Maçonaria & Política (IV)
O Senhor do Mundo merece um lugar ao lado de Admirável Mundo Novo e 1984 entre os clássicos da ficção distópica. Na verdade, se as obras de Huxley e Orwell lhe são comparáveis em valor literário, são claramente inferiores no valor profético. Os ditadores políticos que deram à novela pesadelo de Orwell a sua potência sinistra já tiveram os seus dias. Contudo, a novela pesadelo de Benson faz-se realidade diante dos nossos olhos.
Joseph Pearce
Historiador e crítico literário inglês.
Estava escrevendo o quarto texto da série Maçonaria & Política, que em breve será publicado, já então como o quinto e com o foco voltado à questão da Representação Política, quando fui surpreendido com a notícia da invasão da Igreja Nossa Senhora do Rosário, Curitiba-PR, e por entender que o episódio também se inscreve na esfera da Maçonaria & Política, como adiante deixarei mais claro, decidi por momentaneamente interromper aquele e escrever este brevíssimo texto.
O episódio foi noticiado por várias mídias [1], mas porque se trata de um diário da localidade, trago ao texto informações extraídas da Gazeta do Povo [2]
- Quando: sábado, 05.02.22.
- Liderança: Vereador Renato Freitas (PT).
- Coadjuvantes: dezenas de manifestantes com bandeiras do PT e do PCB.
- O evento: celebração de culto em memória ao congolês Moïse Mugenyi, barbaramente morto no Rio de Janeiro. O encontro também destinava-se à manifestação de solidariedade aos familiares, posicionamento contra o racismo e pedido de justiça.
Não só por se tratar de fonte jornalística, porque de regra todas são tendenciosas, umas mais à esquerda, outras à direita do espectro político, mas também porque o episódio, muito recente, ainda está sob apuração das autoridades, não cabe por ora precipitar juízos definitivos [3] Contudo, de imediato o ocorrido reuniu a condenação (até o momento) unânime de várias personalidades [4], entidades (públicas e privadas) e instâncias governamentais, inclusive dos pares mais próximos ao Parlamentar citado.
Todavia, independentemente das averiguações, o facto é que o episódio não só vai ao encontro do discurso das lideranças políticas à esquerda [5] do espectro político, como se mostra alinhado a outros tantos recentemente ocorridos no mundo [6] (ANTEQUERA, 2020), nas Américas – do Canadá ao Chile – e mesmo no Brasil. Embora os motivos sejam variados, a exemplo do proselitismo de determinadas confissões e dos choques culturais (HOUELLEBECQ, 2015), na maioria das vezes e quase que invariavelmente os alvos são os templos e os símbolos cristãos. Parecem pois, claras as evidências de que estamos em meio a uma escalada na qual a intransigência religiosa é tão somente uma das expressões de uma luta ainda maior e que no Brasil tem se manifestado como exacerbação dos ânimos a exemplo da polaridade constatada nas últimas disputas eleitorais. E não se trata, e é bom que se esclareça, tão somente de divergências doutrinárias ou relativas aos dogmas de fé, mas ao se posicionar, por exemplo, a favor da família tradicional e contra o aborto, o cristianismo católico tem contrariado poderosos interesses seculares. Assim, não raro a questão religiosa, embora sobressaindo-se às outras, é antes uma mera “fachada”, uma cortina de fumaça levantada para impedir ou dificultar o acesso aos verdadeiros interesses em disputa.
A intransigência religiosa, não bastasse o amplo legado na história dos povos, muitas vezes gravado com o sangue de inocentes e sob escombros de toda natureza (VOLTAIRE [7] 2008), punidos antes de tudo pelas crenças manifestadas, infelizmente ainda se faz presente em pleno séc. XXI, e se não for contida ampliará exponencialmente o montante de vítimas.
De modo mais directo, pelo menos em duas oportunidades (PINHEIRO, 2020a; b) eu já demonstrei os vínculos da Maçonaria (explicitamente citada na maioria dos textos-fontes) bem como levantei (à guisa de alerta) conjecturas sobre os desdobramentos do processo em curso, tanto baseado na literatura histórica-ficcional (MEZZABOTTA, 2001; BENSON, 2015; SOLOVIEV, 2019) quanto em autores lastreados em farta documentação (SANAHUJA, 2012; MARSHALL, 2020). Por oportuno, como nem a Maçonaria e tampouco as crenças (organizadas em Igrejas) constituem blocos monolíticos, nem no Brasil e nem no mundo, as considerações devem ser sopesadas à luz de cada realidade.
Concluo com algumas citações de Benson (2015) e um convite à reflexão e tomada de posição dos leitores e eleitores maçons:
Havia grande tumulto de homens, mulheres gritando, grupos de jovens agitados haviam feito passeatas pelas ruas, berrando, denunciando e assassinando. Ninguém sabia quantas mortes tinham acontecido, mas quase não havia rua sem sinais de excessos. A catedral de Westminster fora saqueada; os altares derrubados, indignidades indescritíveis foram perpetradas lá. Um sacerdote desconhecido mal teve tempo de consumir o Santíssimo Sacramento antes de ser agarrado e estrangulado. O arcebispo, com onze padres e dois bispos tinham sido enforcados no lado norte da igreja; trinta e cinco conventos destruídos, a catedral de St. George, queimada até o chão. E os jornais vespertinos chegaram a declarar que, pela primeira vez, desde a introdução do Cristianismo na Inglaterra, não pouparam um só sacrário dentro de uma área de trinta e dois quilómetros da Abadia. “Londres – declarou o New People em grande manchete – foi finalmente expurgada da tolice esquálida e bizarra. (op. cit., p. 228);
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[…] nos placares electrónicos a notícia de que a obra cruel tinha-se completado e que Roma deixara de existir […] por um surpreendente acaso, praticamente todas as cabeças da hierarquia do mundo inteiro tinham se reunido no Vaticano, justamente o primeiro objecto de ataque […] Em Roma não ficara em pé um único edifício […] não menos que trinta mil fugitivos retardatários tinham sido aniquilados […] muitos tesouros de valor incalculável tinham sido destruídos, mas isso era um preço pequeno a pagar pelo extermínio completo e definitivo da peste Católica […] o Papa, com todo o Colégio de Cardeais […] haviam desaparecido de um golpe […]. (op. cit., p. 229);
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Os Católicos (se algum existisse que fosse corajoso o bastante para tentar) não deveriam ser permitidos tomar parte em nada em qualquer país civilizado. (op. cit., p. 229-30).
Ivan A. Pinheiro
| Mestre Maçom (licenciado) do Quadro da ARLS Mário Juarez de Oliveira, 4547, GOB-RS; da LEP Universum, 147, GLMERGS; da Loja de MESA Victor Meirelles; e Membro Correspondente da Academia Maçónica de Letras, Ciências, Artes e Ofícios do GOB-BA. O autor expressa-se como livre pensador, os seus pontos de vista são absolutamente pessoais, não representam as Potências, Obediências e Lojas das quais participa, razão pela qual não raro se manifesta também com o recurso à primeira pessoa do discurso. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 09.02.22. |
Notas
[1] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VYcr7kFeyKQ. Acesso em: 09.02.22.
[2] Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/parana/invasao-igreja-liderada-vereador-pt-causa-indignacao/. Acesso em: 09.02.22.
[3] Disponível em: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2022/02/07/grupo-que-pedia-justica-pela-morte-de-moise-entra-em-igreja-durante-manifestacao-arquidiocese-de-curitiba-diz-que-acao-foi-agressiva.ghtml. Acesso em: 09.02.22.
[4] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6BaGpfsNJ5M. Acesso em: 09.02.11.
[5] E não se trata de um posicionamento político contemporâneo; para melhor entendimento do processo histórico leia-se, entre outros, Engels (2002).
[6] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_ataques_a_igrejas_em_2021. Acesso: 09.02.22.
[7] 1694 – 1778.
Bibliografia citada
- ANTEQUERA, Luis. Cristofobia – a perseguição aos cristãos no século XXI. Florianópolis, SC: ID, 2020.
- BENSON, Robert H. O Senhor do Mundo. São Paulo: Cultor de Livros, 2015.
- ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São Paulo: Centauro, 2002.
- HOUELLEBECQ, Michel. Submissão. Rio de Janeiro: Objectiva, 2015.
- HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Globo, 2014. Biblioteca Azul.
- MARSHALL, Taylor R. Infiltrados – a trama para destruir a igreja a partir de dentro. Campinas, SP: CEDET, 2020.
- MEZZABOTTA, Ernesto. O Papa Negro. Rio de Janeiro: Espiritualista, 2001.
- ORWELL, George. 1984. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2005.
- PINHEIRO, Ivan A. O Rito Escocês Rectificado e a Perseguição aos Cristãos no Cenário da Geopolítica Contemporânea. Disponível em: pinheiro@ufrgs.br. Publicado em: Agosto, 2020a.
- PINHEIRO, Ivan A. A Maçonaria & O Regime (Rito) Escocês Rectificado no Contexto da Nova Ordem Mundial. Disponível em: pinheiro@ufrgs.br. Publicado em: Dezembro, 2020b.
- SANAHUJA, Juan C. Poder Global e Religião Universal. Campinas, SP: CEDET, 2012.
- SOLOVIEV, Vladimir S. Breve história sobre o Anticristo. São Caetano do Sul, SP: Santa Cruz, 2019.
- Tratado sobre a tolerância: por ocasião da morte de Jean Calas. Porto Alegre: L&PM, 2008.
