdade (asha), enquanto a noite representa a escuridão e as forças de Angra Mainyu.
- Meio-Dia: No simbolismo zoroastriano, o meio-dia, quando o Sol está no seu ponto mais alto, simboliza o ápice da luz e a presença máxima de Ahura Mazda. É um momento de pureza, clareza e verdade.
- Meia-Noite: O oposto ocorre à meia-noite, que representa o domínio das trevas e das forças de Angra Mainyu. No entanto, o nascer do Sol sempre simboliza o retorno da ordem e da justiça, restaurando o equilíbrio.
O cerne da mitologia persa, portanto, é a representação simbólica do conflito entre Ahura Mazda, o deus da luz, e Angra Mainyu (ou Arimã), a entidade das trevas e da destruição. Ahura Mazda é o deus supremo, criador do universo, fonte de toda luz e sabedoria. Já Angra Mainiu é a escuridão, o caos, o princípio destrutivo.
O zoroastrismo é fortemente dualista, essa divisão entre luz e trevas, vida e morte, é a sua própria essência, mas também é o cerne de muitos rituais maçónicos, onde a aprendizagem muitas vezes passa pelo contraste entre ignorância e sabedoria, entre o caos e a ordem, entre a ignorância, o erro e a luz do conhecimento.
O zoroastrismo também apresenta um universo habitado por diferentes tipos de seres, além dos deuses e espíritos:
- Ahuras: Divindades benéficas que seguem Ahura Mazda.
- Daevas: Espíritos malignos que seguem Angra Mainyu. Eles representam as forças do mal, da mentira e do caos.
- Fravashis: Espíritos protectores que representam tanto os antepassados quanto os aspectos espirituais das pessoas ainda vivas. Eles ajudam a proteger a ordem no universo e combatem os Daevas.
- Ahriman (Angra Mainyu): O espírito maligno que corrompe e destrói, em oposição a Ahura Mazda.
- Humans (Seres Humanos): Têm o livre-arbítrio e desempenham um papel central no universo zoroastriano. Eles são chamados a escolher entre as forças do bem (asha) e do mal (druj).
Embora umbilicalmente interligados, não se pode confundir o zoroastrismo com o mitraísmo. O mitraísmo foi uma religião de mistérios que se desenvolveu no Império Romano (especialmente entre o século I e IV d.C.) e era influenciada pelas crenças persas de Mitra. O culto a Mitra, ou Mithras, foi particularmente popular entre os soldados romanos. No mitraísmo, Mitra é representado como um “herói solar”, o “Sol Invictus”, e associado à luta contra as forças das trevas.
O mitraísmo era eminentemente iniciático, com vários graus de progressão. Os seus rituais eram realizados em locais chamados mithraeums, cavernas ou salas escuras que representavam o cosmos. A cena central da mitologia mitríaca é o tauroctonia, onde Mitra sacrifica um touro, simbolizando a vitória da luz sobre as trevas e a fertilidade da terra. Este sacrifício estava conectado à renovação e ao poder cósmico, reflectindo a crença de que Mitra ordenava o cosmos e estabelecia o equilíbrio.
O dia de adoração a Mitra era o domingo, dia do Sol, o que reflecte a conexão com o culto solar. Muitos estudiosos acreditam que o mitraísmo compartilha similaridades com o cristianismo, especialmente no simbolismo da luta entre o bem e o mal, o nascimento em 25 de Dezembro (nascimento do Sol invictus), e o banquete ritualístico.
Enquanto o zoroastrismo era uma religião estabelecida, com textos sagrados e uma estrutura teológica, e o mitraísmo, que era mais um culto de mistérios, sem um conjunto de escrituras e com base em rituais secretos.
O Zoroastrismo e o Mitraísmo, duas tradições profundamente enraizadas na antiga Pérsia, oferecem mais do que uma simples compreensão do passado. Como destacado por Mary Boyce, renomada estudiosa do Zoroastrismo, “estudar essas religiões é entender as fundações da espiritualidade humana, onde o bem e o mal são forças tangíveis que moldam o destino do mundo” (Zoroastrians: Their Religious Beliefs and Practices).
Estas tradições, embora antigas, continuam a nos desafiar a reflectir sobre a dualidade da existência e a luta eterna que travamos dentro de nós mesmos. Elas são um convite para que, como Zaratustra e Mitra, sejamos heróis nas nossas próprias vidas, buscando sempre a luz e trabalhando incansavelmente para superar as trevas, não apenas do mundo externo, mas também das nossas próprias limitações e ignorância.
A importância de estudar e observar essas antigas tradições não está apenas em desvendar mitos ou rituais, mas em reconhecer que os temas universais presentes nessas narrativas continuam a ressoar na nossa busca por equilíbrio e harmonia. A moralidade, o livre-arbítrio, e a jornada em direcção à luz são valores que transcendem o tempo, mostrando-se relevantes nas discussões modernas sobre ética e espiritualidade.
À medida que continuamos a estudar o Zoroastrismo e o Mitraísmo, não apenas expandimos o nosso entendimento histórico, mas também encontramos reflexões profundas sobre o papel do ser humano no universo. A busca incessante pela verdade, como pregada por Zaratustra, e a simbologia da luz representada por Mitra, nos convidam a questionar as nossas próprias escolhas e acções num mundo que ainda luta entre a luz e a escuridão. Essas tradições são, portanto, não apenas relicários do passado, mas guardiãs de sabedoria atemporal, fundamentais para qualquer estudioso comprometido com a busca por autoconhecimento e compreensão espiritual.
Esta jornada de investigação é essencial para aqueles que buscam conectar o conhecimento ancestral e, especialmente para aqueles que vão enfrentar os graus filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito, além de servir de base para inspirar reflexões sobre a natureza humana e a relação com o cosmos.
Lucas do Couto Santana
Referências
- Avesta.org. Disponível em: https://www.avesta.org. Acesso em: 20 out. 2024.
- BOYCE, Mary. Zoroastrianism: A Shadowy but Powerful Presence in the Judaeo-Christian World. In: The Cambridge History of Iran. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. Acesso em: 20 out. 2024.
- DARMESTETER, James. The Zend-Avesta: Part I. Sacred Books of the East, Vol. 4. Tradução de James Darmesteter. Disponível em: https://sacred-texts.com/zor/sbe04/index.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- Toda Matéria. Zoroastrismo. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/zoroastrismo/. Acesso em: 20 out. 2024.
- Sua Pesquisa. Zoroastrismo. Disponível em: https://www.suapesquisa.com/historia/zoroastrismo.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- Zaratustra. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zaratustra. Acesso em: 20 out. 2024.
- Escola Educação. Zoroastrismo. Disponível em: https://escolaeducacao.com.br/zoroastrismo/. Acesso em: 20 out. 2024.
- Brasil Escola. Zoroastrismo – Religião dos Antigos Persas. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/mitologia/zoroastrismo-religiao-dos-antigos-persas.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
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- Info Escola. Zoroastrismo. Disponível em: https://www.infoescola.com/religiao/zoroastrismo/. Acesso em: 20 out. 2024.
- História do Mundo. Zoroastrismo. Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/religioes/zoroastrismo.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- Mundo Educação. Zoroastrismo. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/zoroastrismo.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- Mega Curioso. Zoroastrismo: A Religião Persa que Influenciou o Ocidente. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/121436-zoroastrismo-a-religiao-persa-que-influenciou-o-ocidente.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- Religião.app. O Legado do Zoroastrismo na Cultura Ocidental. Disponível em: https://religiao.app/o-legado-do-zoroastrismo-na-cultura-ocidental/. Acesso em: 20 out. 2024.
- Maxwell, PUC-Rio. O Zoroastrismo e Sua Influência. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/56491/56491_4.PDF. Acesso em: 20 out. 2024.
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