Templarismo: nas encruzilhadas da Escolha e do Destino

“Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam”
A escolha da via templária como tentativa de concretização das mais elevadas aspirações morais que para mim desejo radicou no profundo interesse e paixão que sempre acalentei pela leitura e estudo da História e, muito em concreto, das Ordens medievais de Cavalaria Iniciática e Espiritual.
O seu legado de conquistas, heroísmo, civilização e expansão espiritual da fé cristã sempre me pareceram dignas do mais profundo respeito, estima, admiração e, inclusivamente, afecto.
O Reino de Portugal era um Estado Templário – os Reis da nossa primeira dinastia eram, por inerência, Grão-Mestres da Ordem do Templo e, a partir de 14 de Março 1319, passaram a sê-lo em relação à Ordem de Cristo, sucedânea da Ordem Templária, criada por decreto do Papa João XXII, através sua bula “Ad ea ex quibus”.
Os bens e tesouros da Ordem Templária que convergiram em Portugal, sob o reinado de D. Diniz, “O Lavrador” ou “O Rei-Trovador” (1261–1325), sobreviventes da perseguição e roubo de que foram alvo em diversos reinos da Europa – França de Felipe IV, “o Belo”, “à cabeça” – foram mais tarde investidos na construção da Escola Naval de Sagres, que reuniu muitos dos maiores sábios das artes e ciências da Geografia, Astronomia, Cartografia, Matemática, Álgebra, Geometria, Alquimia ou Construção Naval e na Empresa dos Descobrimentos, que converteu um Reino bisonho, retrógrado, pobre e periférico num temível, pujante, próspero e respeitado Império Ultramarino, o “primeiro Império Global” da História da Humanidade.
Graças à epopeia dos Descobrimentos, o escudo da nossa Pátria ganhou uma esfera armilar como palco e “pano-de-fundo” dos sete castelos e das cinco chagas de Cristo que pontificam nos nossos cinco escudetes.
Foi a “época dourada” de Pedro Nunes, o inventor do Nónio – versão depurada e melhorada do Astrolábio dos Mestres Árabes – de Garcia de Orta, de João de Barros, de Gil Vicente … e de Camões, o “bardo maior” da epopeia lusitana! Foi a época de Gil Eanes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral; de João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Gaspar Côrte-Real; de D. Francisco de Almeida, D. Afonso de Albuquerque ou D. João de Castro; de Martim Affonso de Sousa, do Infante Dom Henrique ou de D. Nuno Álvares Pereira!…
De Gonçalo Annes de Bandarra, “o Sapateiro de Trancoso” e Profeta do Mito do “Quinto Império” nas suas “Trovas” ou do Rei D. Sebastião, “o Desejado” ou “o Encoberto” (1554-1578).
Uma era em que o nome de Portugal era bordado a “letras de ouro” na História da Humanidade! E tudo graças à “Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão” e ao seu precioso legado de riquezas e conhecimentos científicos e iniciáticos ocultos.
Acresce, ainda, que no plano pessoal julgo ter características que me predispõem para a minha investidura na Ordem Templária – além do fascínio e interesse pela temática, o facto de ser descendente de algumas das mais antigas Famílias da Nobreza lusitana, o facto de ter nascido, a 16 de Março (a Ordem de Cristo foi fundada a 14 de Março e o Grão-Mestre Jacques de Molay foi supliciado na Bastilha, em Paris, a 18 de Março …) de 1975, no Brasil – a terra do “sonho templário”, como Fernando Pessoa lhe chamou um dia, na cidade de São Paulo, a maior cidade lusófona do mundo, com 23 milhões de habitantes, cujo brasão apresenta um cavaleiro ostentando uma bandeira com a Cruz de Cristo sobre o lema “Non ducor duco” (“não sou conduzido, eu conduzo”) contribuem, todos eles, para essa minha íntima e serena convicção.
A verdadeira nobreza, essa, reside na simplicidade (sem ser simplório), na humildade, sem subserviências, e na pureza do pensamento e do coração.
Agradeço aos meus Irmãos Senhores Cavaleiros o absoluto privilégio que me proporcionaram ao aceitarem a minha consagração como Escudeiro Noviço no Grande Priorado de Portugal – OSMTH e com eles conto, e disso não abdico, para continuar a crescer como Ser Humano e como Iniciado nos Deveres, Honras e Privilégios do Templarismo Espiritual e Iniciático.
Deixo, agora, à vossa leitura e consideração este pequeno texto que é, para mim, de solene importância – trata-se do meu “Testamento Cavaleiresco Templário”.
Gostaria que um dia fosse lido aos meus filhos, como Prova de Amor e Legado, quando eu já cá não estiver, nesta dimensão “espaço-tempo” a que chamamos “vida”.
“As tentações não são ferozes, nem vencem pela força … a sua arma essencial é a astúcia. As tentações conhecem-nos por dentro, pelo que não se combatem com mentiras mas com a vontade e a verdade. Ninguém está isento do momento em que, de súbito, a paz se acaba, mas, se formos rápidos na resposta, evitaremos que o inimigo conquiste o poder de nos dominar, dividir e anular.
Muitos são escravos das suas perdições, assumem-se como vítimas, são fracos por opção, e não lutam. Acolhem o mal no seu íntimo, fazendo-o hóspede, dão-lhe as chaves do seu coração, acreditando nas promessas de realização de sonhos que as tentações lhes apresentam. Quando passa o tempo e se dão conta que estão agora mais longe do seu objectivo … perdem-se mais, tornando-se presas ainda mais expostas.
São os limites que marcamos para nós mesmos que nos definem. A minha identidade é uma unidade onde tem de haver uma distinção entre o que quero e o que não quero. Entre o que aceito e o que não aceito. Entre o que erguerei e o que destruirei em favor do maior bem.
As tentações encantam e fazem acreditar que os desejos mais íntimos são justos e serão por elas satisfeitos. Ora, é talvez por aí que deve começar a nossa cruzada contra tudo o que nos destrói: analisar e avaliar bem os desejos, anulando todos quantos são faces inocentes de perversidades profundas …
Lutamos porque somos homens e para sermos homens.
Estas seduções do Mal giram em torno de três eixos: o “Prazer”, o “Poder” e o “Ter”. Apontando-nos como futuro centro do mundo, se a elas nos submetermos. Mas nunca nenhum de nós é ou será o centro do mundo, e é bom que assim seja. A verdade e a beleza da vida passam pelo contraste entre a insignificância do que começamos por representar e o valor do que somos chamados a construir em nós e no mundo … com e para os outros. Ninguém se basta a si mesmo.
A arma de quem vive na eterna guerra das tentações é a vigilância. Quanto mais cedo e de forma mais resoluta se reconhecerem e enfrentarem, melhor será o resultado. Importa ter a consciência mais atenta à realidade do que à imaginação.
Devemos manter o coração em paz, apesar das feridas abertas, das chagas pelos golpes incessantes, umas vezes em cima de antigas cicatrizes, outras em pontos que nunca antes haviam sido tocados … golpes sempre subtis, firmes e certeiros.
A vida é uma luta áspera contra a morte, contra o mal que nos quer desunir, contra a ausência de um sentido profundo. Viver é atacar o que atenta contra a vida. Viver é defender a nossa vida … com a vida.
Importa sempre vigiar, ponderar e concentramo-nos nos objectivos que vamos traçando, na história que construímos, ano a ano, dia a dia, a cada momento. Numa lógica de prudência a longo prazo … a longuíssimo prazo. Afinal, um homem não é um momento, mas uma história que se estende no infinito diante de si.
O nosso coração deve ser um castelo. De onde expulsamos, sem demoras, tudo quanto atenta contra o nosso bem. Sem excessos nem cobardias. Em paz.
O que sofremos tem sentido. A cruz pode sempre ser a espada com que nos defendemos do que ataca o brilho do nosso olhar!
Ser feliz passa por ser humilde e sereno. Por guardar a paz, atender a quem precisa, dando sempre o que somos e temos, moderando sempre o que em nós quer ir além do simples … amando sempre.
Porque, como diria Leonardo da Vinci, “a simplicidade é o supremo estadio de sofisticação”.
Disse, Senhor Comendador desta respeitável Casa de Silves.
“Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam”
ECE, MM e CPTJ – OSMTH / GPP
