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Transformação individual profunda, Maçonaria contemporânea e política

✍️ Desconhecido 📅 21/05/2024 👁️ 8 Leituras

transformação

Um pequeno ensaio opinativo conectando alguns pontos

Durante um curso de formação em História da Maçonaria no ano de 2019, o qual fiz parte como discente, houve um desafio dentro de um fórum avaliativo. Compartilho a seguir a minha primeira interacção no fórum. Ela foi ajustada e apresentada aqui como um singelo ensaio opinativo de sobrevoo com o propósito de estimular reflexões que descortinem com mais profundidade e assertividade os assuntos aqui tratados.

Neste fórum deveríamos nos posicionar individualmente sobre os tópicos trabalhados numa determinada disciplina conforme o seguinte comando:

“Caro Aluno,

De sua livre escolha, considere analisar, desenvolver e apresentar conclusões sobre dez (10) dos vinte (20) tópicos que compõem a Unidade 1 (Maçonaria e Política), submetendo-as à consideração dos demais componentes e participantes do fórum, sustentando, com eles, o seu posicionamento cultural e intelectual. Os assuntos deverão ser expostos no fórum em ordem de relevância, de modo que o primeiro apresentado possa ser considerado o mais relevante para você, e assim sucessivamente, de modo que todos saibam o que você destacou como relevante para alimentar a discussão no fórum. A palavra é sua! E de cada um!”

Prezados.

Frente a solicitação para analisar, desenvolver e apresentar considerações relacionadas à dez tópicos de elevada relevância (dentre os vinte elencados) optei por apresenta-los de forma sintética, numa sequência argumentativa, em vez de pontuar uma discussão em separado para cada conceito conforme brilhantemente foi pontuado pelos nobres colegas em diversos momentos do referido fórum.

Acredito que a presente abordagem assume o desafio de complementar, em alguns aspectos, várias reflexões já realizadas pelos colegas no debate e nos remeter a uma reflexão com certo grau de direccionalidade que nos proporcionaria algumas discussões posteriores e mais profundas sobre o papel da Maçonaria tanto na política local, quanto na política mundial.

Antes de prosseguir convém ressaltar a necessidade de compreendermos que o termo “política” é entendido neste presente texto como “todos os assuntos relacionados a vida e convivência em sociedade” e não está circunscrito aos usos específicos e restritos do termo na esfera da administração pública ou no âmbito dos conflitos e disputas entre posições partidárias existentes dentro daquilo que poderemos denominar de Espectro Político Ideológico. Consequentemente, estamos usando o termo “política” vinculado aos aspectos mais ampliados das relações humanas e sociais e não ao incentivo à militância sectária de ideologias partidárias.

Nesta reflexão, sem a pretensão de emitir nenhum posicionamento conclusivo, exponho um entendimento pessoal conectando os dez tópicos escolhidos na seguinte ordem de importância: 1) Iluminismo; 2) Positivismo; 3) Liberalismo; 4) Globalização; 5) Descolonização; 6) Subdesenvolvimento; 7) Guerra Fria; 8) Genocídio; 9) Etnocídio e 10) a ideia de revolução maçónica.

Inicialmente, vale destacar que o Iluminismo, como movimento intelectual que se manifestou na Europa por volta do Século XVIII, assume o papel de marco histórico impulsionador de profundas mudanças de paradigmas na sociedade ocidental que se alastraram para todos os continentes e geraram efeitos que permanecem activos até os dias de hoje. As influências do ideário germinado no “Século das Luzes” foram sentidas nos mais diversos campos do saber e de actuação do homem como nas ciências, na filosofia, nas artes, na economia e na política. Tanto o Positivismo (entendido como corrente/doutrina filosófica, sociológica e política que defende a ciência como a única base legitima de sustentação da verdade), quanto o Liberalismo (entendido como doutrina/ideário que defende a liberdade económica e política como princípio e direito básico do indivíduo) podem ser concebidos como participes deste processo de transformação.

Entretanto, por mais que estes fenómenos tenham provocado significativo avanço na produção do conhecimento e desenvolvimento de tecnologias voltadas para melhoria (sob determinados aspectos) da qualidade de vida do homem, ainda se percebem fortes limitações nestes ideários na medida em que constatamos na realidade vivida as mazelas ainda não superadas do pensamento moderno. Um exemplo frequentemente usado (e que não esgota o assunto), diz respeito ao facto de que, ao mesmo tempo em que avanços na produção de conhecimento em medicamentos e em alimentos são concretizados numa curva exponencial, camadas cada vez mais extensas da humanidade não possuem acesso aos benefícios oriundos destes desenvolvimentos.

Deixar de conceber a Maçonaria como instituição possuidora de estreitas ligações com estes três fenómenos (Iluminismo, Positivismo e Liberalismo) seria negar a existência de uma evolução histórica fartamente materializada através de documentos que registram factos e relatos sobre o envolvimento de instituições maçónicas, e pessoas denominadas de maçons, em várias acções associadas ao movimento iluminista, bem como à defesa e implantação dos preceitos do positivismo e do liberalismo em diversas áreas e sectores da sociedade nos mais variados continentes e países.

Entretanto, ao tentar resgatar a origem da Maçonaria para períodos anteriores ao surgimento da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717, temos um pouco de dificuldade de categoriza-la como patente “Filha do Iluminismo” na medida em que o termo “filha” nos remete à concepção de “ter sido gerada por…”.

Podemos, no meu singelo entendimento, conceber Maçonaria como “Companheira” ou “Amante” do Iluminismo, visto que, no seu percurso ontológico, vem se modificando desde o seu período Operativo até à sua actual configuração Moderna ou Especulativa, configuração esta que ainda predomina na contemporaneidade, denominada por alguns de Pós-Modernidade.

Desta forma, podemos conceber que a “Maçonaria Moderna” (termo que ainda merece uma reflexão mais aprofundada que extrapola os limites deste fórum), possui fortes traços de aculturação provenientes do seu “casamento” com o movimento Iluminista e, consequentemente, carrega em si os avanços e dilemas oriundos desta importante relação.

É dentro desta seara que as temáticas relacionadas com os fenómenos da Globalização (entendido como um processo de ampliação das redes internacionais de integração económica, social, política e cultural entre os Estados Nações), da Descolonização (entendido como um processo de aquisição de libertação colonial entre povos) e Subdesenvolvimento (entendido por alguns pensadores como uma maneira de categorizar e comparar povos sobre diversos critérios, dentre eles o económico) são passiveis de serem analisadas sob os preceitos maçónicos e discutidos à luz da visão do homem contemporâneo.

Por mais que a relevância nas discussões sobre estes fenómenos tenha eclodido em pleno Século XX, os mesmos possuem profundas raízes nas mudanças das concepções de sociedade, de política e de economia ocorridas durante os Séculos XVIII e XIX, e ainda são temas pulsantes nos nossos dias.

As diversas manifestações e nuances observadas pelas conexões que integram as trocas entre os mais variados povos/culturas, bem como as diversas iniciativas de independência e libertação que continuamente vêm tomando forma em todo o globo e as disparidades de riqueza e qualidade de vida entre pessoas, povos e regiões remetem aos integrantes das instituições maçónicas reflectirem e se posicionarem quanto aos avanços, limites, desafios, conflitos, aproximações, afastamentos, inclusões e exclusões gerados por estes fenómenos na medida em que as suas consequências estão presentes fora e dentro do ambiente maçónico.

Ancorados nesta enseada, e envoltos na expectativa saudosa de resgate da acção maçónica sobre temas que envolvem sofrimento humano extremo, externada por vários maçons que aludem a actual falta de actuação mais decisiva da Ordem nas transformações sociais, surgem ao lado de outros temas a Guerra Fria (que actualmente se configura de maneira diferente daquela que inicialmente foi relacionada aos conflitos entre Estados Unidos e União Soviética entre 1945 a 1991); o Genocídio (que é definido como extermínio de indivíduos motivados por diferenças étnicas, nacionais, religiosas e sócio-políticas) e Etnocídio (caracterizado pela destruição dos traços culturais de uma etnia por outra).

Sobre este aspecto, vale ressaltar que, em um mundo globalizado, somos remetidos ao diálogo com vários povos, culturas e etnias possuidoras de histórias, crenças e traços que muitas vezes se confrontam. As guerras e disputas que actualmente o mundo enfrenta, ao mesmo tempo que se manifestam em ambientes territorialmente delimitados, também se ampliam para todos os círculos de convivência humana na medida em que estamos todos conectados. É neste ponto que a necessidade do cultivo da tolerância e do respeito à diversidade convive ao lado da necessidade do cultivo do discernimento característicos dos preceitos defendidos pelas Ordens Maçónicas.

Frente a capacidade do ser humano de auto-extermínio por meios atómicos, químicos e biológicos, bem como da histórica e provada capacidade do ser humano de exterminar física e culturalmente povos entre si, somos levados a reflectir sobre papel que exercemos neste cenário. É neste contexto, que a reflexão sobre o papel do Maçom e da Maçonaria se apresenta como pauta relevante frente ao campo da política local/nacional/mundial e que a Ideia de Revolução Maçónica pode ganhar sentido nos tempos de hoje.

Ao reflectirmos sobre a expressão “revolução maçónica” percebemos que ela pode compreender conotações diferenciadas como:

  • Participação/influência directa/Indirecta em eventos (ou transformações) históricas do passado,
  • Mudança interna da Ordem visando promover ajustes frente as transformações, sociais, culturais, políticas e tecnológicas de cada época e
  • Participação/influência directa/Indirecta nas transformações/mudanças na (e da) sociedade contemporânea.

Chamamos a atenção que a palavra “revolução” não é usada aqui como um conjunto de acções caracterizadas pela utilização de conluios, de armas ou de destruição alheia contra pessoas, grupos, partidos ou regimes políticos. A palavra “revolução” é usada neste texto como “Transformação Individual Profunda” baseada em mudanças expressivas sobre alguns aspectos do pensamento, da palavra e da acção dos obreiros contemporâneos, que irá reflectir na maneira como as dinâmicas e estruturas das Ordens funcionam.

Entendo que provavelmente a revolução se dará de forma integrada em duas dimensões distintas: “Dimensão dos relacionamentos internos da Ordem” e “Dimensão dos relacionamentos externos da Ordem”.

No que diz respeito a dimensão dos relacionamentos internos, três movimentos indutores se apresentam como potenciais vectores promotores de mudança:

  • Transformação de processos visando ajustar as instituições maçónicas aos impactos da Era da Informação e do Conhecimento (ajustar-se às mudanças tecnológicas do presente sem perder os seus princípios fundamentais);
  • Transformação de paradigmas maçónicos (primando pela não descaracterização da tradicionalidade) no sentido de a Ordem ampliar a sua capilaridade em nichos considerados actualmente excluídos, a exemplo das mulheres e dos deficientes físicos; e
  • Implementação de acções que proporcionem a consolidação de um ordenamento maçónico mundial integrado que permita o estabelecimento de uma rede que garanta o franco diálogo e reconhecimento entre as instituições maçónicas que se intitulam regulares em todos os continentes.

No que diz respeito a dimensão dos relacionamentos externos, considero que o vector da “revolução maçónica” ganhará impulso sob a forma de como as Instituições maçónicas assumirão os seus posicionamentos e papéis quanto ao enfrentamento de temas críticos locais e globais da contemporaneidade junto a sociedade e aos órgãos governamentais (fome, escravidão moderna, tráfico, genocídio/etnocídio, pobreza, meio ambiente, corrupção, educação, saúde, etc.), sem perder o seu carácter essencial frente aos princípios de formação humana e fraternal.

Desta forma, a “revolução maçónica”, isso é, a “transformação individual profunda”, torna-se um traço inerente ao processo de sobrevivência da Ordem no tempo e o Século XXI estará pondo mais uma vez o ideário maçónico a prova.

Alexandre Gomes Galindo

  • Bacharel e Mestre em Administração; Doutor em Sociologia.
  • Docente do Curso de Bacharelado em Administração e do Curso de Administração Pública (EaD) da Universidade Federal do Amapá.
  • Mestre Maçom do Grande Oriente do Brasil – Amapá (GOB/AP)
  • Membro Efectivo da Academia Amapaense Maçónica de Letras-AAML, Cadeira nº 19 – Patrono Joaquim Nabuco.
  • Membro Fundador da Academia Maçónica Virtual Brasileira de Letras-AMVBL, Cadeira nº 07 – Patrono Joaquim Nabuco.
  • Membro Efectivo da Confraria Literária Maçons em Reflexão, Cadeira nº 23 – Patrono Joaquim Nabuco.
  • Membro Correspondente da Academia de Ciências, Letras e Artes Maçónicas do Grande Oriente do Brasil no Pará-ACLAM/GOB-PA.

(Artigo Publicado na Revista GEPAM – Grupo de Estudos, Pesquisas e Artes da Maçonaria no Pará, v. 1; nº 7 – ABRIL 2024)

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