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Origens do lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade

✍️ Desconhecido 📅 16/07/2023 👁️ 7 Leituras

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

É pensamento frequente que o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” seja proveniente da Revolução Francesa (1789-1799), como também tenha sido criado pelos maçons que estavam associados à revolução. Estes dois pressupostos nortearam este estudo.

É sempre oportuno e gratificante confirmar ou desfazer equívocos históricos. Mesmo não sendo artigo original, na busca de informação, deve-se insistir na correcção de conceitos que circulam na primeira janela de pesquisa da internet e que contaminam o conhecimento de leitores ávidos pelo saber, porém ainda pouco ladinos.

Ao contrário do que se pensa e se dissemina no ensino da história da Revolução Francesa, de que o povo francês teria criado / adoptado como lema da revolução a conhecida expressão “liberdade, igualdade, fraternidade”, os registros históricos mostram que não foi bem assim.

A fim de contribuir para que o povo francês, inspirado pelas ideias iluministas, fosse vitorioso, promoveu-se o bordão, que se tornou à época palavra de ordem de revolucionários: “Liberté, Égalité ou la Mort”. No calor da revolução armada e da matança, não havia espaço para a fraternidade. Permanece, pois, a dúvida sobre quem promoveu o lema e a partir de quando. Teria sido criado pelos maçons ou pelos iluministas revolucionários da época? Este esclarecer aguça uma busca histórica, direccionada ao período que antecedeu ao da Revolução.

Dois séculos antes da Revolução Francesa, Étienne de La Boétie (1530-1563) defendeu no seu Discours de la servitude volontaire [1] (Discurso sobre a servidão voluntária) a liberdade e a igualdade de todos os homens na dimensão política, e afirmou a força da opinião pública.

Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.

Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só?

Chamaremos a isto covardia?

Ora todos os vícios têm naturalmente um limite além do qual não podem passar. Dois podem ter medo de um, ou até mesmo dez; mas se mil homens, se um milhão deles, se mil cidades não se defendem de um só, não pode ser por covardia.

Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si.

São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.

É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios [2].

Depois de observar sucessivas derrotas do povo francês, a partir de 1382, revoltados com novos impostos, determinados pelos reis para custear projectos pessoais e, invariavelmente, sufocados pela minoria, Étienne não poupou adjectivos ao escrever esse verdadeiro hino à liberdade. A soberba obra do século XVI questiona as causas da dominação de muitos por poucos e as formas de vencê-las. Infelizmente, morreu jovem, aos 33 anos. Deixou os seus escritos com o amigo, escritor e filósofo Michel de Montaigne (1522-1592), que os publicou e compartilhou os mesmos princípios no seu livro I, Les Essais, de 1580.

Na opinião de Étienne de La Boétie, o poder do déspota não provém apenas da sua força física, mas também da magia que o seu nome cativa, ou seja, mais pelo afecto do que pela força, havendo uma submissão afectiva dos súbditos. No mínimo, assustador esse pensar em afectividade aos tiranos, corruptos e ex-condenados…

Para Étienne, é possível resistir à opressão, sem recorrer à violência. A tirania se destrói sozinha, quando os indivíduos se recusam a aceitar a própria escravidão.

Em que pese parte da literatura atribuir a autoria do lema a Étienne de La Boétie, é justo considerar que os valores de liberdade, igualdade e fraternidade são anteriores. Outros autores citaram Santo Agostinho, que viveu mil anos antes [3]. Santo Agostinho de Hipona (354–430), na sua obra “De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum, comenta esses princípios, utilizando palavras latinas da época [4]:

[…] in quibus singuli gravitate atque prudentia et divina scientia praepollentes ceteris secum habitantibus praesunt christiana caritate, sanctitate, libertate viventibus; ne ipsi quidem cuiquam onerosi sunt, sed orientis more et Pauli apostoli auctoritate manibus suis se transigunt.”
.
[…] em que os indivíduos, predominando na gravidade e na prudência e no conhecimento divino, presidem ao resto dos seus concidadãos, vivendo na caridade cristã, na santidade e na liberdade; nem mesmo são um fardo para ninguém, mas se entregam às suas próprias mãos, segundo o costume e a autoridade do apóstolo Paulo. (Tradução livre).

O estudo do filósofo Antoine Arnauld (1612-1694), que traduziu do original em latim para o francês o livro De moribus ecclesiae catholicae, de Santo Agostinho, é citado por Quantim [5]:

En 1644, Antoine Arnauld traduit assez exactement, avec force éloges préliminaires, le De moribus ecclesiae catholicae de saint Augustin: on y peut lire que l’Église réunit les hommes « par une espèce de fraternité », qu’aucun religieux « ne possède rien de propre », que les chrétiens « vivent dans la charité, dans la sainteté et dans la liberté chrétienne».

Em 1644, Antoine Arnauld traduziu com bastante precisão, com forte louvor preliminar, o De moribus ecclesiae catholicae de Santo Agostinho: podemos ler ali que a Igreja une os homens “por uma espécie de fraternidade” (p. 557) [6], que nenhum religioso “possui nada próprio», ou seja, equidade (p. 580), que os cristãos «vivem na caridade, na santidade e na liberdade cristã” (p. 582). (Tradução livre, com inserção das páginas citadas).

Assim, a primeira questão retroage a Santo Agostinho, século IV, mas à frente voltaremos a esse ponto para analisar em que fonte teria bebido o augusto santo…

A segunda premissa, quanto ao papel da Maçonaria na criação/adopção da máxima, foi respondida pelo conceituado escritor Maçom José Castelani:

A Revolução Francesa foi, também, um marco histórico importante para a Maçonaria, embora tal facto seja exacerbado por autores pouco afeitos à História, os quais afirmam que, após a revolta, os Maçons passaram a utilizar a divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, que seria a da Revolução, como síntese da sua doutrina moral e social. Todavia, o lema da Revolução Francesa era “Liberté, Égalité ou la Mort” (Liberdade, Igualdade ou a Morte). O lema oficial do país “Liberté, Égalité, Fraternité” (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) só surgiria com a Segunda República, em 1848, sendo, posteriormente, adoptado pelos Maçons.

Ao contrário do que alguns afirmam, foi a Maçonaria que aproveitou o lema e não o contrário. Alec Mellor, respeitadíssimo pesquisador francês, afirma que é inteiramente falso que essa divisa republicana seja de origem maçónica.

A pesquisadora B. F. Hyslop examinou uma grande quantidade de diplomas maçónicos, publicados entre 1771 e 1799, na Biblioteca Nacional de Paris, e não encontrou mais do que dois, somente, onde as três palavras estão reunidas. Quase todos registram “Saúde, Força, União” ou falam do templo, onde reina “o Silêncio, a União e a Paz”. O resultado desse estudo está publicado em “Annales Historiques de la Révolution Française” – Janeiro, 1951, p. 7 . A 1ª República conheceu bem a divisa “Liberdade, Igualdade ou a Morte”, mas tal programa ideológico não foi jamais o da Maçonaria. Foi somente sob a 2ª República que a “tríplice divisa” foi adoptada oficialmente pelo Governo Francês. Mas não foi a República que tomou emprestada a divisa à Maçonaria, mas sim, a Maçonaria é que a tomou emprestada à República [7].

Sem discordar de Castelani, foi o grande filósofo iluminista e Maçom Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) um dos inspiradores da Revolução Francesa, em especial, com o seu tratado Do Contrato Social, publicado em 1762, onde defende os valores de liberdade e igualdade. No livro 2, capítulo XI, lê-se:

Se quisermos saber no que consiste, precisamente, o maior de todo os bens, qual deva ser a finalidade de todos os sistemas de legislação, verificar-se-á que se resume nestes dois objectivos principais: a liberdade e a igualdade.

As origens dos saberes

O filósofo cristão Santo Agostinho era profundo conhecedor da Bíblia Sagrada. Portanto, é justo pensar que deve ter buscado nela os princípios de muitas das suas obras. Os livros do Velho Testamento usam a palavra liberdade mais frequentemente associada à libertação de escravos. Uma excepção encontra-se em Provérbios, de Salomão (970-931 a.C.), quando associa liberdade ao conhecimento:

O hipócrita, com a boca, danifica o seu próximo, mas os justos são libertados pelo conhecimento [8]. (Escrito 2.700 anos antes da Revolução Francesa)

Faz-se mister frisar que conhecimento, primordialmente, obtém-se pela boa educação…

Jesus Cristo não contestou os romanos, o que municia os seus críticos para dizer que o cristianismo não lutou pela liberdade dos povos, inobstante, ele abordou a principal escravidão exercida à época, a submissão à igreja. Jesus afrontou os sacerdotes e libertou os cristãos do deus castigador/opressor.

Ele me enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação da vista aos cegos; para restituir a liberdade aos oprimidos [9].

A segunda palavra do lema “Igualdade” pode ser encontrada nas “cartas paulinas”, escritas no primeiro século da nossa era:

mas para que haja igualdade, suprindo, neste tempo presente, na vossa abundância a falta dos outros, para que também a abundância deles venha a suprir a vossa falta, e assim haja igualdade [10];

Por fim, nas Lojas de Aprendiz, iniciam-se os trabalhos com o Salmo 133 e, já no primeiro versículo, ouve-se:

Oh! Como é bom e agradável observar que os irmãos vivem em fraternidade [11]. “… em união” [12]. “… em harmonia” [13].

Estas palavras – fraternidade, em união e em harmonia – pretendem ter o mesmo sentido nas diversas traduções da Bíblia. Salienta-se que o epílogo do ternário, a fraternidade, exige o cumprimento dos dois primeiros – liberdade e igualdade.

Conclusão

Há registros consistentes na Bíblia Sagrada sobre a proclamação desses princípios e, possivelmente, haja em escritos mais antigos. Na Epopeia de Gilgamesh, o poema épico mais antigo que se conhece (1800 a.C.), a leal e poderosa amizade entre Gilgamesh e Enkidi exige a submissão do segundo, a ser amigo-servo [14]. Não encontramos citações no Zend-Avestra [15], o livro sagrado do zoroastrismo; como também no Alcorão [16], o livro sagrado do islão. Não pesquisámos nos Vedas, os livros sagrados do hinduísmo.

Embora os primeiros escritores que abordaram o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” estejam distantes do período da Revolução Francesa, aquele não está fora do contexto revolucionário que pulsou nos séculos anteriores, desaguou na luta armada de 1789, e, por fim, sedimentou-se nas décadas seguintes.

Os maçons participaram da redacção desse lema que se inseriu na Constituição Francesa pós-revolução e, talvez, não tenha havido empréstimo, mas simbiose entre Maçonaria e Estado.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade é um resumo expressivo, uma construção colectiva da humanidade, particularmente, naquela conturbada época. A máxima ternária se firmou na Constituição Francesa pós-Revolução, tanto quanto no meio maçónico, foi adoptada por outros povos e chegou à nossa era como expressão de um penoso processo humanístico, lamentavelmente, ainda a ser conquistado… queiramos!

José Carlos Serufo, M. M. – ARLS Estrela do Barreiro 217, GOMG, Oriente Belo Horizonte, Brasil, Membro da Academia Mineira Maçónica de Letras

Notas

[1] Disponível na íntegra em: https://institutlaboetie.fr/note-la-boetie/. Acesso em 5 de Maio de 2023.

[2] Discurso sobre a servidão voluntária. Título original Discours de la servitude volontaire. Étienne de La Boétie, 1549. Disponível em: https://institutlaboetie.fr/note-la-boetie/. Acesso em 5 de Maio de 2023

[3] Disponível em: https://jus.com.br/artigos/26233/laicidade-no-estado-democratico-de-direito-e-a-constituicao-brasileira. (2015) http://bensodicavour.org.br/artigos/103-liberdade-igualdade-fraternidade/ (2018) Acesso em 07/05/2023

[4] In: De Moribus Ecclesiae Catholicae et De Moribus Manichaeorum Libri Duo. S. Aurelli Augustini. Editio latina: 33.70. Disponível em: https://www.augustinus.it/latino/costumi/index2.htm Acesso em 05/05/2023.

[5] Jean-Louis QUANTIN. Aux origines religieuses de la devise républicaine Quelques jalons de Fénelon à Condorcet. Communio, n° XIV, 3-4 —mai-août 1989. p. 24.

[6] Œuvres de Messire. Antoine Arnauld, Paris, 1777, XI, p. 557, 580, 582. Antoine Arnauld (1612-1694): padre, teólogo, poeta, filósofo, professor universitário, matemático e escritor. Disponível em: https://play.google.com/books/reader?id=7_LNAAAAMAAJ&pg=GBS.PR36&hl=pt Acesso em 03/08/2023.

[7] A Acção Secreta da Maçonaria na Política Mundial. José Castelani. Disponível em: https://bibliot3ca.com/a-acao-secreta-da-maconaria-na-politica-mundial/ Acesso em 07/05/2023.

[8] Provérbios 11:9 In: Bíblia Sagrada Velho e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1949. O texto está com o mesmo significado nas Bíblias católicas e hebraica.

[9] Lucas 4:18 In: Bíblia King James. Versão original 1611. Tradução Abba Press Editora e Divulgadora. Rio de Janeiro: Geográfica Editora, 2001.

[10] II Coríntios 8:14 In: Bíblia Sagrada Velho e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1949.

[11] Salmos 133:1 In: Bíblia King James. Versão original 1611. Tradução Abba Press Editora e Divulgadora. Rio de Janeiro: Geográfica Editora, 2001.

[12] Salmos 133:1 In: Bíblia Sagrada Velho e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1949.

[13] Salmos 133:1 In: Bíblia Hebraica. Editora e Livraria Sêfer. Rio de Janeiro: Paulus Gráfica, 2006.

[14] Epopeia de Gilgamesh. Disponível em: https://geha.paginas.ufsc.br/files/2017/04/A-Epop%C3%A9ia-de-Gilgamesh.-Tradu%C3%A7%C3%A3o-de-Carlos-Daudt-de-Oliveira.-Martins-fontes-2011.-ISBN-85-336-1389-X.pdf Acesso em 26/06/2023. Poema épico, de autoria desconhecida, escrita cuneiforme pelos sumérios em placas de argila, por volta de 1800 a.C., que descreve o grande dilúvio 1000 anos antes da composição da Bíblia Sagrada, corroborando-a em várias descrições comuns.

[15] Zend-Avestra. Sobre as coisas do céu e da vida após a morte. Tradução 1906. Disponível em: https://pdfcoffee.com/zend-avesta-01-portugues-gustav-theodor-fechner-pdf-free.html  Acesso em: 26/6/2023.

[16] Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=16731&co_midia=2 Acesso em 5 de Maio de 2023.

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