O viajante e o agricultor
O agricultor olhou para um homem que se acercava e disse: “Viajante, de onde vens?”
“Venho de uma terra de São João”, retorquiu o homem.
E novamente o Agricultor: “E o que vens cá fazer?”
Ao que o viajante respondeu “Combater o vício, exaltar as virtudes e realizar novos progressos na humanidade”
O agricultor intrigado continua a sua senda de perguntas: “E porque paraste aqui:”
“Amigo agricultor, olhei para a tua horta e vi maná e frutas frescas. Vi flores e abelhas a polinizar. E uma horta cuidada é sinal de fartura, sabedoria e trabalho constante. E por necessidade física, e curiosidade mental, decidi que era altura de parar um pouco para alimentar o corpo cansado”.
“E porque viajavas então?”
“Porque é a minha natureza. Assim como um pássaro tem de voar, há espíritos inquietos que tem de subir à mais alta da montanha apenas porque ela existe. Tudo tem que ter um propósito. Sem propósito, tudo se esvai”.
Agricultor: “Amigo viajante, deixas-me melancólico e pensativo a pensar no que podia ter feito. Será que não tenho propósito? Não viajei muito, as realidades são me todas familiares. Viajei no máximo até à cidade vizinha, onde me deslumbrei pelo que vi. Concentro-me na minha horta e não presto atenção à floresta. Cultivo o meu quintal, mas já perdi o propósito, para além da sobrevivência. É tudo o que me resta?”
O viajante pensativo retorquiu: “Não fiques triste meu amigo. Atiraste a moeda ao ar e saiu caras, mas não observas os detalhes da coroa. O universo tem esta maravilha dual meu amigo. Sem mim, tu definhavas e não evoluías, sem ti, eu morria à fome. As abelhas não fertilizam na mesma flor. Tu és a flor, eu sou a abelha”.
“Contudo, nada é binário. Podes lançar a moeda as vezes que quiseres. A beleza do destino é que estará traçado apenas no longo prazo”
O agricultor serve uma caneca de hidromel ao viajante, e subitamente pergunta: “Quando partes?”
“Parto discreto numa madrugada, quando está toda a gente a dormir e ninguém sente a minha falta. Despedidas e anúncios são exercícios desnecessários. O destino já está traçado desde o início dos tempos. As nossas funções estarão cumpridas”.
O agricultor responde: “Celebremos então o presente. Estás aqui agora e na eternidade dos tempos, a tua chegada ou partida não tem significado. Resta-nos o trabalho a ser feito aqui e agora”.
E o Agricultor continua: “Mas, não entendo porque viajas e te sujeiras à dor da partida. É tão confortável ter uma cama quente, uma sopa da horta e um copo de hidromel. E adormecer nos braços de morfeu”.
O viajante responde:
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
“Essa frase dizia o poeta, e nunca me abandona. Quando as roupas usadas tiverem a forma do nosso corpo, esse tempo chega. Para que não valha a pena partirmos, que nunca vistamos vestes com a forma do nosso corpo.”
O viajante sorri e continua: “Amigo Agricultor, tu tens a sabedoria de esperar e ver o tempo passar. Atingiste a sabedoria que nada existe, só apenas naquela fracção de segundo. Eu, ainda olho para a ampulheta do tempo e sinto a urgência. De ver, de perceber, e de fazer.
Não percas a tua essência, que, envolta de ingenuidade, está cheia de sabedoria.
Eu procuro o conhecimento no desconhecido. Por isso viajo. Tu, já tens a sabedoria de não procurar, construída sobre a inocência”.
O agricultor abraçou o seu interlocutor num abraço sentido, numa epifania percebeu que o tempo afinal passa, e que a horta vive do momento e do presente num propósito finito, mas esforço continuo.
O agricultor retorquiu:
“Muito bem meu amigo, trabalhemos agora e celebremos ainda hoje, que na imensidão das areias do tempo, tudo se funde. Como diria o meu patrono: “fiz algum bem. Foi a minha melhor obra”.
Marco R∴, M∴ M∴ – R∴ ∴ Voltaire nº 159 (GLLP / GLRP)
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
