O lugar da mulher na Maçonaria
Resumo
Este artigo discute a possibilidade de iniciação da mulher na Maçonaria regular e tradicional, analisando os argumentos históricos, tradicionais e filosóficos utilizados tanto para fundamentar a sua exclusão quanto para defender a sua participação.
Introdução
A iniciação da mulher na Maçonaria constitui tema complexo e controverso, envolvendo aspectos históricos, filosóficos, simbólicos e sociais. Embora a Maçonaria regular e tradicional permaneça, em regra, restrita à figura masculina, diferentes organizações maçónicas passaram a admitir mulheres, seja em estruturas femininas, seja em sistemas mistos.
Assim, a controvérsia gira em torno da possibilidade ou não da iniciação feminina na Maçonaria regular, a partir da interpretação da tradição maçónica, dos seus princípios fundamentais e dos Landmarks, bem como da necessidade de conciliar a preservação das suas tradições com as transformações ocorridas na sociedade.
Neste contexto, o presente artigo tem por objectivo apresentar os principais argumentos utilizados tanto para justificar a manutenção da exclusividade masculina quanto para defender a participação directa e efectiva das mulheres na Ordem maçónica.
As diferentes vertentes da Maçonaria
Antes de adentrar especificamente na questão da mulher na Maçonaria, é necessário considerar que a instituição apresenta diferentes vertentes, com características, tradições, regras e interpretações próprias. De maneira geral, podem ser identificadas três grandes correntes: a Maçonaria tradicional e regular, a Maçonaria mista e a Maçonaria liberal.
Maçonaria tradicional e regular
A Maçonaria tradicional e regular segue princípios e práticas vinculados à tradição consolidada pelas grandes potências maçónicas, especialmente pela Grande Loja Unida da Inglaterra, fundada em 1717 [1].
Entre as suas características encontram-se a exclusividade masculina para a iniciação, a exigência de crença num Ser Supremo, geralmente designado como Grande Arquitecto do Universo, e a restrição às discussões de natureza política e religiosa no interior das lojas. Destaca-se, ainda, a observância dos princípios de regularidade e de reconhecimento entre as obediências.
No contexto brasileiro, podem ser mencionadas, entre outras, como obediências que se inserem nessa tradição, o Grande Oriente do Brasil (GOB), a Grande Loja Maçónica de Minas Gerais (GLMMG) e o Grande Oriente de Minas Gerais (GOMG). É justamente nessa vertente que se encontra a principal controvérsia objecto deste estudo: a impossibilidade da iniciação de mulheres.
Maçonaria mista
Por sua vez, a Maçonaria mista admite a participação de homens e mulheres em igualdade de condições. Um dos exemplos mais conhecidos é a organização francesa Le Droit Humain (O Direito Humano), fundada em 1893.
Esta corrente apresenta uma concepção mais aberta quanto à participação feminina e, em determinadas obediências, também em relação às questões religiosas, filosóficas e sociais.
Maçonaria liberal
Já a Maçonaria liberal caracteriza-se por uma interpretação mais flexível das tradições maçónicas. Em diversas obediências desta corrente, homens e mulheres podem participar dos trabalhos maçónicos, sendo valorizada a liberdade de consciência. Também se verifica maior abertura para discussões de natureza filosófica, social e política, além de uma concepção menos vinculada à obrigatoriedade da crença num Ser Supremo. Exemplos: Grande Oriente da França (GOF): uma das obediências mais influentes, que abraça a liberdade de consciência. Grande Loja Feminina de França: exclusivamente feminina.
As mulheres na Maçonaria Tradicional
A impossibilidade de iniciação das mulheres na Maçonaria tradicional e regular é fundamentada, por seus defensores, em argumentos históricos, culturais, simbólicos e tradicionais.
Adiantamos que um dos principais argumentos se encontra na interpretação da Constituição de Anderson, de 1723, que faz referência aos “homens livres e de bons costumes”. A partir desta tradição, consolidou-se o entendimento de que a iniciação maçónica estaria vedada às mulheres.
Também os Landmarks [2], entendidos como princípios fundamentais e imutáveis da Maçonaria, são utilizados como fundamento para a manutenção dessa regra. As obediências regulares sustentam que modificações dessa natureza poderiam comprometer a sua regularidade e o seu reconhecimento perante outras potências maçónicas.
Os defensores da exclusividade masculina argumentam, ainda, que as mulheres podem encontrar espaços próprios em obediências femininas ou mistas, como as vinculadas ao movimento Le Droit Humain. Além disso, algumas lojas incentivam a participação de mulheres em ordens paramaçónicas, como as Filhas de Jó, a Estrela do Oriente e outras organizações femininas vinculadas ao universo maçónico.
Sobre o tema, Kennyo Ismail, faz as seguintes ponderações:
“Não há aqui a intenção de imprimir opiniões favoráveis ou contrárias ao ingresso de mulheres na Maçonaria (…) Como se sabe, a Maçonaria tida como regular é restrita a homens, não aceitando, em hipótese alguma, mulheres nas suas colunas. Mas desde o surgimento dos movimentos igualitários e do feminismo, muitos são os questionamentos e críticas sobre a Maçonaria por essa restrição, considerada por muitos conservadora e machista.
(ISMAIL, 2012, p. 70-71)
Nas páginas 71-73, o autor (2012) discorre sobre as principais justificativas apresentadas pelas potências maçónicas tradicionais e regulares, bem como por autores que compartilham da tese de restrição à iniciação de mulheres na Maçonaria. Entre elas, encontram-se as justificativas de cunho histórico, fundamentadas no facto de a Maçonaria actual ter se originado da Maçonaria Operativa, composta por pedreiros que, à época, eram exclusivamente homens. Assim, por uma questão de tradição e costume, teria sido mantida essa regra.
Na mesma linha, encontram-se as justificativas de cunho social, apoiadas no facto de que, à época da fundação oficial da Maçonaria Especulativa, em 1717, as suas reuniões ocorriam em tabernas, ambientes então restritos aos homens, de modo que a “presença de mulheres de bem numa taberna era inaceitável e, consequentemente, nas Lojas também”.
Kennyo descreve também a utilização da justificativa de cunho sexual, uma vez que, para os seus defensores, a presença de mulheres nas reuniões poderia desviar a atenção dos maçons e, além disso, possibilitar interacções de natureza sexual que poderiam prejudicar os laços de irmandade.
Segundo o autor, haveria, ainda, justificativas de cunho legal e moral, que, para os seus adeptos, constituiriam obstáculos à iniciação da mulher na Ordem maçónica, seja pela questão “alienígena” da imutabilidade dos Landmarks, que dispões sobre possibilidade de iniciação apenas de homens, seja pelo próprio juramento dos iniciados de respeitar toda a legislação maçónica, que, segundo essa interpretação, seria explícita quanto à exclusividade masculina na iniciação.
Ao final, o autor conclui:
“De qualquer forma, esse sempre será o grande paradoxo da Maçonaria: acompanhar a evolução da sociedade, se modernizar, sem abrir mão das antigas tradições que tanto defende e preconiza”
(ISMAIL, 2012, p. 72).
Podemos citar também o posicionamento do autor Walnyr Goulart Jacques (1996), que, no seu livro “Uma Loja Simbólica”, defende a proibição da iniciação feminina na Maçonaria. Segundo o autor, essa restrição não decorreria de simples má vontade para com a mulher ou de discriminação, pois nenhuma instituição respeitaria tanto o sexo feminino quanto a Maçonaria, “mas por uma questão de respeito às normas e à regularidade, sendo que isso os maçons jamais poderiam pensar em contrariar, pois passariam à condição de maçons irregulares”.
O autor apresenta, ainda, um argumento pitoresco que, segundo ele, poderia ser analisado sob um ângulo objectivo e simples: “como se sentiriam os maçons se admitissem uma mulher, antes das provas do ritual de iniciação, onde apresenta-se parte do corpo descoberto? Estariam eles preparados para abstrair do pensamento todo o instinto?” (JACQUES, 1996, p.95-96).
Todavia, todas essas justificativas citadas anteriormente passaram a ser questionadas por autores que entendem que princípios históricos podem ser reinterpretados diante das transformações sociais e da própria evolução da Maçonaria.
Argumentos a favor da iniciação feminina
Para os adeptos desta vertente, a defesa da inclusão da mulher na Maçonaria está profundamente relacionada à ideia de que a instituição deve evoluir de modo a se alinhar aos valores universais que promove. Assim, para os defensores da possibilidade da iniciação feminina, a exclusão das mulheres poderia reflectir tradições ultrapassadas, que não mais se mostrariam compatíveis com os valores maçónicos universais e contemporâneos.
Isso porque, se a Maçonaria constitui um sistema simbólico universal, as limitações baseadas no género reflectiriam menos a essência da instituição e mais os valores e preconceitos culturais de épocas passadas. Sob esta perspectiva, a busca pela luz e pelo conhecimento não deveria estar sujeita a qualquer barreira de género.
Advogando a tese da igualdade de género e da total possibilidade da presença de mulheres na construção dos templos maçónicos, temos as lições de Joaquim Gervásio de Figueiredo:
Em sã consciência, na Maçonaria e nos seus Rituais nada existe de que a mulher não possa participar, e na sua antiga tradição nada há que justifique a recusa e afastamento do elemento feminino das cerimonias e iniciações maçónicas. Só tornaria a Loja maçónica mais completa no seu significado filosófico-espiritual e mais autêntica no seu conteúdo simbólico, a ser verdadeira (como é) a lenda maçónica de que uma Loja é o símbolo do universo, ou o universo em miniatura. Ora, no universo de Deus não há nenhuma distinção entre os sexos; não existem ali leis masculinas e femininas; as leis são iguais para todos, homens e mulheres.
(FIGUEIREDO, 2016, p. 219).
No mesmo sentido, Rizzardo da Camino, no seu livro “A Maçonaria e o Terceiro Milénio Objectos e Objectivos da Maçonaria”, comenta:
Não temos dúvida de que no terceiro milénio a mulher assumirá uma posição mais amena, fugindo aos rigores do Landmark proibitivo […] o Landmark 18 apenas “insinua” a proibição. Não há proibição, mas sugestão […] A mulher conquistou o seu lugar na sociedade e a cada dia que passa maiores são as suas vitórias. […]o tema aqui abordado não merece ser “abortado”, mas meditado com seriedade profunda e levado às Lojas para ser discutido e equacionado, visto que não merece desprezo ou pudor. Afinal, constitui parte do aperfeiçoamento da humanidade.
(CAMINO, 2005, p. 18, 87 e 91).
Em outra obra, o proeminente autor reafirma que
Ano após ano, o conhecimento sobre a Maçonaria tem entrado com subtileza na compreensão feminina. Já é tempo de as mulheres evoluírem nas suas reuniões, deixando de se dedicar, exclusivamente, à assistência social.
(CAMINO, 2011, p. 198 e 230).
Ainda neste sentido, Valdir Gomes na sua obra “Mulher e Maçonaria, acredita
“que a aceitação de mulheres na Maçonaria tradicional seja uma questão de tempo, já que a actual posição dessa instituição, contrária à iniciação feminina, não vigorará por muito tempo”.
(GOMES, 2009, p.163)
A experiência histórica
Outro aspecto relevante para o debate é a existência histórica de formas de participação feminina directa na Maçonaria.
Entretanto, antes de abordar o tema, gostaríamos apenas de ressaltar que as “Old Charges” (Antigas Obrigações ou Antigas Constituições, Antigos Registros) não faziam nenhuma alusão à mulher ou contra a sua admissão na Maçonaria. A primeira vez que tal proibição aparece, na longa história da Maçonaria, é no “Livro das Constituições”, compilado e publicado em 1723, por James Anderson e é inexplicável como se veio a admitir esse óbice à mulher justamente na ocasião em que se ampliaram os horizontes da maçonaria, transformando-se de operativa em especulativa, e pelas mesmas mãos que codificaram as suas leis e princípios!
Quanto a experiência histórica brasileira, convém frisar que a Maçonaria brasileira já admitiu mulheres nas suas fileiras e jurisdições, sob um rito denominado Rito de Adopção, que teria surgido na Europa em 1730. Mais uma vez, utilizaremos os ensinamentos do Irmão Kennyo Ismail, que sobre o tema explanou:
Em 1901 e 1902, o GOB fundou quatro Lojas Femininas, sendo duas no RJ, uma no ES e um no PR. Elas receberam o nome e número distintivo como uma loja convencional e funcionavam até o final de 1903. E, ao contrário do que alguns afirmam, o Rito de Adopção é um rito maçónico, além do facto de que muitas dessas mulheres foram iniciadas em lojas masculinas do GOB antes de comporem as lojas femininas, utilizando o rito convencional da loja. (ISMAIL, 2022; p 165).
Este episódio é particularmente relevante porque demonstra que a relação entre as mulheres e a Maçonaria não deve ser compreendida apenas a partir da realidade contemporânea. Houve, portanto, experiências históricas de participação feminina directa que também precisam ser consideradas nesse debate.
Desta forma, a discussão sobre o lugar da mulher na Maçonaria pode envolver uma questão mais ampla: até que ponto uma instituição tradicional pode modificar determinadas práticas sem comprometer a sua identidade? O debate, portanto, pode ultrapassar a simples possibilidade de admissão de mulheres, alcançando a própria relação entre tradição e transformação.
Em suma, tais questionamentos deveriam, no mínimo, ser discutidos, debatidos e ponderados dialecticamente entre os maçons em Loja. Todavia, ainda hoje, estamos longe de ver isso acontecer nas práticas maçónicas quotidianas.
Consideração finais
No presente artigo, foi demonstrado que o lugar da mulher na Maçonaria permanece como uma questão complexa, marcada pela tensão entre a preservação da tradição e as transformações sociais.
De um lado, a Maçonaria tradicional e regular sustenta a exclusividade masculina com fundamento na sua tradição histórica e cultural, nas Constituições de Anderson, nos Landmarks e nos princípios de regularidade. De outro, autores maçónicos questionam essa restrição e defendem que a participação feminina seria compatível com os princípios filosóficos e universais atribuídos à instituição. Além disso, experiências históricas de participação feminina, inclusive no Brasil, demonstram que essa presença não é totalmente estranha à Ordem.
Não se pretende apresentar uma solução definitiva para a questão, mas demonstrar que o tema merece, ao menos, ser abordado e debatido no âmbito das Lojas Maçónicas, sob perspectivas históricas e filosóficas. Em última análise, essa reflexão envolve a própria capacidade de uma instituição tradicional de conciliar a preservação dos seus princípios com os valores contemporâneos de igualdade e liberdade.
Bruno César Miranda
| Bruno César Miranda é advogado, Mestre Maçom na Loja Estrela do Ivituruy, nº 351 do Oriente de Serro/MG, filiada á GLMMG e membro da Loja de Perfeição Mestre Hiram no oriente de Curvelo, onde cursa o 14º grau do REAA. Pós-graduando no curso Maçonologia: História e filosofia da faculdade Uninter. E-mail:brcesarm@yahoo.com.br. |
Notas
[1] Segundo o relato posteriormente registrado nas Constituições de Anderson, em 24 de Junho de 1717, Dia de São João Batista, a reunião de quatro Lojas maçónicas de Londres — O Ganso e a Grelha, a Coroa, a Macieira e o Copo e as Uvas — teria dado origem à primeira Grande Loja de Londres, marco tradicionalmente associado ao surgimento da Maçonaria Especulativa ou moderna e ao desenvolvimento do modelo de organização em Grandes Lojas que influenciaria a estrutura da Maçonaria contemporânea.
[2] Na classificação dos 25 Landmarks de Albert G. Mackey, o que trata directamente da exigência de que o candidato seja homem é o 18º Landmark. Ele estabelece, em essência, que: “Todo candidato à iniciação deve ser homem, livre de nascimento e maior de idade.”
Referências bibliográficas
- CAMINO, Rizzardo da. A Maçonaria e o Terceiro Milénio. São Paulo: Madras, 2005.
- CAMINO, Rizzardo da. Vade-mécum do Simbolismo Maçónico. São Paulo: Madras, 2011.
- FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016.
- GOMES, Vitor. Mulher e Maçonaria. Porto Alegre: RS Editora, 2009.
- ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.
- JAQUES, Walnyr Goulart. Uma Loja Simbólica. Porto Alegre, 1996.
