O Conceito de GADU na Maçonaria
Segundo a visão de um iniciado no REAA
Algum tempo depois da sua criação, a Franco-maçonaria Inglesa fixou os “Landmarks”, quer dizer, as Leis e Regras que devem ser obedecidas, uma vez que, fora delas, não há Franco Maçons. Somente membros de uma sociedade profana, não iniciática. Posteriormente, estes “Landmarks” variaram muito segundo cada Obediência que os adopta, com interpretações múltiplas, contudo, toda Obediência que não esteja dentro destes princípios, será considerada como potência irregular pelas potências Anglo-saxónicas.
Incontestavelmente, podemos considerar que a Maçonaria Operativa, precursora da Maçonaria Especulativa, era de essência religiosa, sendo o seu carácter Sagrado conservado na Maçonaria especulativa desde a sua criação, no início do século XVIII, pelo pastor Anglicano James Anderson. E neste enfoque vamos verificar a evolução do conceito de GADU, que tem mudado através dos anos.
Para que tudo fique esclarecido, parece oportuno definir primeiro o que são Deísmo e Teísmo.
O Deísmo é uma representação mental, que reconhece a existência de uma Divindade Superior, denominada genericamente de Deus e que para os Maçons é chamada de GADU é uma crença baseada na razão, que não admite a revelação, nem tampouco o dogma. Porém observa e aceita uma religião natural, classificando Deus como uma entidade não exprimível e incognoscível.
O Teísmo, pelo contrário, é a crença num só Deus, personificado e transcendente, e na sua vontade revelada. E o Deus Criador do Universo e do Homem, que rege a ambos, pois é imanente em toda a sua criação.
O Deísta admite que a sua razão pode conceber a existência de uma Potência supra humana, de um ser Absoluto, de um Princípio Criador, negando-se, porém, a analisar as características que escapem às faculdades humanas; ou seja, definir essa Entidade. Ao contrário, o Teísta se considera capaz de estudá-lo, defini-lo, personificá-lo e dogmatizá-lo.
Feitas estas considerações, fica evidente que o problema essencial e indiscutível para um Maçom do REAA, é a crença no GADU, é à Glória dele que nós trabalhamos. E o ponto primordial do edifício Iniciático, tanto que é invocado no início e no final dos trabalhos em todos os Graus, dando assim aos Ur.-, o sentimento de participação numa cerimónia sagrada, cuja egrégora o ajuda a buscar e encontrar a plenitude do sentido da vida.
É evidente que assim concebido, o significado de GADU deveria, em princípio, ser admitido tanto pelos Teístas como pelos Deístas. O que acontece na realidade é uma interpretação pessoal das constituições de 1723, cuja redacção escrita em linguagem da época, se deveu essencialmente aos Pastores Anderson e Desaguiliers, carta essa universalmente reconhecida pela Maçonaria, e que traz no seu artigo:
“Um Maçom tem a obrigação de obedecer à lei moral e, se entender bem a “Arte Real”, não será jamais nem um ateu estúpido nem um libertino irreligioso”.
Este texto tem sido interpretado por vários comentaristas, como uma condenação ao ateísmo, marca um progresso considerável em relação aos “Old Charges” (Antigos Deveres) dos Maçons Operativos. Com certeza estes deveres se referiam a uma irmandade eminentemente católica, construtora de edifícios sagrados e composta por lojas dispersas. As constituições de Anderson são concernentes às lojas especulativas, agrupadas e organizadas em cujo seio trabalhavam Maçons católicos, protestantes, judeus, muçulmanos etc.
Esta evolução é a consequência, se não a causa, de que membros de igrejas reformadas já tinham ingressado nas lojas, e por que não, aspirassem a dirigi-las. Neste contexto, com o conceito de GADU aparece uma das manifestações mais significativas da liberdade de consciência; homens de religiões diferentes podem oficialmente reunir-se e participar de uma obra iniciática comum. Trata-se também de uma manifestação de tolerância tão ampla e evoluída para a época que a razão da maioria não o admitiria.
Como consequência de diversas pressões, o Grão-Mestre Dervenwater, nos seus regulamentos de 27 de Outubro de 1736, modificou essa concepção liberal, impondo de maneira formal, a crença num Deus personalista, criador do Universo e pai de toda a humanidade.
Em 1813, a publicação da 1ª Constituição da Grande Loja Unida da Inglaterra, resultante da fusão das obediências dos “Antigos” e a dos “Modernos”, prescreve no seu primeiro artigo:
“Qualquer que seja a religião de um homem ou a maneira de adorar a Deus, não será excluído da Ordem, sempre que creia no Glorioso Arquitecto do Universo, Criador do Céu e da Terra”.
Este dogma está concretizado como segue:
“A Maçonaria é um culto para conservar e estender a crença na existência de Deus. Para ajudar os Maçons a regular a sua vida e a sua conduta sobre os princípios da sua própria religião, qualquer que ela seja. Com a condição de que seja uma religião monoteísta, que exija a crença em Deus, como Ser Supremo, que esta religião tenha um livro sagrado, considerado como o contendor da vontade revelada de Deus e sobre o qual o Iniciado possa prestar juramento à Ordem”.
Por conseguinte, a Maçonaria Inglesa adoptou um Deus Personalista e crê nos seus dogmas. Esta posição Teísta está confirmada pelo célebre escritor maçónico Mackey que descreve que o “Landmark” essencial é a própria crença em Deus como Grande Arquitecto do Universo e na ressurreição para uma vida futura.
A Grande Loja Unida da Inglaterra, que se auto proclama “A Grande Loja Mãe” da Maçonaria, em razão da sua antiguidade, se vê como a “Guardiã dos usos e costumes tradicionais da Maçonaria Regular”. Num memorial de 4 de Setembro de 1929, relativo aos critérios de regularização das Obediências proclama:
“que a Crença em Deus GADU e na sua vontade revelada, é uma condição essencial para a admissão dos seus membros”.
A Constituição da Grande Loja da Carolina do Sul, USA, já é um pouco mais liberal e explicita:
“Qualquer profano que deseje ser recebido Maçom, será informado que deve crer firmemente na existência da Divindade, que é o GADU.”
Na França, a Grande Loja Nacional Francesa, única potência Maçónica reconhecida pela Grande Loja Unida da Inglaterra, – criada em 1913 por duas Lojas cindidas do Grande Oriente de França – declarou num manifesto de Setembro de 1960:
“A condição para ser admitido na Ordem e para tomar parte na Grande Loja Nacional Francesa, é a crença no Ser Supremo e na sua vontade revelada. Esta regra é essencial e não admite nenhuma discussão”.
Em 1961, esta mesma Obediência, prescreveu que não pode haver Maçonaria regular fora dos princípios seguintes:
“Crença em Deus GADU, na sua vontade revelada expressada no livro da Santa Lei e crença na imortalidade da alma”.
Por fim, em 1967, adopta a seguinte definição:
“A Maçonaria é uma Fraternidade Iniciática que tem por fundamento tradicional a Fé em Deus, GADU”.
Nós podemos constatar que, observando a evolução do pensamento humano desde a criação da Maçonaria especulativa, estas obediências que se chamam “regulares”, estão defasadas com o texto constitutivo da Ordem: As constituições de Anderson de 1723.
Se as Obediências admitem os “Landmarks” compilados por Anderson, devem entender que o desejo do Pastor Anglicano era de superar as adversidades das varias interpretações e permitir a individualidade do pensamento e da fé, dentro de uma Ordem Universal.
O GOSC, uma das três Obediências Maçónicas de Santa Catarina, não tem pretensão de impor o seu próprio ponto de vista a outras Obediências, mas na sua constituição define claramente, com respeito aos “Landmarks” e simplifica: Todo Maçom há de crer na existência de Deus como o GADU, a crença na ressurreição e numa vida futura. A existência do livro da lei, no altar. Assim, permite um amplo espírito de tolerância para todas as religiões.
E nesta linha de espírito liberal, que o caracteriza, o REAA, designa a Deus pelo seu conceito fundamental: O GADU Este conceito é evocador de um princípio de Ordem regulador do mundo manifestado. Segundo a Tradição, constitui a chave do Rito que trabalha para o glorificar, o que significa que o Escocismo rende uma homenagem de respeito e devoção ao GADU, sem jamais defini-lo.
A compreensão deste conceito desperta diferentemente da consciência de cada Maçom, sendo admitido que a prática criteriosa dos rituais, o estudo do simbolismo e o trabalho pessoal são os únicos meios de acesso ao conteúdo iniciático da Ordem, que leva o iniciado à compreensão de que existe um princípio Criador transcendente e imanente. Sabedoria Infinita, Conhecimento Perfeito, Amor, Perfeição, que condiciona a nossa iniciação desde o primeiro até o último dia da nossa existência Maçónica. As vias individuais conduzem para o conhecimento do Infinito. Os sentidos me conduzem em meditação para o não sentido. Eu sou Sensível. O ser sobrepõe o Não Ser. O espírito domina a Matéria. O compasso está sobre o Esquadro.
O símbolo de GADU, não está ligado a nenhuma crença expressa, por conseguinte, a fé do Maçom do REAA na total liberdade de consciência, se situa de uma forma natural num quadro de iniciação sobre um plano ideal, transcendendo ao caos, exaltando os valores espirituais mais altos, conduzindo o iniciado do mundo físico, cartesiano e racionalista, pelos caminhos invisíveis do sagrado, para um plano metafísico iluminado, de expansão da consciência, para atingir a tão almejada perfeição.
Para o Maçom do REAA, o GADU não é, pois, uma pessoa divina de onde a vontade revelada será visível na Loja e se explicaria de uma vez para sempre por um texto imutável de uma lei escrita. E um princípio superior que não exige nenhum credo.
Em relação ao Livro da Lei Sagrada, a atitude do Escocismo é igualmente clara. Este livro é a primeira das três Luzes do Rito, não como expressão da vontade revelada de Deus, senão como símbolo da mais alta espiritualidade do Homem.
As interpretações do símbolo do GADU é, desgraçadamente, a base da divisão e da separação das obediências mais tradicionais, provocando fragmentações e separações das Obediências, que a convencionaram chamar Maçonaria Universal.
As Obediências que se auto definem “tradicionais”, são Teístas e estão se transformando no curso dos anos em conformistas, intolerantes e mais ou menos sectárias, exigindo a crença num Deus Personalista. Pelo contrário, o REAA tem se mantido indubitavelmente Deísta, liberal e tolerante. Tem permanecido fiel às tradições, levando em conta a evolução espiritual da humanidade no curso das últimas décadas
O REAA, contrário à interpretação dos Anglo Saxões, segue com a sua compreensão viva e enriquecedora do conceito fundamental da Ordem, testemunhado pelo seu alto valor iniciático. Para os seus adeptos, a interpretação do prestigioso conceito de GADU os ajuda a prosseguir o seu caminho pela via do conhecimento, com a ajuda da iniciação, que é a via da libertação em relação aos dogmas. Este é o maior testemunho do Rito em praticar uma verdadeira tolerância activa, também no domínio metafísico. E um verdadeiro regresso às fontes.
Está claro que os Ingleses negam todo valor simbólico ao conceito de GAD U e que impõe uma crença dogmática. Parece que concebem a Maçonaria como uma prática ampliada da sua religião, como uma espécie de culto complementar. Esta atitude não é compatível com a tradição da Ordem e da sua necessária evolução. A busca da verdade necessita de uma absoluta liberdade de pensamento e de consciência a fim de que o Maçom possa exercer plenamente o seu livre arbítrio e assim, nesse espírito, os Maçons podem continuar, sem restrições, trabalhando à Glória do GADU.
Emílio César Espíndola, ARLS União e Fraternidade do Mercosul nº 70,· Or. de Florianópolis
