Freemason

O Crepúsculo da Razão

✍️ Desconhecido 📅 23/10/2026 👁️ 2 Leituras
razão
Razão

O sol declinava no horizonte e escorregava pela fresta da janela, cortando a penumbra da biblioteca com um feixe pálido que mostrava poeira em suspensão. Sobre a mesa de mogno, o bule esquecido exalava um fio de fumaça que se dissipava entre pilhas de jornais velhos e manifestos amassados, com o aroma de café preenchia todo o espaço . Havia um silêncio incómodo ali, a profundidade de um abismo que se cavava entre os dois irmãos a cada segundo.

Severino olhava para o irmão mais novo. Não sentia raiva, apenas um cansaço que lhe pesava nos ombros e uma ponta de pena. Para ele, a política nunca fora aquele espectáculo de massas que rugia nas ruas; era o que Platão tentava resgatar — a arte de organizar a pólis pela justiça, pela busca da verdade concreta e pelo conhecimento, não pela ilusão. Olhava o mundo como um tecido vivo e complexo, onde a dignidade de qualquer homem, por mais desalinhado que pensasse, era sagrada.

— Você não entende nada, Severino — cortou Valdemar.

Ele andava de um lado para o outro, incapaz de fixar os pés no chão. Parou junto ao parapeito de baraúna, os dedos batucando um ritmo frenético na madeira. Arrancou o botão do colarinho, sufocado. A cabeça dele era um turbilhão. Olhava para os panfletos na mesa e as vozes do velho rádio de pilha voltavam a ecoar: demissões em massa, o preço da comida subindo, a inflação corroendo o prato de almoço antes mesmo de chegar à mesa. Era uma avalanche. O seu peito subia e descia, arfante. O excesso de caminhos, de partidos e de promessas vazias o fazia se sentir num labirinto escuro, andando em círculos até a exaustão.

Então, num reflexo de sobrevivência, Valdemar mentalizou as frases de ordem do partido. Lembrou-se do “Chanceler”. Imediatamente, os seus ombros cederam e a postura entrou no eixo. Foi um alívio físico, quase biológico. Era a tranquilidade vazia de quem joga o peso das próprias escolhas nas costas de outro, livrando-se do parto doloroso que é pensar por si mesmo.

A liberdade que Severino tanto defendia parecia a Valdemar um deserto hostil. Mas quando o Chanceler subia ao palanque, com as suas respostas brutas e convicções inabaláveis, a névoa dissipava. O líder assumira o fardo de pensar por todos. Vestir aquela camisa marcante e marchar no bloco transformou a angústia de Valdemar no conforto cego de ser parte de um corpo gigante que pensava em uníssono e esmagava as dúvidas.

Severino suspirou e tacteou os óculos, sentindo o estômago revirar. Reconhecia aquele comportamento. Era o que Ernst Cassirer temia quando escreveu sobre o mito político moderno: quando a razão falha em curar as feridas de uma sociedade em crise, as massas regridem ao pensamento mítico. A política deixa de ser debate e vira uma guerra sagrada de santos contra demónios, onde a inteligência é sufocada pelo culto ao salvador da pátria.

— O que você chama de prumo e certeza, Valdemar, eu chamo de cabresto — disse Severino, num sussurro rouco, quase uma súplica. — Você está trocando gente de carne e osso, os teus iguais, por um espantalho de papel. Esse homem não inventou nada, ele só reciclou o medo. Ele cria o pânico para depois se vender como a única salvação. No dia em que você engole o que ele diz sem digerir, você apaga o seu próprio nome. Deixa de ser homem para virar bucha de canhão.

Valdemar virou-se abruptamente e revelou os olhos vermelhões e estáticos:

— E qual é a sua saída? Ficar em gabinete teorizando enquanto o país desmorona? Tolerar quem quer destruir o nosso futuro? Chega de fraqueza! O Chanceler foi claro: a tolerância com o erro é o câncer de uma nação. Temos um rumo. Não vou parar por sentimentalismo, por família, por nada. Quem não marcha com o povo está contra ele. E o Estado vai passar por cima.

— Essa é a armadilha, Valdemar! — a voz de Severino subiu, trémula de indignação. — Para manter vocês unidos nessa ilusão, ele precisa fabricar monstros todos os dias. Dividir o mundo entre puros e corrompidos. Mas a vida não cabe em um panfleto. Essa gente que você quer esmagar na praça é formada pelos nossos vizinhos, os teus amigos de infância… sou eu, Valdemar! Se a minha existência não cabe no Estado do teu Chanceler, o que o teu mito manda você fazer comigo?

Valdemar travou. A boca meio aberta, o ar preso na garganta. Por um instante, aquele “sou eu” rasgou os slogans que ele repetia como um mantra. A certeza nos seus olhos oscilou, engolida por um pânico genuíno. Mas, recuar ali significava despencar de volta no vazio, perder o chão que o partido lhe dava. O pavor do caos foi maior do que o laço de sangue. Ele engoliu em seco, desviou o olhar e endureceu a espinha outra vez, blindando-se no dogmatismo.

— Você está dramatizando, Severino. Ninguém quer o teu mal — retrucou Valdemar, embora as suas mãos estivessem trémulas sobre a mesa, buscando apoio nas cartilhas decoradas. — Entenda: os indivíduos passam, a pátria fica. Se você se recusa a ver que estamos em guerra contra a decadência, você se torna um obstáculo. O Chanceler diz que a história não perdoa os fracos.

— Fracos? — Severino deu um passo à frente, o peito colado ao do irmão. — Chamar a empatia e o respeito à vida humana de fraqueza é o primeiro passo para a barbárie, Valdemar! Esse homem anestesia a sua moral para que você possa cometer ou aplaudir atrocidades em nome de um bem maior. Olhe para si mesmo! Você mudou. Você não olha mais nos olhos das pessoas; você olha para os rótulos ideológicos delas.

— Eu não fui enfeitiçado! — gritou Valdemar, batendo com o punho na mesa.

O tampo de mogno estalou, fazendo as xícaras chacoalharem e o bule quase derramar o café. O grito expôs a ferida aberta: o medo latente de ser apenas um fantoche.

— Eu escolhi isso! Cansei dessa conversa mole onde todos falam e nada se resolve. O Chanceler nos deu orgulho! Antes dele, éramos ninguém. Agora, fazemos parte de algo gigante. Você prefere a sua superioridade intelectual à força de um povo unido. Salve a Democracia! A Liberdade!

— Um povo cego e unido pelo pânico não é forte, é uma força destrutiva — respondeu Severino, forçando a voz a voltar a um tom calmo, quase fúnebre. — Você diz que escolheu, mas não há liberdade onde a base é o medo fabricado. O seu Chanceler precisa manter vocês em terror constante. Se o perigo acabar, o poder dele esvazia. É por isso que os inimigos nunca somem; se esmagarem os de hoje, ele inventará outros amanhã. É uma máquina de moer gente, Valdemar. E você está ajudando a empurrar a manivela.

Valdemar engoliu o nó que subia pelo estômago. Naquele silêncio sufocante, as palavras do irmão arrastaram uma memória antiga: os dias de tempestade na infância, quando ele corria, pavoroso, para a cama de Severino atrás de protecção. Aquela lembrança de calor humano colidia violentamente com a palavra “traidor” que os seus companheiros de partido carimbariam na testa de Severino sem hesitar. O conflito o dilacerava: ser o irmão ou o soldado do Chanceler?

— Você fala como se fôssemos monstros — murmurou Valdemar, a voz murchando, quase implorando por uma validação que sabia que não viria. — Nós só queremos consertar o que está quebrado. Ele tem um plano.

— Esse é o perigo supremo — concluiu Severino, aproximando-se e colocando a mão, firme e carinhosa, no ombro do irmão. Valdemar não recuou, mas o seu corpo estava rígido como pedra. — Quando você acredita que um homem sabe o que é melhor para o todo, sem precisar prestar contas a ninguém, você abdica da sua condição humana. Você transfere a sua consciência para ele. Se ele ordenar que você me denuncie, o que a sua doutrina fará com a sua memória de nós dois nesta sala?

Valdemar não respondeu. O silêncio que se instalou na biblioteca era denso, sufocante. O irmão mais novo afastou-se devagar, retirando o ombro do toque de Severino. Ele recolheu os seus panfletos e manifestos da mesa, enfiando-os na pasta com movimentos bruscos, como se guardasse ali as próprias dúvidas para que não ficassem expostas.

Sem conseguir sustentar o olhar do irmão, caminhou até a porta.

— Eu preciso ir — murmurou Valdemar. — A marcha vai começar.

A porta se fechou com um estalo seco, deixando Severino sozinho na penumbra.

Ele aproximou-se da janela e observou o irmão caminhar pela rua de paralelepípedos, apressando o passo até se misturar à multidão frenética. Lá embaixo, o mar de camisas idênticas, faixas e cartazes convergia para a praça central, onde os alto-falantes já ecoavam refrões e slogans repetitivos. Severino encostou a testa no vidro frio, sentindo uma profunda melancolia ao ver a multidão moer, passo a passo, a identidade do seu próprio irmão.

João Lages Neto, Membro Titular da Cadeira nº 17 – AMACAL – Academia Capixaba Maçónica de Letras – jlagesvix@gmail.com

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