Freemason

Os maçons que não pertenciam à elite no Século XVIII

✍️ Desconhecido 📅 31/10/2026 👁️ 5 Leituras
Maçonaria do Século XVIII
Maçonaria do Século XVIII

Imaginamos a Maçonaria do Século XVIII com as Lojas repletas de aristocratas, filósofos, cientistas, militares de alta patente, comerciantes enriquecidos e cavalheiros de peruca que conversavam sobre Newton, o Iluminismo e as novas ideias que começavam a espalhar-se pela Europa, deixando de fora os maçons que trabalhavam com as mãos, geriam uma taberna, exerciam comércio modesto, tocavam um instrumento, serviam num regimento ou tinham chegado à cidade em busca de uma vida melhor.

Acho interessante observar estes maçons comuns que aparecem nos documentos apenas como um nome acompanhado de uma profissão, uma morada, uma quota paga ou alguma observação do Secretário, porque são precisamente esses pequenos vestígios que nos permitem descobrir que a Maçonaria do Século XVIII era socialmente mais diversificada do que durante muito tempo imaginámos.

Se tivéssemos de transpor estas categorias sociais para a nossa linguagem actual, poderíamos dizer que o centro de gravidade social de grande parte daquela Maçonaria se situava naquilo a que hoje chamaríamos de classe média, formada por comerciantes, mestres artesãos, profissionais liberais, funcionários públicos, militares, proprietários de pequenos negócios, taberneiros e homens com uma profissão e rendimentos relativamente estáveis.

“A Noite”, gravura de William Hogarth (1738)
“A Noite”, gravura de William Hogarth (1738)

A Maçonaria da Escócia conserva registos de Lojas extraordinariamente antigas que mostram como, durante grande parte do Século XVIII, coexistiam nela maçons ligados ao ofício da construção com membros provenientes de outros meios sociais. Entre estes documentos surgem homens que continuavam a ganhar a vida como trabalhadores e artesãos ao lado de outros pertencentes a sectores mais abastados, e aqui existe uma pequena armadilha linguística que, durante anos, distorceu a imagem, pois identificar automaticamente o Maçom não operacional com o “gentleman” tornava praticamente invisíveis aqueles que não eram pedreiros, mas continuavam a pertencer ao mundo do trabalho operário.

Um sapateiro, um carpinteiro ou qualquer outro artesão podia perfeitamente ser um Maçom não operacional no trabalho da pedra e continuar a ser um trabalhador, embora seja importante não confundir trabalho manual com pobreza, pois no mundo do artesanato existiam diferenças consideráveis e um mestre com oficina própria, ferramentas, clientela e aprendizes podia desfrutar de uma posição económica bastante estável. A verdadeira fronteira social da Maçonaria parece situar-se mais abaixo, entre aqueles que podiam sustentar uma vida associativa e aqueles que dependiam de um salário diário que mal dava para sobreviver.

Os custos de pertencer a uma Loja também não eram iguais em todos os lugares e este pormenor revela-se mais importante do que parece, porque cada Loja administrava boa parte da sua economia e encontramos diferenças consideráveis entre umas Lojas e outras. Havia Lojas relativamente caras e outras bastante económicas, pelo que as quotas nem sempre constituíam uma barreira intransponível para um artesão estabelecido, um pequeno comerciante ou um trabalhador qualificado com rendimentos regulares.

Bartholomew Ruspini. Royal Cumberland School, para filhas de maçons carenciados. Londres, 1802
Bartholomew Ruspini. Royal Cumberland School, para filhas de maçons carenciados. Londres, 1802

Na Inglaterra, a questão adquire uma dimensão particularmente interessante durante a segunda metade do Século XVIII, quando a Maçonaria londrina viveu o longo confronto entre os “Modernos” e os “Antigos”, sobre o qual investigações recentes revelaram que, por trás dessa divisão, existiam também diferenças sociais importantes.

Os “Antigos”, organizados desde 1751 e profundamente marcados pela imigração irlandesa, ampliaram consideravelmente a geografia social da Maçonaria inglesa ao incorporarem artesãos, pequenos comerciantes, trabalhadores manuais e imigrantes que tinham menor presença em determinados círculos dos “Modernos”. Os seus registos permitem rastrear nomes, profissões, locais de residência e redes pessoais, revelando uma Maçonaria que tinha descido vários degraus em relação aos círculos dos “gentlemen”, profissionais abastados e membros do establishment que caracterizaram grande parte da primeira Grande Loja inglesa.

Aqui surge uma fronteira social particularmente interessante, porque essa abertura para os estratos mais baixos tinha limites bastante reconhecíveis. A Maçonaria podia alcançar o mestre artesão, o pequeno comerciante, o taberneiro, o trabalhador qualificado ou o imigrante que vivia regularmente do seu ofício, enquanto a sua presença diminuía consideravelmente à medida que descíamos para o trabalhador ocasional, o trabalhador não qualificado e aqueles que viviam em condições de pobreza. O dinheiro era uma barreira, mas também o eram o tempo disponível, a regularidade do emprego e as relações pessoais necessárias para ingressar e permanecer numa associação voluntária.

E havia algo mais difícil de medir, mas provavelmente muito importante, porque ser admitido numa Loja significava também ser reconhecido como um homem respeitável, capaz de honrar a sua palavra, cumprir certas obrigações e relacionar-se com outros que estavam dispostos a recebê-lo como um dos seus. Para um mestre artesão, um pequeno comerciante, um taberneiro ou um imigrante que tentava abrir caminho, esta respeitabilidade podia ter um valor considerável numa sociedade em que a confiança pessoal era fundamental para obter crédito, estabelecer negócios, conseguir uma recomendação ou simplesmente melhorar a posição que se ocupava na comunidade.

A solidariedade adquiria igualmente um significado muito concreto quando uma doença, a perda do emprego, um acidente ou a morte do chefe de família podiam destruir a segurança económica de um lar; e é por isso que resulta tão sugestivo associar os “Antigos” ao universo daquelas associações britânicas de ajuda mútua, nas quais os seus membros contribuíam com recursos para se protegerem colectivamente face a determinadas contingências da vida.

Por trás desses nomes havia também uma experiência humana que facilmente se perde quando falamos apenas de Obediências, porque muitos eram imigrantes irlandeses que chegaram a Londres numa época em que ser irlandês implicava suportar preconceitos sociais, competir por emprego e reconstruir uma rede de relações numa cidade onde conhecer alguém podia fazer uma diferença considerável.

Laurence Dermott constitui uma figura extraordinária para compreender aquele ambiente, pois este irlandês nascido em 1720, iniciado em Dublin e posteriormente residente em Londres, chegou a tornar-se a figura intelectual e organizacional mais importante dos “Antigos”, demonstrando até que ponto as redes maçónicas podiam abrir espaços de reconhecimento no seio de uma sociedade profundamente estratificada.

Na Irlanda, constatamos uma penetração social mais profunda e, no final do Século XVIII, a Maçonaria tinha-se estendido desde os proprietários rurais abastados até aos sectores operários protestantes e católicos, embora essa abertura também não fosse uniforme entre todas as Lojas nem em todas as regiões.

As lojas militares contribuíram poderosamente para essa expansão e, quando pensamos nelas, convém desviar por um momento o olhar dos grandes oficiais e direccioná-lo para os soldados, suboficiais e quadros subalternos dos regimentos, porque uma parte importante da expansão internacional da Maçonaria britânica ocorreu precisamente através de maçons que percorriam o mundo a cumprir ordens militares e cujos nomes dificilmente teriam encontrado espaço nas grandes histórias políticas da sua época.

Por seu lado, a França apresenta um panorama diferente e, por isso, a comparação revela-se especialmente interessante, pois ali a aristocracia teve uma presença indiscutível na direcção da Ordem, enquanto, abaixo dessa cúpula, funcionava uma extensa rede de Lojas cuja composição podia ser bastante mais variada. Lá encontrávamos comerciantes, profissionais liberais, militares, artistas, músicos e pessoas ligadas a inúmeros ofícios que fizeram da sociabilidade maçónica um dos seus espaços de convívio, enquanto os custos variavam entre as Oficinas e as sedes, tornando algumas Lojas mais acessíveis do que outras.

No entanto, sentar-se à mesma mesa, participar num ritual e chamar-se “Irmãos” ainda estava muito longe de significar uma igualdade social completa, porque a sociedade do Século XVIII entrava inevitavelmente com os maçons no interior da Loja e as diferenças de nascimento, fortuna, educação e posição continuavam a pesar, inclusive na forma como uns se dirigiam aos outros. O aristocrata e o artesão podiam tratar-se por “Irmãos” sem que desaparecessem as formas de deferência, tratamento e precedência que acompanhavam as suas respectivas posições sociais.

Esta contradição torna o fenómeno ainda mais interessante, pois a Loja conseguia reunir, sob uma mesma pertença fraterna, homens socialmente desiguais sem apagar as hierarquias da sociedade que a rodeava, e grande parte da experiência maçónica do Século XVIII parece ter decorrido no seio dessa tensão entre uma fraternidade proclamada e diferenças sociais que continuavam a ser perfeitamente visíveis.

E, no meio dessas diferenças, estendia-se um mundo de artesãos estabelecidos, comerciantes, funcionários públicos, militares, profissionais liberais e pequenos proprietários que hoje, utilizando a expressão com prudência, situaríamos nas classes médias, acompanhados por uma faixa de sectores de classe média baixa e trabalhadores qualificados.

Esses maçons também construíram a Maçonaria e sustentaram-na com as suas quotas, ocuparam cargos, assistiram às reuniões, acompanharam funerais, socorreram Irmãos, recomendaram candidatos, riram nos banquetes, viajaram levando notícias de outras Lojas e atravessaram mares com um certificado maçónico guardado entre os seus pertences.

De facto, para compreender melhor a Maçonaria do Século XVIII, devemos olhar menos para o Oriente, onde se sentavam os seus Grão-Mestres e dignitários, e mais para as colunas, onde permaneciam aqueles Irmãos cujos nomes raramente encontraram um lugar nos livros de história.

Iván Herrera Michel

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo