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O hermetismo na Maçonaria

✍️ Desconhecido 📅 05/11/2024 👁️ 6 Leituras

hermetismo, maçonaria

Existe uma associação muito estreita que entre a noção de pedra bruta e a Terra-Mãe, princípio substancial da manifestação universal, que faz o iniciado fortalecer-se unicamente em contacto com ela, como o herói Anteu, filho de Géa, a Mãe-Terra, que só foi derrotado por Hércules quando este o privou do seu contacto com a terra. Este simbolismo diz-nos que a nossa força vem da terra. Privados dela perdemos o elo que nos liga à substancialidade que vem do Grande Arquitecto. Por isso não podemos perseguir apenas a ideia de uma espiritualidade ascética, sem participação nos assuntos do mundo. O espírito, como a matéria, constrói-se num processo de complementaridade, onde um substrato alimenta o outro, como representado pela serpente cósmica Uraeus, dos egípcios, ou na Ouroboros dos gnósticos e dos hermetistas.

Na forma cúbica encontramos a ideia de estabilidade. Com esta constatação fecha-se o circulo da simbologia expressa nos graus de Aprendiz e Companheiro da Maçonaria, no sentido de que é na evolução feita nesses dois graus que se completa a essência da iniciação de um neófito, que tendo superado essas duas fases, estará, finalmente, preparado para ser a pedra angular do edifício maçónico, que é o Mestre.

É importante notar que na antiga Maçonaria operativa não existia o grau de Mestre mas apenas os de Companheiro (fellow) e Aprendizes. O titulo de Mestre era dado apenas ao presidente da Loja, o qual era eleito entre os Companheiros. A extensão deste título a todos os companheiros que são elevados ao terceiro grau é uma criação da Maçonaria especulativa. Por isso é fundamental entender esse simbolismo. O Mestre, na simbologia da Arte Real, é aquele que passou à Câmara do Meio, após ter presenciado e vivido, no espírito, o Drama de Hiram. É uma visão meramente especulativa, que não tem correspondência na prática operativa. Na verdade, nas antigas Lojas dos maçons operativos, o Mestre era um Companheiro escolhido entre os membros deste grau, que assumia a função de supervisor. Era, escolhido entre os membros deste grau, que assumia a função de supervisor. Era, portanto, uma função e não um título, ou uma graduação.

A passagem do operativo para o especulativo exigiu a adaptação dos títulos maçónicos para fins de adequá-los a uma estrutura que, doravante, deveria funcionar como uma espécie de escola. Assim sendo, foi preciso que entre os Companheiros fossem escolhidos alguns Mestres e entre estes um que lhes fosse acima, para administrar e conduzir os trabalhos do grupo. Assim é que Anderson estipula nas suas Constituições que “ nenhum irmão pode ser supervisor ( entenda-se Vigilante), sem antes ter passado pelo grau de Companheiro; nem Mestre (entenda-se Venerável) antes de ter exercido as funções de supervisor (Vigilante).”

No sistema inaugurado pela Maçonaria moderna, portanto, o título de Mestre deve ser visto na sua dimensão simbólica e nunca em termos de hierarquia. O Mestre não é aquele que mais sabe, ou que ensina, mas sim aquele que conhece a acácia, ou seja, aquele que presenciou o Drama de Hiram, e teve o seu psiquismo recomposto a partir da sua iniciação nos Mistérios que aquele drama representa. Para tanto é preciso que ele não só “conheça a acácia”, mas saiba, principalmente, qual o verdadeiro significado das alegorias representadas no templo que ele frequenta, e o porque delas serem utilizadas.

Fulcanelli diz que o plano do edifício cristão revela as qualidades da matéria prima e a sua preparação através do sinal da cruz, que resulta na obtenção da primeira pedra , que é a pedra angular da grande obra filosofal. Sobre esta pedra Jesus construiu a sua igreja, e os maçons operativos aproveitaram esse simbolismo para seguir o exemplo de Cristo. Mas, na mente supersticiosa daqueles mestres artesãos de antigamente, a pedra bruta, impura, não trabalhada pelas mãos do artista, antes de ser talhada para servir para servir de base à arte gótica, era tida como sendo a imagem do diabo. Por isso, na igreja de Notre Dame de Paris existia um hieróglifo representando a figura de diabo, em cuja boca se apagavam os círios. Esta imagem era chamada pelos fiéis de Maistre Pierre du Coinegt, (pedra mestra angular), sobre a qual repousava toda a estrutura da construção [1].

Não causará embaraço ao Maçom esclarecido lembrar que a pedra talhada da Maçonaria é justamente o Maçom que desbastou a pedra bruta do seu carácter e atingiu a plenitude maçónica pela elevação ao mestrado. Neste simbolismo está presente, mais uma vez, a evocação da rebelião de Lúcifer, o anjo da luz , a Estrela da Manhã, que trouxe a ciência e o conhecimento aos homens, contra a vontade do Senhor.

Outra comparação interessante que se pode fazer entre o simbolismo maçónico e a antiga arte dos construtores medievais é o sentido mítico-hermético que aqueles irmãos operativos colocavam nas suas construções. As catedrais góticas eram construídas de forma a imitar um labirinto, muitas vezes chamado de Labirinto de Salomão. Nele se colocavam as imagens e os mosaicos do piso, sempre com um sentido místico-esotérico, a lembrar que ali se realizava obra iniciática de transmutação espiritual. A orientação do piso representava o caminho que o devoto devia seguir para atingir o coração do templo, onde se realizava o embate final das duas naturezas do homem – a material e a espiritual.

Lembremo-nos que o piso da Loja maçónica é construído com esta mesma intenção. O seu mosaico é disposto no sentido de orientar os irmãos num trajecto que muito tem de bizarro e muitas vezes ininteligível, porque tem que ser trilhado com uma certa rigidez ritualística, cujo objectivo muitas vezes não se alcança sem se pensar no seu significado mítico-hermético. E da mesma forma que as antigas igrejas góticas, os templos maçónicos também têm as suas estruturas erguidas de forma a orientar os irmãos a caminhar numa certa direcção, de modo tal que sempre entrem pelo ocidente e caminhem em direcção ao oriente, local onde a luz se origina.

Nas igrejas de antigamente esta orientação era dada pelo facto de que a Palestina, lugar onde viveu e morreu o Cristo, se situava exactamente no oriente. Assim, toda a orientação da jornada do devoto dentro da igreja gótica era, como na Loja, uma jornada em direcção à luz.

Do Ocidente para o Oriente

Eis uma vez mais estabelecida a profunda correlação entre a artiga arte dos construtores medievais e o simbolismo da prática maçónica. Cada profano é uma pedra bruta que deve ser desbastada e a Maçonaria é a arte de desbastar essa pedra. Mas este não é um trabalho que possa ser feito sem o apoio de uma certa mística. Da mesma forma que na Arte de Hermes, é preciso que o obreiro da Arte Real siga uma orientação adequada para que não se perca no labirinto de símbolos e alegorias que constituem a prática maçónica. É preciso entender esta mística pois senão o irmão correrá o risco de ficar eternamente repetindo gestos, passos, invocações e palavras de passe, sem contudo jamais lhes penetrar no verdadeiro significado. Isto será mero condicionamento e nunca aquisição de Gnose, ou verdadeiro conhecimento.

A marcha do Maçom em busca da luz é sempre uma marcha do Ocidente para o Oriente. Do Ocidente , que é o mundo materializado do homem que vive somente para a satisfação dos sentidos, para o Oriente que é o território espiritualizado daqueles que já superaram esta fase. Isto porque toda manifestação de espiritualidade vem do Oriente. Lá nasceram todas as religiões, todos os grandes profetas, os fundadores de seitas, os criadores de doutrinas espiritualistas, os mais famosos taumaturgos. No plano mais subtil do psiquismo, a marcha do espírito humano é também uma jornada que vai do Ocidente para o Oriente, sendo esse o sentido que pode ser comparado a uma caminhada de fora para dentro de si mesmo. Desta forma, o templo de Deus, que é o próprio homem, é construído segundo uma orientação que é, ao mesmo tempo, metodológica e geográfica.

Pelo trabalho das mãos se faz a obra do espírito. Daí o porquê ser a Maçonaria uma eterna obra de construção, e o Maçom um eterno peregrino em busca da sua Caaba [2]. Esta é a arquitectura que o Maçom deve aprender. Uma arquitectura do espírito.

João Anatalino Rodrigues

[1] Fulcanelli – O Mistério das Catedrais, pág. 64

[2] A Caaba é a pedra preta preservada em Meca, reverenciada pelos muçulmanos como proveniente do próprio Deus (Alá). É considerada a primeira manifestação física de Deus no mundo da matéria. Maomé a consagrou como sendo o símbolo do mistério eterno, emblema da duração perpétua da verdade, representativa da unidade do homem com Deus. A Caaba é a pedra divina, o símbolo de toda perfectibilidade, que o espírito humano deve almejar. Neste sentido ela é como a Pedra Filosofal, capaz de revelar aquele que a contempla com os olhos do espírito todos os segredos da natureza. Na religião islâmica, uma das obrigações do devoto é ir a Meca pelo menos uma vez na vida para contemplar a Caaba. Esta crença islâmica também pode ser evocada para justificar o simbolismo da viagem do espírito de Ocidente para o Oriente. Meca é uma das cidades localizadas no Oriente com maior densidade psíquica pelo seu significado na religião do Islã. Neste sentido, ela equivale a Jerusalém para os cristãos. No sentido metafísico, a Caaba é a pedra perfeita, símbolo da majestade e do equilíbrio de formas, características que o espírito humano deve adquirir no final da sua jornada para o oriente, após contemplar a sua Caaba. Na tradição hermética, a pedra perfeita significava a aquisição, pelo adepto, da verdadeira filosofia. Como se vê, este simbolismo está ligado intimamente às tradições da construção e tudo passa a ser uma verdadeira alquimia de espírito para se realizar um objectivo que é todo espiritual.

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