Freemason

Os mais de 200 anos do Rito de Emulação

✍️ Desconhecido 📅 07/05/2025 👁️ 5 Leituras

Avental VM Rito de Emulação

O que é a Maçonaria?

Um Sistema Peculiar de Moralidade

Desconstruindo a expressão “um sistema peculiar de moralidade, velado por alegorias”, frase, familiar a todos os Aprendizes Admitidos que se preparam para passar ao Segundo Grau, constitui uma chave para responder à pergunta ‘“O que é a Maçonaria?” e compreender a sua essência.

Um sistema peculiar

A própria expressão soa… peculiar!

Hoje em dia, o termo ‘peculiar’ costuma ser usado para descrever algo estranho ou excêntrico. Contudo, na linguagem maçónica, o seu significado é mais antigo e nobre: peculiar significa próprio, distinto, único.

Assim, ao dizermos que a Maçonaria é um sistema peculiar de moralidade, estamos a afirmar que se trata de um modo singular e autónomo de transmitir ensinamentos – um sistema que não depende de estruturas religiosas ou doutrinas exteriores, mas que tem identidade e personalidade próprias.

Um sistema de moralidade

Aqui reside o verdadeiro coração da Maçonaria.

Um sistema de moralidade é um modo organizado de transmitir valores éticos e princípios de conduta – lições de vida aplicáveis ao quotidiano e ao aperfeiçoamento do caráter.

Trata-se, pois, de uma escola de virtude. E, embora a linguagem e os rituais sejam antigos, os ensinamentos permanecem atuais e universais.

Velado por alegorias

Uma alegoria é uma narrativa simbólica com significados mais profundos, muitas vezes de natureza espiritual e/ou moral.

Nas cerimónias maçónicas, encontramos inúmeras metáforas – sobretudo ligadas à construção (pedreiros, colunas, ferramentas), mas também referências à natureza, ao cosmos e à alma humana.

Esta tradição tem raízes clássicas: acreditava-se que, ao estudar a natureza, poderíamos compreender melhor a mente do Criador – como se praticássemos uma espécie de engenharia inversa espiritual.

Na Maçonaria, as alegorias não escondem – antes revelam, à medida que nos dispomos a interpretá-las.

Ilustrado por símbolos

O simbolismo é uma das linguagens mais poderosas da Maçonaria.

Desde a entrada do Iniciado na Loja, os símbolos rodeiam-no: são ferramentas de trabalho, capazes de transmitir conceitos complexos de forma acessível e memorável.

Num tempo em que nem todos sabiam ler, os símbolos serviam como livros silenciosos – imagens que falam diretamente ao espírito.

Hoje, continuam a oferecer camadas sucessivas de interpretação, acompanhando o progresso interior de cada Maçom.

O Significado de “Peculiar” (em profundidade)

Para reforçar a ideia, vale a pena explorar o termo com mais detalhe. ‘Peculiar’, na tradição maçónica, indica:

  • Algo próprio, com identidade distinta e não subordinado a qualquer religião ou doutrina;
  • Algo único, que utiliza métodos próprios – como alegorias e símbolos – para ensinar princípios morais.

Porquê usar alegorias?

As alegorias permitem transmitir ideias complexas de forma envolvente e memorável. Tomemos como exemplo a história de Dido e Eneias, contada por Virgílio: à superfície, uma narrativa de amor e abandono; mas, como alegoria, revela conflitos intemporais entre o dever e a paixão, a esperança e o desespero.

A força da alegoria está na sua universalidade: fala a todas as épocas e a todos os homens.

Na Maçonaria, a História de Hiram Abiff, encenada no Terceiro Grau, é uma poderosa alegoria sobre fidelidade, sacrifício e ressurreição espiritual. Ecoa o ensinamento bíblico:

“Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”

Tal como os grandes mitos, esta alegoria continua a ressoar no coração de cada Maçom – seja inglês do século XVIII ou português do século XXI.

A Maçonaria é, de facto, um sistema peculiar de moralidade – próprio, distinto e autónomo – que comunica uma mensagem intemporal de fé, fraternidade e desenvolvimento interior.

E fá-lo velando os seus ensinamentos por alegorias, e ilustrando-os com símbolos que despertam a mente e tocam o coração.

Por que Emulação?

Dado que a grande maioria das Lojas sob a Constituição inglesa – bem como muitas outras sob constituições estrangeiras – adotaram a ‘Emulação’ como base ritual, é legítimo perguntar:

Que justificação existe para este ritual de trabalho ter alcançado tanta predominância?

Uma resposta imediata é que a Emulação assenta em três pilares essenciais: autoridade, autenticidade e continuidade, como a sua história claramente demonstra.

Origens e Consolidação

Quando as duas Grandes Lojas, ‘Antiga’ e ‘Moderna’, se uniram a 27 de Dezembro de 1813, foi criada a Loja de Reconciliação [1], com o propósito de estabelecer e demonstrar um ritual comum para a nova Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE).

A Loja de Reconciliação concluiu a sua missão em junho de 1816, com a aprovação oficial dos rituais dos três graus pela Grande Loja.

“Nasce então a necessidade de preservar e divulgar esse ritual comum. ”

Fundação da Emulation Lodge of Improvement

  • Em 1817, é fundada uma Loja de Instrução com o objectivo de demonstrar e dar vida aos rituais então estabelecidos.
  • A 2 de Outubro de 1823, surge a Emulation Lodge of Improvement, composta por membros das Lojas de Reconciliação e outras, com um objetivo claro:

“Formar e motivar Mestres para adotarem o Emulation Working, como padrão ritualístico da Constituição inglesa e de muitas outras constituições estrageiras.”

A Emulação manteve sempre como princípio:

“Corrigir o erro temporário antes que este se torne regra.”

O desígnio da Emulação era, inicialmente, ensinar através de palestras. No entanto, no início da década de 1830, passou também a realizar demostrações – prática que se mantêm até hoje.

Tradição Oral

Porque é que o ritual de Emulação não estava disponível em formato impresso?

A UGLE declarou: “Não publicar nem autorizar qualquer forma específica de ritual.”

Em coerência com práticas operativas antigas, a Emulation Lodge of Improvement seguiu a tradição de Schaw de 1598, na Escócia, confiando exclusivamente na transmissão oral e na memória para a prática do ritual, ‘Emulation Working’.

Assim, durante mais de 150 anos, a Emulation Lodge of Improvement transmitiu o seu ritual exclusivamente por via oral, seguindo a tradição operativa escocesa de Schaw (1598).

A primeira edição oficial impressa do Ritual de Emulação só surgiu em 1969. o Comité da Grande Loja acabou por ceder e o Irmão A. Lewis ficou responsável pela elaboração da primeira versão do Ritual de Emulação oficial, publicado com o patrocínio da ‘Emulation Lodge of Improvement’ – uma edição que, com as alterações aprovadas, ainda hoje pode ser adquirida.

No entanto, antes de 1969, circularam algumas versões impressas de apoio, paralelas e não oficiais:

  • Carlisle (1825) – muito popular.
  • Claret (1838) – mais fiável.
  • Nigeriana – com excelentes rubricas para lojas isoladas.
  • Perfeita – abrangente, incluindo canções, discursos e palestras.

As Lojas podiam escolher livremente o livro ritualístico, entre versões como Perfect, Stability, Muggeridge, Taylor’s, Universal, entre outras.

Ritual

À pergunta – Um Venerável Mestre tem o direito de decidir qual o ritual a praticar durante o seu ano? – a Regra 155 do Livro de Constituições responde:

Os membros presentes em qualquer Loja… têm o direito indiscutível de regular os seus próprios procedimentos… desde que em conformidade com … o Ofício.

Ou seja, não cabe ao Venerável Mestre (nem ao Diretor de Cerimónias) alterar o ritual por decisão individual. A decisão deve ser da maioria da Loja.

Mudança na Great Queen Street… (Freemasons’ Hall)

De tempos a tempos, surgiram pedidos para atualizar o ritual de Emulação, de modo a refletir a evolução da sociedade. Nestes últimos 150 anos, o Conselho dos Assuntos Gerais foi extremamente reservado quanto a alterações. Na verdade, a única mudança significativa desde 1816 foi a suavização das cláusulas de penalização – por razões de decoro social.

O Comité da Loja de Emulação defende que, tendo a Grande Loja aprovado as três cerimónias em 1816, não cabe a nenhum corpo subordinado alterar palavras ou rubricas sem autorização superior. Qualquer Loja que trabalhe no ritual de Emulação, não tem permissão para o alterar.

Prática

Será praticada a verdadeira Emulação fora de Londres?

– Sim, tanto quanto possível e de forma fiel.

Houve alterações permitidas? Poucas ou nenhumas, no que respeita ao texto. O que se nota são pequenas variações nas chamadas “rubricas vermelhas”. (as rubricas vermelhas são as descrições das ações)

A Loja de Aperfeiçoamento de Emulação, assume que as cerimónias são conduzidas unicamente pelo Venerável Mestre, sem delegações – seja nas Pranchas de Traçar, nas Ferramentas dos Graus ou nas Obrigações.

Apesar das práticas modernas, valorizarem, a participação e encorajarem a partilha das tarefas. Assim, há partes que são atribuídas a Mestres Maçons e até a Aprendizes Admitidos. As partes como passagens de ’moralidade‘, são por vezes atribuídas aos Mestres, e as ‘ferramentas de Trabalho’ aos Aprendizes Admitidos.

No entanto, é comum uma ligeira modificação após a Obrigação‘. Embora o ritual impresso indique que o Sinal Penal’ deve ser cortado e os Diáconos baixem as varinhas no final das palavras do Solene Compromisso’, na prática, o sinal deve ser mantido até que o Volume da Lei Sagrada seja selado com um beijo, pois só nesse momento o Compromisso‘ se torna solenemente vinculativo.

Hoje em dia, é comum as Lojas realizarem, pelo menos, uma reunião de ensaio, senão mesmo uma verdadeira Loja de Instrução, por norma antecedendo as reuniões de Loja Aberta (ordinárias), muitas vezes reunindo Irmãos de duas ou mais Lojas – e, em certas zonas, até abertas a todos os Mestres Maçons. Esta prática remonta aos primórdios do século XIX.

Caixa de Fósforos prateada

A expressão “Caixa de Fósforos de Prata [2]” é, por vezes, entendida com admiração. Refere-se a uma tradição da Loja de Aperfeiçoamento de Emulação em oferecer uma Caixa de Fósforos de Prateada, com uma inscrição personalizada aos Antigos Mestres que, conduziram cerimónias completas sem uma única falha ritualística, quer nas falas, quer nas ações.

No dia 22 de outubro de 1897, o Ir. Major R. L. S. Badham, ocupava a Cadeira, conduziu os trabalhos do segundo grau de uma forma considerada exemplar pelo então membro sénior da Comissão, o Ir. Robert Clay Sudlow, que supervisionava essa reunião nessa ocasião. Sudlow ofereceu-lhe, no final, uma caixa de fósforos de prata como forma de assinalar esse feito; além disso – e inicialmente a expensas próprias, até que a Comissão decidiu que devia ser aliviado desse encargo – fez distinções semelhantes a outros Irmãos que atingissem um padrão equivalente.

Passados apenas alguns anos, a prática tornou-se uma tradição estabelecida e um Irmão que execute uma cerimónia a partir do Cadeira “sem necessitar de sugestões ou correções” recebe uma caixa de fósforos de prata gravada com o seu nome na frente e com a inscrição “E. L. of I.”, acompanhada do ano (por exemplo, “2° Grau & T.B. 1975”). Se o Irmão realizar outra cerimónia sem necessidade de correções, isso é igualmente registado da mesma forma. Se realizar todas as quatro cerimónias sem correções, é adicionada a menção “Registo Completo” no final da lista. Para se qualificar, a cerimónia deve ser conduzida pelo Venerável Mestre sem quaisquer erros, tanto nas palavras como nas ações.

Até ao final de maio de 2023, 367 Irmãos da Emulation L.of I. receberam uma caixa de fósforos prateada, por terem realizarem pelo menos um grau sem erros, e 121 obtiveram um registo completo, ou seja, completaram os quatro graus (Aprendiz Admitido, Companheiro do Oficio, Mestre Maçom e Companheiro do Santo Arco Real) sem uma única falha. A Emulation L. of I. reúne semanalmente, em Londres, durante oito meses por ano – um ambiente fantástico e onde se aprende com facilidade e rapidamente!

Não há dúvida de que, ao longo dos anos, muitos Irmãos foram motivados a trabalhar na Emulation Lodge of Improvement com o objetivo de conquistar esta invulgar distinção. Mas, não devemos esquecer que a caixa de fósforos é apenas um sinal de rigor técnico, não revelando nada sobre a qualidade ou o impacto da cerimónia. Muitas cerimónias absolutamente perfeitas em termos de palavras e nas ações, podem ser descritas como pouco inspiradoras, ao passo que muitos Irmãos que nunca receberam a caixa de fósforos já realizaram cerimónias inspiradoras, das quais qualquer um se poderia orgulhar com justiça.

Emulação

A Emulation Lodge of Improvement continua ativa e próspera, demonstrando o ritual tal como o faz há mais de duzentos anos. Continua a ensinar e a manter os mais altos padrões do Ritual Maçónico. E embora hoje existam menos praticantes, os melhores continuam a ser tão bons como os de antigamente.

Para nós, simples mortais, o caminho é perseverar no estudo, usar o nosso livro de ritual como ferramenta para aprender, memorizar, e fazer um trabalho digno quando o Venerável Mestre nos chamar a intervir.

“Assim Seja!”

As Origens do Ritual

Se recuarmos trezentos anos na história da Maçonaria, não encontramos qualquer evidência concreta quanto à natureza e ao conteúdo do ritual maçónico. Em Inglaterra, tudo o que encontramos é uma versão do Juramento do Maçom (anexada a outro documento maçónico), mas não sabemos quantas cerimónias existiam, e não temos qualquer ideia acerca da sua natureza ou dos segredos que nelas transmitidos.

Na Escócia, temos um pouco mais de sorte, pois ali existem claras evidências de um sistema de dois graus: um para o Aprendiz Admitido (Entered Apprentice), e outro para o Companheiro de Ofício (Fellow of Craft) ou Mestre. No entanto, mais uma vez, não temos informações concretas sobre o estilo ou a natureza do trabalho realizado, podendo apenas fazer suposições (com base em dados posteriores) quanto aos segredos associados a cada um desses graus.

De facto, todo o nosso conhecimento sobre o ritual maçónico primitivo provém de uma coleção de documentos que começou a surgir por volta do ano de 1696 e se prolongou pelo do século XVIII, praticamente até à atualidade. Estes documentos são geralmente conhecidos por um título pouco simpático: Exposições. Dividem-se naturalmente em duas categorias: manuscritos e impressos.

Os manuscritos foram copiados com esforço, servindo como curiosidades antiquárias, peças de museu ou auxiliares de memória ritualísticos – tal como os pequenos livros azuis usados atualmente.

As publicações impressas tiveram uma origem e finalidade diferentes: foram publicadas em jornais, panfletos ou folhas avulsas, geralmente com motivações ligadas ao lucro, entretenimento ou até rancor. Nestas circunstâncias, e independentemente do conteúdo, tendemos a atribuir maior valor aos manuscritos, pelo simples facto de que o lucro não esteve na base da sua criação.

No entanto, há uma característica comum a todos estes documentos: a sua fiabilidade é sempre questionável. A origem é duvidosa, a autenticidade é incerta e a própria existência destes textos implica uma violação do juramento maçónico de sigilo. Por isso, devem ser tratados com grande prudência e reserva.

Por outro lado, a total ausência de qualquer descrição oficialmente sancionada ou autorizada do ritual maçónico obriga-nos a analisar estes documentos com um grau de interesse muito superior àquele que, de outro modo, lhes atribuiríamos.

De entre todos estes documentos, os mais antigos são, naturalmente, os mais interessantes. Os mais relevantes para o nosso propósito são os quinze ou dezasseis textos que surgiram entre 1696 e 1730, pois cobrem um período de profundas mudanças evolutivas na Arte Real.

Quando da fundação da primeira Grande Loja, em 1717, as evidências disponíveis sugerem que, naquela época, as ‘Lojas de Londres’ apenas conheciam um sistema de dois graus. Em 1724 temos a primeira prova inglesa de um sistema de três Graus em funcionamento, e em 1726 na Escócia, sendo que um dos manuscritos fragmentários – o Manuscrito do ‘Trinity College’, Dublin, datado de 1711 – já indicava uma divisão tripla dos segredos maçónicos nessa época.

Em 1730, Prichard publicou ‘Masonry Dissected’, a primeira obra que afirmava apresentar o ritual maçónico completo dos três Graus: Aprendiz Admitido, Companheiro de Ofício e Mestre Maçom. Pelo sucesso que obteve, podemos acreditar que esta pequena obra desempenhou um papel significativo na estabilização do ritual maçónico, servindo de base ao sistema que conhecemos hoje.

Durante cerca de trinta anos, a obra de Prichard manteve-se como referência inigualável em Inglaterra. Foi reimpressa diversas vezes e amplamente lida e utilizada. Na década de 1760, observou-se o surgimento de uma nova vaga de publicações inglesas. No entanto, por essa altura, estas já apresentavam um padrão muito mais uniforme.

É impossível abordar o vasto tema do Ritual Maçónico em breves parágrafos. A intenção ao apresentar este texto é precisamente a de explicar, de forma concisa, a nossa história maçónica e a origem do nosso ritual.

Seguramente que, a maioria de nós já se questionou sobre o nosso ritual em algum momento:

  • Como e onde teve ele início?
  • Como é controlado e autorizado, e por quem?
  • Houve muitas alterações nas cerimónias ou sempre foram assim?

Antes mesmo de tentarmos compreender o ‘porquê do ritual’, precisamos de recuar no tempo e entender, ainda que brevemente, como surgiu a Maçonaria tal como a conhecemos hoje.

Do Operativo ao Especulativo

O nosso ritual atual evoluiu a partir da época medieval dos ‘Pedreiros Operativos’, também conhecidos como ‘Pedreiros-Livres’ (Free-Mason). Nessa altura, a lealdade ao Estado e à Igreja estava profundamente entrelaçada e as subordinações religiosas eram evidentes em praticamente todos os aspetos da vida profissional.

Naturalmente, temos uma ligação filosófica a um passado mais remoto, com mais de 3.000 anos a.C., relacionado com a construção do Templo do Rei Salomão no Monte Moriah, em Jerusalém. Não me vou alongar sobre esse tema neste momento, pois é um assunto que merece um tratamento específico. Basta, no entanto, dizer que já nessa época existiria um sistema de ordem e controlo, que garantiria que aquele magnífico edifício fosse construído corretamente e de acordo com as especificações.

A nossa história maçónica tem algo de obscuro. Sabemos que o mais antigo documento maçónico que chegou até nós, data do ano 1390 e é conhecido como o ‘Manuscrito Regius’. Esse texto faz alusão a uma ‘Grande Assembleia de Maçons’ reunida em York sob a direção do Rei Athelstan no ano 926 d.C., o primeiro Rei de toda a Inglaterra. O manuscrito afirma que o Rei Athelstan era um fervoroso apoiante da Maçonaria e que nomeou o seu irmão, o Príncipe Edwin, como primeiro Grão-Mestre da Loja de York.

É precisamente no ‘Manuscrito Regius’ que encontramos as primeiras pistas relativas ao ritual, através de um conjunto de ‘Antigas Obrigações’ (Old Charges), redigidas em forma poética, que resumem os níveis profissionais, morais e filosóficos de conduta entre os maçons, ao mesmo tempo que fazem algumas alegações de caráter histórico.

O manuscrito estabelece 15 artigos que regulavam as corporações de pedreiros. É também neste texto que surgem, pela primeira vez, as referências a ‘Mestres Maçons’, ‘Companheiros do Ofício’ e ‘Aprendizes Admitidos’. A partir daí, o manuscrito divaga, estabelecendo ligações com a Arca de Noé e a Torre de Babel, bem como apresentando uma narrativa sobre quatro pedreiros monumentais que se recusaram a fazer falsos deuses e ídolos para os romanos e que foram executados por causa da sua resistência. É bastante plausível que a base do ritual cerimonial resida neste manuscrito, onde se reúnem Leis, Regras e Normas que terão, muito provavelmente, sofrido uma transição até chegarem ao ritual que hoje conhecemos.

Como surgiram então as primeiras Lojas Especulativas?

Não é fácil afirmar com precisão quando surgiu a primeira Loja Especulativa, mas é razoável assumir que a transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa ocorreu ao longo de várias décadas.

É inegável que os pedreiros operativos prosperaram no início do Renascimento, antes do reinado de Henrique VIII. Com Martinho Lutero a iniciar a Reforma Protestante em 1517, e a consequente rutura com a Igreja Católica de Roma em 1534, verificou-se uma quebra significativa na necessidade de construção de igrejas, devido à instabilidade religiosa.

Como resultado, muitos pedreiros ficaram rapidamente sem trabalho e, já no final do século XVI, tornou-se comum que as Lojas começassem a admitir membros não operativos, de forma a manter o número e o prestígio dos seus membros.

Parece que esta prática teve origem na Escócia, onde se encontra a Loja Maçónica mais antiga do mundo ainda em funcionamento: a ‘Loja Kilwinning n° Zero’, fundada em 1140.

Diz-se que o Rei Jaime VI da Escócia se tornou Maçom honorário no final do século XVI. Em 1598, William Schaw, mestre de obras ao serviço do rei, emitiu dois Decretos que procuravam regulamentar a Maçonaria. Estes decretos estipulavam as responsabilidades e deveres dos membros, as punições para trabalhos mal-executados, e proibiam a contratação de maçons não iniciados. Exigiam ainda que as Lojas redigissem atas das reuniões e sujeitassem os membros a provas de conhecimento histórico e legal sobre a Maçonaria.

Foram encontrados também os registos pessoais de Elias Ashmole, antiquário e estudioso de Alquimia, que anotou a sua iniciação como Maçom Especulativo (isto é, Não-Operativo) em Warrington, Cheshire, no ano de 1646 – o primeiro registo conhecido em Inglaterra de um evento deste tipo.

Os Maçons Operativos viriam a beneficiar de um impulso inesperado com o Grande Incêndio de Londres, em 1666, que destruiu cerca de 40.000 casas, quase 100 igrejas e dezenas de edifícios públicos.

Arquitectos e construtores acorreram à cidade e o número de Lojas aumentou subitamente. Contudo, a Lei da Reconstrução de 1667 permitiu o trabalho de artífices não associados às corporações, o que conduziu a um declínio rápido das competências especializadas dos maçons.

Combinando esta perda de membros com o crescente interesse pela vertente especulativa da Maçonaria, a Ordem continuou a evoluir – e uma catedral em particular teve um papel determinante nesse processo.

Sir Christopher Wren terá sido Mestre de uma Loja que se reunia junto à Catedral de São Paulo, enquanto esta ainda estava a ser construída – na zona onde hoje se encontra a Praça Paternoster. Essa Loja, actualmente designada ‘Lodge of Antiquity n.° 2’, é considerada a mais antiga Loja inglesa de que há registo.

Sabe-se que, por essa altura, quatro Lojas importantes se reuniam em Londres, cada uma numa taberna distinta:

  • uma encontrava-se na “Goose and Gridiron”, junto à Catedral de São Paulo;
  • outra na “The Crown”, em Parker’s Lane, perto de Drury Lane;
  • a terceira reunia-se na “Apple Tree Tavern’” em Charles Street, nos arredores de Covent Garden;
  • e a quarta na “Rummer and Grapes”, perto do Palácio de Westminster.

Em fevereiro de 1717, reuniram-se na “Apple Tree Tavern”, maçons de destaque dessas quatro Lojas para discutir a situação de crise, e o futuro da Ordem.

Percebendo que a Maçonaria se encontrava numa encruzilhada, os Irmãos mais experientes decidiram estabelecer uma estrutura coerente que unificasse todo o movimento. Decidiram também reintroduzir o respeito pelos rituais e tradições que tornavam a fraternidade única e tão admirada.

A 24 de junho de 1717, os maçons mais antigos de Londres reuniram-se na ‘“Goose and Gridiron”, no pátio da Catedral de São Paulo, para formar a Premier Grand Lodge of England (Primeira Grande Loja da Inglaterra), elegendo como primeiro Grão-Mestre, um maçom especulativo chamado Anthony Sayer, que provinha da Loja que se reunia na The Crown’.

Este encontro marcou o início da regulamentação formal da Maçonaria Especulativa e a génese do ritual moderno.

Outras Grandes Lojas seguiram-se. Em 1725, as Lojas do norte formaram uma Grande Loja rival, a Grand Lodge of All England’, em York, que durou até 1790. A Escócia, sempre ressentida com o domínio inglês, não se alinhou e formou a Grand Lodge’ (of St John) em 1736. Já a Irlanda alinhou-se com a Grande Loja Inglesa, com base numa carta patente de Londres.

Quatro anos após a fundação da Premier Grand Lodge of England, foi nomeado o Dr. James Anderson, um nacionalista escocês e pregador residente em Londres, para reescrever as Old Charges‘ e examinar todos os documentos maçónicos conhecidos, de modo a produzir e atualizar um ‘manual instrucional’. Amplamente verificado, é atualmente entregue a cada um dos candidatos no momento da sua iniciação, sob a designação de Book of Constitutions’ (Livro das Constituições).

Tudo parecia correr bem, já que a era dourada da Maçonaria Especulativa testemunhou um crescimento fenomenal, com a formação de Lojas por todo o país. No entanto, o Ritual variava de região para região, uma vez que era memorizado e transmitido oralmente, já que essas cerimónias nunca eram escritas; por isso, era inevitável que houvesse diferenças significativas entre as diversas regiões.

Em 1751, um Mestre Maçom chamado Laurence Dermot, irlandês, residente em Londres, considerando que os chamados ‘Modernos’ estavam a deturpar a tradição. As suas ideias ganham apoio em várias partes da capital e nos arredores, o que leva à fundação de uma Grande Loja rival chamada ‘The Antients Grand Lodge’ (A Grande Loja dos Antigos).

Em 1751, publicaram o seu próprio ‘Book of Constitutions’, conhecido como Ahiman Rezon (termo hebraico que, quando traduzido de forma aproximada, significa ‘ajuda a um Irmão’). Foram publicadas mais oito edições até ser alcançada uma resolução final entre as Grandes Lojas rivais. O uso do hebraico fornece-nos outra pista quanto ao grau do Arco Real. Este novo grupo opunha-se às tendências progressistas percebidas nos ‘Modernos’, e ao facto de, ao contrário da Irlanda, só terem trabalhado os Primeiros e Segundos Graus, com um terceiro grau de ‘Mestre’. Tal ia contra a forma de trabalhar dos ‘Antigos’, que trabalhavam um Terceiro Grau separado, como uma progressão até à Cadeira do Mestre, que em si mesma era um tipo de Cerimónia de Instalação.

Além disso, acreditavam que o grau conhecido como o ‘Arco Real’ fazia parte da educação de um irmão e trabalhavam-no como um Quarto Grau essencial à formação de um Maçom.

A rivalidade entre os ‘Modernos’ e os ‘Antigos’ foi intensa, e ficou conhecida como o ‘Grande Cisma’. Para tentar conter a dissidência, os ‘Modernos’ fundaram a ‘Lodge of Promulgation’ em 1809, com o objectivo de recuperar e divulgar a Cerimónia de Instalação, por ordem do Grão-Mestre de então, o Príncipe de Gales (futuro Jorge IV). Numa ata datada de 19 de outubro de 1810, regista-se:

“Resolveu-se que a cerimónia de instalação dos Mestres das Lojas é um dos verdadeiros marcos da Maçonaria e deve ser observada.”

Apesar disso, a adesão à Grande Loja dos Antigos manteve-se forte, e a rivalidade continuou até ao início do século XIX.

Um acontecimento determinante viria a pôr fim ao conflito. Como se afirma na Exortação ao Iniciado:

‘Em todas as épocas, os próprios Monarcas foram promotores da Arte.” De facto, o primeiro Maçom real a tornar-se Grão-Mestre foi o Duque de Cumberland, em 1782, irmão do rei Jorge III, o que levou à entrada de muitos nobres e membros da realeza na Maçonaria.

Em 1813, a rivalidade terminou quando os dois Grão-Mestres – o Duque de Sussex (Modernos) e o Duque de Kent (Antigos) – concordaram numa fusão. O Duque de Kent abdicou a favor do irmão, e assim foi criada a Grande Loja Unida de Inglaterra, que ainda hoje vigora.

A Loja

Por que lhes chamamos Lojas?

E porque não, clubes, sociedades ou equipas?

Esta denominação está na ligação entre os Maçons operativos medievais e a maçonaria especulativa moderna …

A palavra ‘Loja’ está intimamente relacionada com “alojamento” (um local para viver), ‘alojamento’ (um ponto de apoio), “alojar” (colocar num local) e “loggia” (uma galeria exterior coberta). Na Idade Média, os pedreiros – Maçons Operativos – eram trabalhadores itinerantes que se deslocavam de um projeto de construção para outro, conforme a sua arte fosse necessária. Isso significava que necessitavam de locais temporários onde pudessem trabalhar, viver e dormir.

As Lojas originais eram, oficinas de madeira montadas provisoriamente junto à construção em curso, onde os pedreiros preparavam, talhavam e esculpiam as pedras individuais antes de estas serem colocadas na estrutura. Tratava-se de um trabalho especializado e exigente, pois não só a pedra tinha de ser cortada com precisão, como era necessário avaliar corretamente o veio e o grão da pedra. As pedras extraídas de rochas sedimentares possuem planos de estratificação que indicam como foram depositadas. Se o plano errado for exposto aos elementos, a pedra irá desgastar-se rapidamente, comprometendo a integridade e solidez da construção.

As oficinas dos maçons eram frequentemente estruturas de dimensão significativa, e por vezes incluíam uma forja, onde os ferreiros fabricavam e afiavam os cinzéis e outras ferramentas utilizadas pelos maçons.

Assim, originalmente, uma Loja era um espaço de trabalho – embora alguns dos aprendizes mais jovens pudessem também ali viver e dormir, dando origem ao termo ‘ alojamento’.

Com o tempo, a palavra Loja‘ passou a designar o grupo de homens que trabalhavam nessa oficina, razão pela qual hoje usamos esse termo para identificar o conjunto de homens maçons, e não o espaço.

Sala da Loja

Esta é uma viagem pela Sala da Loja – e sobre todas as Salas de Loja que existem. Tem um início… mas nunca terá um fim.

Grande parte do conteúdo que iremos explorar foi originalmente investigado por Neville Barker Cryer (1934-2013), Antigo Assistente do Grão-mestre Provincial de Surrey, Antigo Mestre Instalado da Quatuor Coronati Lodge, orador Prestoniano em 1974 e orador Batham entre 1996 e 1998. Tendo sido também, Secretário da British and Foreign Bible Society, bem como autor e orador maçónico de renome internacional.

Um pormenor importante a relembrar, meus Irmãos, é que, nos tempos antigos, todas as cerimónias e banquetes (Mesas Festivas/Ágapes – as refeições rituais) decorriam na mesma sala – e, não raras vezes, em simultâneo.

Começamos esta nossa viagem pela Sala da Loja, onde contextualizamos a forma como os Oficiais principais passaram a ocupar os lugares que hoje lhes estão destinados.

O facto de termos o Venerável Mestre no Este, o Primeiro Vigilante no Oeste e o Segundo Vigilante no Sul é algo tão habitual para nós que pode ser surpreendente saber que esta disposição não era seguida pelos Maçons Operativos. Curiosamente, ainda hoje existem Lojas onde estas posições ‘habituais’ não são utilizadas, incluindo as que ocupamos quando estamos no banquete da Loja (Mesa Festiva/Ágape)

O simbolismo maçónico original indicava que o Mestre da Loja deveria sentar-se no vértice de um triângulo ou quadrado formado pelos Oficiais, quando era convocada uma reunião. Isto significava que ele se posicionava num dos cantos de um quadrado ou no ponto superior de um triângulo, formado por dois compassos.

Esta disposição triangular simbolizava a harmonia, o equilíbrio e a ordem – princípios fundamentais na construção, tanto de edifícios como de carácter moral. Mais importante do que a posição em relação aos pontos cardeais era a formação simbólica que remetia para ferramentas de precisão e princípios de construção geométrica.

Com o tempo, à medida que a Maçonaria se foi tornando mais especulativa e menos operativa, esta simbologia evoluiu. Os pontos cardeais – Este, Oeste e Sul – passaram a ter mais significado, representando o progresso do Sol e, por analogia, o progresso do iniciado na sua jornada em busca do conhecimento. No entanto, é importante salientar que as tradições não são uniformes e que a diversidade dentro da Maçonaria, mesmo nos seus pormenores práticos, reflete a sua riqueza simbólica.

Assim, o Mestre tinha o Segundo Vigilante à sua esquerda e o Primeiro Vigilante diretamente à sua frente. Em alternativa, poderia ter o Primeiro e o Segundo Vigilantes nos dois cantos mais distantes do espaço à sua frente, representando o triângulo formado por um par de Compassos parcialmente aberto

Além disso, os Maçons reuniam-se e comiam em mesas dispostas ao centro da sala da Loja, e dado que a Loja simbolizava o Templo de Salomão, com dois grandes pilares à entrada, o Mestre sentava-se com o Segundo Vigilante no extremo do braço esquerdo da mesa, e o Primeiro Vigilante no extremo do braço direito. Noutra disposição alternativa, o Venerável Mestre e os Antigos Mestres sentavam-se numa mesa à parte, os dois Vigilantes colocavam-se frente a frente, nas extremidades dos dois braços. Assim, na primeira disposição, o Mestre sentava-se a Oeste, com o Segundo Vigilante a Norte e o Primeiro Vigilante a Este. Na segunda disposição, o Segundo Vigilante ficava no Nordeste e o Primeiro Vigilante no Sudeste. Nesta disposição, os Vigilantes sentavam-se junto ou à frente dos pilares.

Esta disposição antiga dos Oficiais Principais em Loja está ainda presente em partes do Ritual que hoje praticamos. Por exemplo, quando o Venerável Mestre pergunta ao Segundo Vigilante por que razão está ele sentado onde está, este responde: “para marcar o Sol ao seu meridiano”. Se ele estivesse a Norte ou a Nordeste, conseguiria realmente fazê-lo, porque a direção em que está virado permite-lhe marcar (ou seja, observar) a posição do sol ao meio-dia – momento em que chamaria os Irmãos do trabalho para o descanso.

Alguns historiadores modernos interpretaram o verbo “marcar” como querendo dizer “ representar”, mas isso está incorreto, pois o Primeiro Vigilante marca o pôr do sol no Oeste e sabe que é tempo de encerrar os trabalhos.

Portanto, é por isso que:

  • o Mestre se sentava a Oeste – para ver o sol nascer e chamar os Irmãos para o trabalho;
  • o Primeiro Vigilante se sentava a Este – para ver o pôr do sol e encerrar os trabalhos do dia;
  • e o Segundo Vigilante se sentava a Norte – onde podia ver o sol no ponto mais alto do céu e suspender o trabalho para o descanso.

Tudo mudou quando a ‘Premier Grand Lodge’ criou as suas próprias regras e o ritual em 1717. O Venerável Mestre passou a sentar-se no Este, “como acontece com todas as igrejas e locais de culto são assim orientados”, embora não esteja muito claro por que razão o Mestre deveria ocupar o mesmo lugar onde, numa igreja, estaria o sacerdote diante do altar.

À medida que o número e o ‘status‘ dos Antigos Mestres foi aumentando, a mesa principal foi alargada e o Mestre passou a sentar-se ao centro, com os Antigos Mestres de cada lado, o Secretário e o Tesoureiro nas extremidades (Norte e Sul). Os braços para os Irmãos passaram a estar dispostos em ângulos retos em relação à mesa do Mestre – disposição muito semelhante à que usamos hoje nas nossas Mesas Festivas.

Após a União das Grandes Lojas em 1813, foram introduzidas mudanças significativas. Foi recomendado um novo plano de disposição da Loja, com o Venerável Mestre e os dois Vigilantes colocados em posições correspondentes aos pontos cardeais: Este, Oeste e Sul.

Como forma de compromisso, manteve-se a disposição em triângulo para os Oficiais durante o banquete festivo. Outra mudança importante foi a proibição de realizar refeições e cerimónias na mesma sala. Esta medida visava provavelmente evitar que as reuniões da Loja fossem perturbadas por excessos alimentares e etílicos de alguns Irmãos.

Segundo as novas regras, se uma Loja apenas dispusesse de uma única sala, deveria realizar primeiro a reunião e as cerimónias e, em seguida, remover todos os adereços e parafernália da Loja antes de colocar as mesas e as cadeiras para o banquete.

Durante os trabalhos da Loja, a comida, a bebida, os cachimbos de barro e as cuspidelas eram proibidos, embora tenham demorado muitos anos até que estas normas fossem devidamente aplicadas. Por exemplo, em 1852 (quarenta anos após a imposição da regra), o Livro de Atas da Loja de Ludlow, em Shropshire, registava que uma grande taça de ponche foi levada para a sala da Loja após a instalação de um novo Mestre. Este facto foi comunicado ao Grão-Mestre Provincial e a Loja foi repreendida, sendo-lhe dito que, doravante, teria de “suspender os trabalhos da Loja” e mudar-se para outra sala antes de servir as bebidas.

Com a introdução desta regra houve a necessidade de criar os pedestais para os Oficiais, pois, na ausência de mesas, os Oficiais precisavam de um local onde colocar os maços (malhetes), documentos e outros objetos. Na Loja em Lightcliffe, perto de Halifax, os Oficiais chegaram mesmo a utilizar os braços largos das suas cadeiras como pedestais improvisados.

Foi por esta razão que os Vigilantes passaram a ter os seus próprios pedestais – e, inicialmente, apenas eles. O Mestre tinha a sua mesa e o Secretário também. Ainda hoje é possível observar este arranjo em muitas Lojas do norte de Inglaterra, especialmente em zonas como Yorkshire, onde o Secretário se senta à direita do Venerável Mestre, com uma pequena mesa à sua frente.

Com a introdução dos pedestais, surgiu também uma disposição padrão para os Três Grandes Candelabros. Estes nunca foram considerados como fazendo parte dos Oficiais da Loja – e não o são ainda hoje -, mas simbolizam o Sol, a Lua e o Venerável Mestre. Contudo, quando deixaram de estar sobre as mesas, foi necessário decidir onde os colocar.

Na loja tradicional, um dos candelabros ficava junto ao Secretário, outro junto ao Primeiro Vigilante e o terceiro junto ao Segundo Vigilante. Quando estes últimos passaram a ter pedestais próprios, os candelabros passaram a ser colocados ao lado dos seus pedestais, como ainda hoje se verifica na maioria das Lojas. No entanto, originalmente, não era esse o seu lugar!

Desde 1813, as Lojas que seguem a tradição da Grande Loja Unida de Inglaterra (e, por conseguinte, das Grandes Lojas regulares associadas) adotaram o padrão: Mestre a Este, Primeiro Vigilante a Oeste e Segundo Vigilante a Sul.

Contudo, muitas Lojas ainda mantêm práticas herdadas de antes da união. Numas, o Venerável Mestre senta-se a Oeste, o Primeiro Vigilante a Este e o Segundo Vigilante a Norte. Noutras, os Vigilantes ficam nos lados opostos da sala, frente a frente. Nas Mesas Festivas maçónicas, há ainda Lojas que mantêm a disposição em forma de T, com o Mestre numa extremidade e os Vigilantes nas extremidades das travessas.

Assim, como se pode ver, a disposição atual da Loja – embora aparentemente imutável – resulta de uma longa evolução histórica, cheia de adaptações práticas e mudanças impostas por decisões organizativas. Conhecer a sua disposição ajuda-nos a compreender que nada na Maçonaria é arbitrário – tendo tudo uma razão de ser e uma origem.

Os Pilares

Representavam a entrada do Templo. Inicialmente, estavam simplesmente desenhados no chão da Loja, junto ou dentro do quadrado formado pelas mesas. Entretanto, quando as Lojas começaram a ter salas próprias, esses desenhos transformaram-se em objetos reais e passaram a ser colocados na extremidade oeste do pavimento, como ainda acontece em cidades como Bristol, Barnstaple, York e Lightcliffe. Era por entre esses pilares que os candidatos ingressavam na Maçonaria e por onde os Irmãos passavam para entrar na Loja.

Com o tempo, algumas Lojas – ou, pelo menos, os seus Diretores de Cerimónias – começaram a achar os pilares um obstáculo. Como resultado, foram deslocados para um dos lados da Loja, colocados junto à entrada (como em Hartlepool e Lightcliffe), ou até mesmo fora da sala (como em Exeter). Muitos foram reduzidos de tamanho e acabaram por ser colocados sobre os pedestais dos Vigilantes, transformando-se nas atuais Colunas dos Vigilantes. Esta mudança não foi totalmente incorreta, já que, antigamente, os Vigilantes estavam associados aos dois pilares. Os globos no topo ajudam a identificá- las: Boaz tem o globo celeste e Jachin o globo terrestre.

Se quiseres saber onde estão os verdadeiros pilares, olha para os castiçais!

Os Globos

Tendo em conta que estes representam os pilares que estavam no pórtico de entrada do Templo do Rei Salomão – construído numa época em que, mesmo que as constelações do céu fossem conhecidas, não se tinha ainda consciência de que o mundo era redondo -, por que razão utilizaram globos terrestre e celeste?

No Antigo Testamento Hebraico, a palavra gooloth significa “um vaso arredondado” (daí goolies). No caso do Tabernáculo do Deserto ou do Templo em Jerusalém, isso significava que os pilares eram encimados por taças contendo óleo a arder, fazendo com que parecessem estar constantemente acesos – produzindo fumo durante o dia e uma chama à noite. Daí a descrição bíblica de que formavam “uma coluna de nuvem durante o dia e uma coluna de fogo à noite”.

No entanto, os criadores do Ritual Maçónico no século XVIII também foram influenciados pelas descobertas do Renascimento e pelas primeiras Bíblias ilustradas, como a Bíblia de Genebra de 1560, que apresentava ilustrações do Tabernáculo e do Templo com pilares encimados por esferas cobertas por uma rede – certamente associadas à recente descoberta de que a Terra era redonda, e à moda da época que ditava que todo o aposento de um cavalheiro devia ter um conjunto de globos terrestre e celeste.

Os Castiçais

Originalmente, não estavam junto aos lugares dos Oficiais Principais, mas dispostos em formação triangular sobre o desenho desenrolado (mais tarde substituído por um quadro ou tapete) no centro da área cerimonial, quando a Loja era aberta.

Tal como aconteceu com os pilares, os castiçais, as ferramentas e os objetos simbólicos – bem como as Tábuas de Traçar (Tracing Boards) – foram sendo movidos porque os Diretores de Cerimónias achavam que obstruíam os trabalhos no pavimento da Loja. Como eram os Oficiais principais que os utilizavam no chão da Loja, fez sentido transferi-los para os pedestais do Venerável Mestre e dos Vigilantes.

Poderás ficar surpreendido ao saber que o uso das colunas dos três estilos clássicos de arquitetura (Jónica, Dórica e Coríntia) para os castiçais não vem da tradição maçónica, mas sim dos fabricantes de paramentos (regalia).

Se nunca viste castiçais e outros objetos simbólicos dispostos no centro do tapete da Loja, uma visita a uma das Lojas mais antigas de Inglaterra (por exemplo, em Lewes, no condado de Sussex, ou em Taunton, no condado de Somerset) dar-te-á a oportunidade de observar uma disposição completa de objetos no centro do tapete da Loja:

  • a Arca da Aliança,
  • as duas Tábuas dos Dez Mandamentos,
  • um vaso de incenso,
  • a tábua do Venerável Mestre,
  • o Derrick (um tripé com roldanas),
  • os dois globos,
  • e as ferramentas do Grau correspondente.

De onde terá surgido esta prática?

A resposta reside nas Lojas maçónicas do século XVIII, que se reuniam sentadas à volta de mesas. Quer as mesas fossem quadradas ou em forma de T, eram feitos desenhos no chão para que os candidatos os pudessem ver e passar por cima. Embora a maioria das Lojas tenha posteriormente transferido esses desenhos para um pano ou quadro permanente, outras mandaram fabricar os próprios objetos físicos. É provavelmente por essa razão que, em muitas Lojas – particularmente no Sul de Inglaterra – o Diretor de Cerimónias ordena que a Prancha de Traçar seja colocada no centro da sala da Loja durante toda a cerimónia.

Tudo isto leva à questão: por que razão algumas Lojas ainda “esquadram” a sala da Loja? Inicialmente, quando o candidato era introduzido, não lhe era permitido atravessar o chão com os desenhos para não os pisar, sendo conduzido à volta do exterior das mesas. É por isso que, hoje em dia, em muitas Lojas, o primeiro pedido feito aos Oficiais da Loja para admissão é feito ao bater no ombro direito dos Vigilantes que se encontram sentados, pois os candidatos abordavam-nos originalmente por trás, à medida que circulavam à volta da mesa, olhando para o interior.

Apesar de podermos estar habituados à disposição dos Oficiais na nossa própria Loja, devemos ter consciência de que estas posições podem variar bastante de Loja para Loja.

O Guarda Interno

A função de Guarda Interno foi criada na sequência do acordo de 1813 que levou à formação da Grande Loja Unida de Inglaterra. No século XVIII, era bastante comum o Aprendiz Admitido mais recente ser armado com uma colher de pedreiro ou uma espada e colocado à porta da Loja.

Lembra-te das palavras do Encarregado do Primeiro Grau:

“Os próprios Monarcas não consideraram indigno da sua dignidade trocar o cetro pela colher de pedreiro”

(e não, repara, pelo malhete).

Dizemos isto porque significa que os Governantes não se envergonham de descer da sua posição secular exaltada para ocupar a mais inferior na Loja – segurando uma colher de pedreiro como o iniciado mais recente à porta.

As Varas (ou bastões)

A vara do Diretor de Cerimónias é-lhe confiada pelo Venerável Mestre, que o incumbe da responsabilidade de manter a ordem.

Em algumas Lojas, a grande vara do Diretor de Cerimónias foi reduzida a algo semelhante a uma batuta de maestro.

Originalmente, os Vigilantes da Loja recebiam varas semelhantes às atribuídas aos zeladores das igrejas, como símbolo do seu ofício, mas essas varas foram transferidas para os Diáconos da Loja após a União de 1813.

A Loja de Selby ainda utiliza varas com a forma original. Noutras Lojas (por exemplo, a Loja Phoenix em Sunderland), uma vara é encimada por um sol e a outra por uma lua crescente, recordando-nos que originalmente indicavam o Primeiro e o Segundo Vigilantes – respetivamente o sol ao meio-dia e o pôr do sol e o nascer da lua.

Mais tarde, quando as varas foram colocadas nas mãos dos Diáconos, algumas Lojas substituíram o sol e a lua por símbolos associados a mensageiros:

  • a figura de Hermes (ou Mercúrio) alado
  • ou uma pomba (como a que regressou à arca de Noé com um ramo de oliveira, mensagem de esperança e paz).

Pranchas de Traçar e Tapetes

As Pranchas de Traçar começaram por ser desenhos feitos pelo ‘Tyler’, o Guarda Externo, com giz ou carvão no chão da sala de reuniões, sendo depois apagados com um esfregão e água, no final de cada reunião, pelo iniciado mais recente. Naturalmente, eram muitas vezes desenhos toscos e quase indecifráveis.

Assim, algumas Lojas começaram a colocar os próprios objetos no chão (como em Taunton), outras usavam desenhos a preto e branco (como em Haworth), ou desenhos coloridos sobre tecido ou tabuleta, que podiam ser guardados enrolados entre as reuniões. Esses panos evoluíram para as atuais Pranchas de Traçar, cujo design acabou por se padronizar à medida que o número de Lojas aumentava.

Quanto ao tapete, em todas as Pranchas de Traçar conhecidas existe um pavimento em xadrez preto e branco, e, em algumas Lojas, a base dos castiçais exibe também esse mesmo padrão.

A Loja reúne-se sobre esse chão e toda a nova Loja é consagrada sobre o tapete; por isso, num sentido muito real, os limites do tapete são, de facto, os limites da Loja. É por isso que, em muitas salas de Loja, existem borlas nos quatro cantos do tapete ou suspensas dos cantos do teto.

Ambas remetem para as linhas de prumo ou de giz (um fio impregnado com pó de giz, desenrolado de um carretel chamado ‘skirret’ e atado a estacas nos cantos) utilizadas pelos pedreiros operativos para marcar as paredes ou os limites de construção nos estaleiros de obra medievais.

Como referido no início, esta história não trata apenas de uma sala de Loja, mas de todas as salas de Loja que alguma vez existiram.

Teve um início … mas, nunca terá fim.

Rui Calado, V. M. na RL da Reconciliação, n° 152 (GLLP / GLRP)

Notas

[1] https://emulationloi.org/

[2] https://solomon.ugle.org.uk

Bibliografia

  • Emulation Working Today, edição Lewis Masonic, 2019
  • Solomon é um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) desenvolvido pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Onde podemos encontrar um método de ensino e-learning com vários módulos alusivos às várias etapas do nosso caminho maçónico.
  • Tradução live via deepl.com dos Papers:
    • A Peculiar System of Morality
    • Why Emulation?
    • The origins of the Ritual
    • The Lodge and its Officers
    • Journey around the Lodge Room

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo