Maçonaria e Memória: Um vínculo esquecido, elos perdidos
Introdução
Primeiramente, cabe esclarecer que este texto passa ao largo das incontáveis técnicas contemporâneas que têm por objectivo facilitar e aumentar a acumulação e a recuperação de uma grande gama de informações. No que tange a esse aspecto ele se atém ao resgate da ideia da configuração básica do que é referido por “memória clássica” ou “memória artificial”, isto é: o recurso às técnicas associativas elementares que permitem passar de um ponto de partida (p. ex., da cor branca), a um intermediário (a neve) até o objectivo final: a lembrança das condições climáticas vigentes em determinado espaço-tempo: o frio congelante. Em contraponto à memória artificial, a memória natural é espontânea, de regra não quer a elaboração de mecanismos associativos, como é o caso da lembrança da refeição mais recente, de alguém recentemente encontrado ou do passeio no final de semana. E sem prejuízo à importância das técnicas, elas não correspondem ao essencial, ainda que uma sessão (maçónica) nas quais as falas sejam memorizadas, como numa representação teatral, não apenas se revele mais elegante como, sobretudo, favoreça o direccionamento do foco para o que realmente deve merecer a atenção dos Irmãos: os ensinamentos velados por símbolos e alegorias, notadamente por ocasião das sessões Iniciáticas [1]. Perde-se muito, quase todo o significado ínsito às sessões se a leitura é fragmentada, continuamente interrompida (quando não em meio a rumores e barulhos diversos) à procura do trecho a ser lido, o que também leva à perda da entonação – sim, pois se a Iniciação é também uma dramatização, o entendimento (do enredo) torna-se deveras enriquecido quando os Irmãos representam tal como actores que memorizam as falas. Também por isso, vários textos sagrados, a exemplo do Alcorão, devem(riam) ser recitados e cantados ao invés de simplesmente lidos. Nessa linha, as Lojas de Demonstração, uma tradição inglesa que se adoptada no Brasil [2], ainda que com adaptações, teria muito a contribuir:
O acesso para membro da Loja era concedido apenas a Irmãos de reconhecida habilidade ritualística e amplo domínio da língua inglesa. Os cargos eram distribuídos para Irmãos que posteriormente iriam servir nas suas Lojas de origem, servindo de referência em matéria de desempenho ritualístico, com cerimónias feitas inteiramente de cor [3].
É de se perguntar: quanto os expectadores estariam dispostos a pagar para assistir a uma representação teatral em meio a qual inesperadamente os actores a qualquer e a todo momento interrompessem para ler a fala do personagem? E qual seria a reacção se, após pagar, tivessem se defrontado com a representação nos termos apresentados? Provavelmente se evadiriam do local antes do término e, com ânimos exaltados, reclamariam a devolução dos valores. Cabe arguir: a Maçonaria, que se apresenta como uma Escola Iniciática, não pode ser comparada com uma representação teatral. Sim, mas a analogia deixa clara a mensagem, senão por outros motivos, porque na Ordem tudo é símbolo dotado de significado, inclusive a virtuose performativa.
Visto o que o texto não aborda, mas sem menosprezar a importância do que exclui, veja-se, então, o que considera.
De hábito a memória não é tema de estudo da Maçonaria, são raras as referências; não obstante deveria sê-lo pois, como se demonstrará, encontra-se amalgamada com outros temas usualmente estudados, como é o caso das Sete Artes Liberais. Surpresa maior, como também se trará à luz, é saber que ela – a Arte da Memória – deu azo ao surgimento do que para alguns seria o primeiro Rito da Era Moderna, o que estabelece a ponte entre fase Operativa e a Especulativa. Portanto, o objectivo principal deste texto é desvelar o papel da memória no seio da Maçonaria, situando-a naquele que deveria ser o seu devido lugar: no centro do palco e sob a luz dos reflectores. Assim, devidamente iluminada, talvez os maçons tenham mais claro as perdas acumuladas em razão do esquecimento a que foi relegada, e tendo-a esquecido, em certa medida também perderam os vínculos com os fundamentos e os propósitos da Ordem, bem como fragilizaram os elos que mantêm unidas tanto as partes (actos) de uma sessão Ordinária, quanto estas com as Magnas de Iniciação e as para a progressão de graus. Destarte, a análise crítica focada nas raízes do passado traz à pauta e coloca em xeque as amnésias actualmente responsáveis pelas dificuldades de muitos, excepto dos românticos e dos saudosistas, em encontrar sentido na Maçonaria que, então, se confunde com mais um Clube de Amigos e rede de relacionamentos para os mais diversos fins.
Antecedentes
Hoje parecem claros e até evidentes para os que se dedicam mais a fundo aos estudos sobre a Ordem, os vínculos entre a Maçonaria e a Memória, o que tende a crescentemente fazer desta um objecto de estudo da primeira. Mas nem sempre foi assim, e uma das pioneiras nessa identificação foi Frances A. Yates, 28.11.1899 – 29.09.1981, historiadora inglesa que se concentrou no estudo do Renascimento; e desde então as suas obras, dentre as quais ora se destacam Giordano Bruno e a Tradição Hermética [4], El Iluminismo Rosa-Cruz [5] e A Arte da Memória [6], têm inspirado estudiosos de várias Ordens discretas, a exemplo da Maçonaria, ou secretas. Em A Arte da Memória, inclusive, ela levanta hipóteses de estudo para explicar acontecimentos ainda obscuros no seio da Maçonaria, como é o caso da passagem da Fase Operativa à Especulativa.
A propósito, memória remete à Mnemósine, uma das titânides da hierogamia que deu origem ao panteão grego.
A palavra grega prende-se ao verbo mimnéskein, que significa “lembrar-se de”. A titânida Mnemósine, assim, vem a configurar no universo mitológico grego a própria personificação da Memória. Mas o mito nos diz mais […] Para celebrar, Zeus une-se durante nove noites consecutivas à Mnemósine, e desta união nascem nove filhas, as cantoras divinas que tinham por função primeira presidir as diversas formas do pensamento: sabedoria, eloquência, persuasão, história, matemática, astronomia. São as nove Musas e a palavra grega que as designa […] talvez se relacione a um termo que significaria “fixar o espírito sobre uma ideia, uma arte” [7].
Essa breve reminiscência histórica-mítica tem por objectivo, de pronto, chamar a atenção para a importância da memória no quotidiano da ancestralidade humana, quando não só ocupava um lugar entre os deuses, como foi a sua prole que, tal como um elo, uniu e deu continuidade geracional entre os deuses da primeira (os gigantes titãs) e os da segunda geração (os deuses olímpicos). Como que a ratificar essa importância, as palavras iniciais de um dos primeiros clássicos da literatura, Teogonia: “Elevemos o nosso canto às Musas […]” [8]. Ademais, não é à toa que Sócrates, mas também Platão, viam com receio a iniciativa de registrar as ideias por escrito – porque as pessoas deixariam de estimular a memória, raciocinar, entender e promover o parto de novos conhecimentos. Por isso o primeiro não deixou escritos (e não, como afirmado por alguns, porque não soubesse escrever) e, do segundo, se diz que o essencial do seu pensamento só foi transmitido oralmente aos seus discípulos e encontra-se, para os olhos que sabem enxergar, escamoteado em meio às entrelinhas da sua vasta obra. Ambos, Sócrates e Platão, são largamente utilizados na Maçonaria.
Foi nesse ambiente que Aristóteles (384-322 a.C.) se desenvolveu. Na sua Teoria do Conhecimento o autor estabelece que as percepções após serem apreendidas pelos sentidos são processadas pela imaginação e então memorizadas na forma de imagens, efectivas matérias-primas para os pensamentos subsequentes. É de notar que a realidade pode, então, se confundir (e se confunde mesmo) com as percepções individuais. “Assim, apesar de todo o conhecimento derivar, em última instância, das impressões sensoriais, não é a partir destas em estado bruto que o pensamento funciona, mas após tais impressões terem sido tratadas pela faculdade da imaginação ou absorvidas por ela” [9]. Por exemplo, quando pensamos e conversamos sobre maçãs, raramente cogitamos e especificamos o tamanho, a cor, o aroma, etc., e tampouco conhecemos, mas valemo-nos das imagens registradas nas memórias-produtos das experiências sensoriais então constituídas na forma de percepções individuais.
Por oportuno, ainda que pareça evidente, é importante chamar a atenção para o facto de que, por inúmeros motivos, dificilmente duas pessoas captam, da mesma realidade, registros idênticos, por vezes sequer semelhantes. E para comprová-lo é suficiente, por exemplo, pensar na imagem (que pode ser a de uma maçã) formada por um daltónico, ou ainda por alguém com alguma limitação olfactiva ou táctil. Destarte, até mesmo o diálogo e o entendimento sobre maçãs pode enfrentar obstáculos inusitados; imagine-se, então, se sobre temas abstractos, carregados de subjectividade e vistos por lentes mediadas por sistemas de crenças e ideologias, como é habitual na Maçonaria. Tome-se, por exemplo, os debates sobre o que é e se, afinal, existem ou não verdades (para alguns, Verdade), acerca das chamadas questões fundamentais (de onde viemos, para aonde vamos e qual o sentido da vida?), da formação dos princípios e da escala de valores que medeiam (ou deveriam mediar) as relações humanas, sobre os vícios e as virtudes, da liberdade, etc. que, idealmente, deveriam ser levados “às últimas consequências” conceituais e práticas. O exemplo da maçã é um dos mais simples, mas imagine-se um mundo no qual as memórias (sociais, políticas, históricas, etc.) a todo momento são criadas e recriadas não mais a partir da realidade efectivamente apreendida pelos sentidos, mas a partir de fake News (agora alavancadas pelas ferramentas de Inteligência Artificial) coordenadas a partir de um Ministério da Verdade [10]. Se à época (pós-II Guerra) o mundo orwelliano era uma distopia, hoje já há vasta literatura, a exemplo de Derosa [11], Tucker [12] e outros que a partir das actuais condições tecnológicas aventam desdobramentos perturbadores ao tema em foco: Maçonaria e Memória, senão por outros motivos, porque a primeira sobremodo dialoga com a realidade a partir da exploração de símbolos, alegorias, lendas e outros. Se no passado os símbolos eram predominantemente utilizados para superar as insuficiências da linguagem para expressar uma realidade incognoscível em si mesma e duradoura (quiçá eterna), hoje os símbolos também são utilizados para constituir e imediatamente reconstituir realidades instantâneas.
Destaca-se, pois, não só a relevância da apreensão pelos sentidos como as suas consequências quando promovida de forma limitada, distorcida ou equivocada (inadvertida ou maliciosamente): o pensamento e a cognição ficarão comprometidos, podendo-se mesmo criar “falsas realidades”. Claro que, hoje [13], sabe-se que não é apenas pelos sentidos que adquirimos o conhecimento, mas explorar este domínio fugiria ao escopo ora pretendido e tampouco faz demasiada falta aos objectivos deste ensaio.
Ademais e paralelamente, o florescimento da democracia grega coloca em destaque uma habilidade: a retórica (uma das Artes Liberais), pois
[…] a verdade é que a arte retórica, mormente dentro do painel de estudos do Trivium, tem como metas prover o aluno com os instrumentos para actuar no mundo labiríntico das opiniões – principalmente das opiniões políticas e do direito;
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[…] dois sentidos para a palavra. Retórica pode significar a faculdade natural de procurar argumentos em favor de uma tese qualquer; ou, então, a arte extremamente refinada que foi engendrada pra facilitar o alcance desse fim. Isto é dizer que, já por natureza, tendemos a sair à cata de argumentos que embasem as nossas crenças e que possam servir para convencer os nossos interlocutores; ao passo que a arte vem corroborar e racionalizar essa actividade humana. Junto com essa actividade, porém, há inevitavelmente misturado o perigo da desvirtuação [14].
Portanto, a memória subjaz tanto à cognição que é própria e inerente à natureza humana, quanto se revela indispensável ao sucesso, e antes mesmo à sobrevivência, num ambiente no qual continuamente se faz necessário convencer terceiros, seja para o engajamento em projectos pessoais (de relacionamentos a empreendimentos idealizados), profissionais ou políticos (conquista do voto).
Não faltavam, pois, motivos para os gregos se ocuparem com a memória: como memorizar, guardar e recuperar as percepções quando necessário? Como assegurar a fidedignidade e a veracidade das percepções? Como memorizar a vasta gama de informações necessárias à argumentação, seja para fins jurídicos ou políticos, ou mesmo para fins expositivos e didácticos?
Os interessados na evolução do estudo da memória poderão recorrer ao “A Arte da Memória”, já considerado um clássico, um efectivo handbook, fonte inspiradora deste texto e do qual foram extraídos os conteúdos básicos à sua elaboração, como bem o demonstram as seguintes citações:
Ninguém conseguiu explicar como essas guildas “operativas” transformaram-se numa maçonaria “especulativa” e no uso simbólico do repertório figurativo arquitectónico no ritual maçónico;
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Penso que a resposta para esse problema possa vir da história da arte da memória. A memória oculta do Renascimento […] pode ser a verdadeira fonte de um movimento hermético e místico que não utilizava a arquitectura real da maçonaria “operativa” como veículo dos seus ensinamentos, mas sim a arquitectura imaginária ou “especulativa” da arte da memória. Um exame minucioso do simbolismo das irmandades rosa-cruz e da franco-maçonaria podem, talvez, confirmar esta hipótese [15].
Na mesma linha de Yates, que formou efectivos adeptos, segue Prinke [16]:
Um dos ofícios medievais mais avançados tecnologicamente era o dos pedreiros, construtores de castelos e catedrais góticas. E um dos desenvolvimentos socioculturais mais misteriosos no início da Europa moderna foi a transformação, durante os séculos XVI e XVII, das guildas de pedreiros medievais num movimento intelectual conhecido como maçonaria. Não há praticamente nenhuma fonte documentando a passagem de “lojas operativas”, cujos membros eram genuínos artesãos, para “lojas especulativas” onde as tradições da arte da construção permaneciam apenas nos aspectos ritual e simbólico, enquanto os membros eram recrutados principalmente entre cavalheiros e cidadãos ricos. As poucas fontes que sobrevivem são enigmáticas o suficiente para tornar a reconstrução do processo impossível além de hipóteses mais ou menos plausíveis.
Outro que seguiu a “hipótese Yates” foi Cooper [17]:
Não só o Templo de Salomão era a mais velha construção em pedra da Bíblia, e, portanto, era edificado pelos predecessores no ofício dos pedreiros; a arte hermética da memória oferecia um meio pelo qual poderiam buscar melhorar as suas habilidades mentais e suas vidas morais e espirituais. Este meio ligava a arte da memória com a sabedoria particular dos pedreiros e os fazia especiais e únicos num aspecto compartilhado por nenhum outro ofício ou negócio. Uma vez que o ritual e todas as palavras associadas e os signos do conhecimento esotérico eram dessa maneira enviados à memória e, então, passados para cada geração seguinte dessa mesma maneira, as partes do cerimonial se tornaram fixas, assim como a sua relativa importância de uma geração para a outra. O construto do Templo do Rei Salomão tornou-se absolutamente central para tudo que a Loja fazia, e isso, eu sugiro, fica claro a partir dos seu lugar nos rituais iniciais.
Assim, de Prinke e Cooper, pode se dizer que seguem o que ora se denomina de “hipótese Yates”, qual seja: a de que a passagem da Fase Operativa à Especulativa, de algum modo, posto que ainda é questão em aberto à pesquisa, está relacionada ao desenvolvimento da arte da memória e, como adiante ficará mais claro, não se pode descartar a existência de impactos recíprocos. A esses, como será visto, outros estudiosos já se reuniram e é de se esperar que outros mais venham aportar novos desenvolvimentos, dando então origem ao que se pode denominar de “Escola [18] Yates de Maçonaria” – o estudo da Maçonaria (doutrina, ritualística, simbologia, etc.) ao abrigo do manto do estudo da ars memoriae.
Contudo, se de um lado Cooper aderiu à “hipótese Yates”, de outro ele deixa claro que o tema ainda é um campo aberto a estudos mais aprofundados. Com efeito, há sinais que o indicam; assim, salvo melhor juízo, há na citação anterior, senão um equívoco cronológico, um vazio que necessita ser preenchido e mais bem esclarecido, pelo que também se constitui como um dos propósitos deste texto e igualmente um convite aberto ao debate no seio da comunidade maçónica brasileira.
A falta de maior dedicação ao tema – Maçonaria & Memória, “hipótese Yates” – explica porque os estudiosos passam ao largo de reflexões que poderiam [19] implicar na inversão tanto quanto à génese da Maçonaria Especulativa quanto os seus desdobramentos, que então seriam vistos como consequências lógicas até chegar aos actuais usos e costumes na e da Ordem. Assim, na ausência de estudos mais aprofundados sobre a “hipótese Yates”, o ingresso dos “Aceitos” [20] teria ocorrido porque a Ordem, em decadência, necessitava de patronos e protectores; porque à época (a Maçonaria) era modismo e seguia os passos do movimento rosa-cruz; bem como, em razão do sigilo que as envolvia, o ambiente das Lojas constituía um espaço favorável à conspiração (política) e ao exercício de práticas esotéricas (teúrgicas), entre outras sem perder de vista que as explicações (hipóteses) não necessariamente são mutuamente exclusivas. E se não há consenso, devido às disputas entre a maçonaria inglesa e a escocesa de que o Mason Word foi o primeiro Rito [21] (Jones [22]; Coil [23]) da Era Moderna oficial (pós-1717), as suas digitais genéticas podem ser encontradas nos Ritos que o sucederam, a exemplo do chamado Rito Moderno (ou Francês); todavia, o que ora importa ressaltar é o trabalho de Mata [24], pesquisador espanhol que sublinha o papel da ars memoriae no curso do surgimento do Mason Word, ideia também acolhida por Stevenson [25].
Segue-se a esses prolegómenos: primeiro, um esforço no sentido a melhor esclarecer os vínculos sugeridos por Yates, endossados por Cooper e outros; para, na seção subsequente, muito brevemente, porque já amplamente discutidos na literatura, trazer à tona os demais elos que vinculam a Maçonaria à Memória, a começar pelo uso de símbolos, mas também As Artes Liberais e as Virtudes, notadamente as virtudes cardeais.
Memória: da arquitectura operativa à especulativa ou vice-versa?
Apesar de as referências preliminares terem situado as preocupações com a memória nos tempos da Grécia Antiga, é facto que aquelas antecedem, e em muito, a própria História da humanidade, pois não fosse a presa (nossos ancestrais) reter na memória os odores, sons e demais sinais do predador – deflagradores das clássicas reacções “fugir ou lutar” -, ainda estaríamos na pré-História. Mais “recentemente”, mas ainda durante a Antiguidade, ela foi objecto de estudos entre os egípcios e, muito provavelmente, também por outras civilizações.
A crescente urbanização trouxe novas necessidades, entre elas não apenas ampliar o conjunto, mas, sobretudo, atribuir novos significados e melhorar a qualidade dos signos de comunicação, não mais utilizados apenas de forma directa, mas também simbólica e por vezes forçosamente escamoteados em razão das circunstâncias. Assim, por exemplo, a alusão ao panteão grego, mais do que a referência directa aos próprios deuses, frequentemente carrega a mensagem, por vezes subliminar, das virtudes e dos vícios que habitualmente lhes são associados. Igualmente os animais, sobretudo na literatura, têm sido largamente utilizados e com alvo certo: para referir aos vícios, às virtudes, assim como aos comportamentos dos homens públicos (Lúlio [26]; Orwell [27]). Por detrás dessa estratégia, inúmeros motivos, entre eles a segurança, o didactismo do imagético-lúdico, bem como a facilitação do emprego da memória mediante o desenvolvimento de mnemotécnicas – associação de ideias.
O ponto de partida:
Simónides [28], poeta e também filósofo, é tido como o inventor das regras dessa arte quando, num banquete, o tecto do salão veio abaixo de repente e os parentes das vítimas não puderam reconhecer (os corpos). Ele recriou a ordem em que cada convidado estava sentado à mesa do banquete e recordou os seus nomes, que tinha guardado na memória. Ele aprendeu, com essa (experiência), que é a ordem que está na base dos preceitos da memória. Estes (preceitos) devem ser considerados em lugares bem iluminados (in locis illustribus), onde devem ser colocadas as imagens das coisas (species rerum) [29].
E atendo-se apenas ao estritamente essencial, então desde muito cedo foi percebido que a memorização (de coisas concretas ou abstractas, ideias, palavras, acontecimentos, nomes, etc.) se tornaria facilitada se os elementos constituintes pudessem ser:
- associados a lugares (ambientes em geral, regiões, etc.) -, mas também a eventos (festas, reuniões, períodos históricos, etc.);
- dispostos de forma ordenada segundo algum critério (maior vs. menor, cores, à esquerda, à direita, longe vs. perto, etc.);
- acentuados por alguma característica distintiva (ou mesmo extravagante); e/ou, quando em conjunto e; finalmente,
- organizados em forma de narrativa – uma pequena história (fictícia ou não) na qual todos os elementos (cenário, personagens, etc.) estivessem logicamente vinculados.
Nesses termos, as pessoas com boa capacidade de memória são aquelas que frente às necessidades (fazer uma apresentação, proferir um discurso, prestar um exame, participar de um debate, etc.) conseguem estabelecer as associações convenientes (e eficazes) à luz do contexto e dos quadros de referências pessoais. Alguns exemplos podem auxiliar para o melhor entendimento:
- para a maioria das pessoas o baralho é a peça fundamental de inúmeros jogos e actividades de entretenimento, mas há quem o tenha como peça útil à memorização. Pela sua constituição ele favorece o estabelecimento de muitas associações, por exemplo, com o tempo, com o calendário: as duas cores básicas podem significar a alternância entre o dia vs. noite; a quantidade de cartas (52) associada ao número de semanas do ano; as estações representadas pelos 4 (quatro) naipes, e até mesmo os coringas têm utilidade específica para representar aos anos bissextos. Uma vez estabelecido o código de correspondência associativa ele terá múltiplos usos para constituir uma cadeia de significados: de um ambiente caracterizado pelas flores colhidas num dia na Primavera a uma noite de temporal no Verão. O mesmo símbolo (palavra) pode estar associado a várias ideias, assim: Primavera, flores, odores, semeadura, colheita, variação climática, beleza, etc. podem conviver no mesmo campo semântico;
- ter na memória as imagens correspondentes às estações da Via Sacra, assim como dos inúmeros dípticos e trípticos que habitualmente as acompanham, facilita a organização e a ordenação dos eventos ao narrador e mesmo, se for a intenção, catequizar determinado público-alvo; por fim,
- jogadores de xadrez terão maior facilidade na criação de narrativas dando vida e voz às peças (rei, rainha, peão, bispo e torre) como personagens de acordo com o papel e a relevância desempenhada na ficção ad hoc, associando, se algum exotismo por acaso existir, ao “cavalo”, peça conhecida pelo seu movimento diferenciado, ao invés de rectilíneo como as demais, em formato de “L”.
Ainda:
Matteo Ricci, missionário italiano na China do século XVI […] papel fundamental em apresentar aos chineses o cristianismo e a ciência ocidental […] O chinês é uma língua difícil. Não existe um alfabeto, mas cerca de 50 mil ideogramas […] teve que memorizá-los […] desenvolveu, então, um artifício. Construiu um palácio da memória – uma imagem mental que compreendia uma série de construções, na qual cada palavra era representada por uma determinada imagem, num lugar específico. O símbolo para “guerra”, por exemplo, eram dois guerreiros em combate, no canto sudeste de um saguão de recepção. No canto nordeste ficava o símbolo para “lucro” – um lavrador com uma foice, prestes a colher a plantação [30].
Por certo que para recorrer à estratégia associativa, além das habilidades (capacidade de abstracção, imaginação, flexibilidade, criatividade, etc.) para estabelecer as conexões, antes se faz necessário acumular repertórios de conhecimentos necessários à construção dos quadros de referência, vistos então como efectivas plataformas de lançamento.
Mentes habilidosas, mas sobretudo treinadas, são capazes de enquanto percorrem um ambiente memorizar os conteúdos, mesmo detalhes imperceptíveis aos demais, bem como após a apresentação a numerosas pessoas, de recordar os nomes e algumas das suas características (cor do cabelo, vestuário, adornos, etc.). Ao longo do caminho ou das narrativas distribuem gatilhos que acessam na memória os factos pertinentes aos objectivos. Já alguns recorreram (e ainda recorrem) à arte da memória para outras finalidades, tendo concebido e deixado legados repletos de mensagens (a partir da arquitectura, do mobiliário, das cores, dos utensílios, das disposições, etc.) que somente aos Iniciados é dado apreender os significados; entre outros, vide, por exemplo, Fulcanelli [31] e Abrahão [32], onde este refere às catedrais góticas como “livros de pedra” cuja leitura, sabe-se, requer alfabetização específica. Assim, há sinais de que desde há tempos a memória e o oculto andam juntos, circunstância também desde há muito explorada pela Maçonaria.
F. Yates, tendo começado pelos gregos e romanos (dentre os quais se destaca o papel de C. T. Cícero), passa em revista histórica a contribuição de numerosos autores (Sto. Agostinho, Tomás de Aquino, Giulio Camillo Delminio, Ramon Llull, Giordano Bruno e tantos outros) que ampliaram e refinaram as estratégias para o armazenamento e a recuperação de informações contidas na memória. Em meio a tantos, a memória ganha novas denominações, interpretações e abordagens: ela é natural e intrínseca a todos seres (inclusive aos animais) ou artificial, isto é, uma arte – actividade a ser desenvolvida e aprimorada? Ela é um atributo individual ou, em parte, apresenta características típicas dos colectivos? Haveria uma memória cósmica? As respostas variam e não pode ser dito que em relação a todos os aspectos são mutuamente exclusivas. Impossível, à época, como fez Platão, e até hoje não adentrar no estudo da memória sem conjecturar as suas relações com a mente, a alma e o espírito, tramando e urdindo o físico e o metafísico, a mitologia, as lendas e as crenças em geral e, o que aos poucos veio se organizando como corpo científico.
Um lugar ímpar coube ao legado de Giulio Camillo: “Em toda a Itália e a França falava-se do seu Teatro […] Mas o que era exactamente? Um teatro de madeira, coberto de imagens, como Camillo o apresentou, pessoalmente, em Veneza […] [33]. E dele, Viglius Zuichemus (apud Yates [34]) afirmou para Erasmo:
Dizem que esse homem construiu um certo anfiteatro, uma obra de habilidade maravilhosa; lá qualquer um que vá como espectador será capaz de discursar sobre qualquer tema, com a fluência de Cícero […] Certas ordenações ou categorias de figuras são dispostas […] com minuciosidade e habilidades divinas.
Para o leitor melhor entender a alusão ao “espectador” é esclarecido que
[…] o Teatro de Camillo inverte a função normal do teatro: não há público sentado nos lugares assistindo a uma peça no palco. O “espectador” solitário do Teatro fica no lugar onde deveria estar o palco e olha em direcção ao auditorium, contemplando as imagens nos portões – sete multiplicado por sete – dispostas nos sete graus ascendentes [35].
Para maior compreensão e detalhes a partir de uma leitura amplamente ilustrada sobre “o teatro”, vide Almeida [36].
E em La Rocca [37] pode ser lido que R. Fludd, estudioso que sucedeu G. Camillo, deu um passo à frente no reconhecimento das características universais e sistémicas do processo então em desenvolvimento, daí a denominação – Teatro Sistema da Memória:
[…] o Teatro – que é na verdade para Fludd um palco, representa o próprio “espaço-lugar da memória” de armazenagem de conteúdos. Ainda, esse teatro-sistema de Fludd constitui uma estrutura universal de armazenagem de conteúdos inscritos como códigos: não existe um teatro específico, o sistema-teatro de Fludd é um modelo universal;
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[…] o espaço é sem dúvida o princípio de organização do “Teatro Sistema da Memória”, um verdadeiro sistema-organização […] o palco do “Teatro Sistema da Memória” de Fludd se apresenta como o lócus concebido sistema que organiza, numa rede de inter-relações e interconexões não lineares, a combinação de conteúdos, a partir de signos e significados a eles relacionados-incorporados de uma tradição mágico-hermético-cabalista renascentista.
Ou seja, o “teatro” é um espaço esquadrinhado com latitudes e longitudes – coordenadas – por entre as quais o espectador (lato sensu) distribui à sua ordem mental os pontos de referência (imagens, objectos em geral, palavras, sinais, etc.) que, reunidos e associados, possibilitam construir uma narrativa, tanto para o presente, quando ele (o espectador, o palestrante, etc.) colhe as vantagens da memorização facilitada, quanto para a posteridade, quando ele (um arquitecto, um pintor, um desenhista) deixa então sinais para serem apreendidos pelos que compartilharem do mesmo repertório de signos.
De acordo com Stevenson [38]: “[…] a Loja maçónica do século XVII talvez fosse, em certo sentido, um templo da memória, um edifício imaginário com lugares e imagens nele colocados como estímulos para memorizar os segredos da Palavra do Maçom e os rituais de iniciação”. Nesses termos, entre tantos Quadros, Painéis e Tapetes, a imagem da Figura 1, tão frequente nos textos maçónicos, adquire, então, uma nova perspectiva durante e após a cerimónia de Iniciação:
Ora, ao invés de estar situado no palco de um teatro olhando para a plateia, imagine-se frente à uma catedral, ou adentrando a um templo … eventualmente, o Templo de Salomão, uma Loja Maçónica. Em Anderson [41] pode ser lido:
Quando estava tentando lembrar algo, o praticante caminharia mentalmente pelo prédio. Quando ele chegasse, por exemplo, a uma certa estátua, ele lembrar-se-ia da imagem que ele lhe tinha associado, por exemplo, uma espada e um escudo, e isso lembraria o que desejava lembrar, que o próximo ponto do seu discurso envolvia guerra. Idealmente, as imagens deveriam ser impressionantes e memoráveis […] O elemento-chave deste sistema é o uso de imagens mentais em configurações ordenadas, muitas vezes arquitectónicas, e tornou-se a base para desenvolvimentos posteriores.
Esse é, pois, o nexo standard, aceito como default, encontrado e explorado quase que na totalidade da literatura: os Templos (Lojas) seriam então, como disse Abrahão [42], Livros de Pedra repletos de mensagens, algumas, talvez muitas, deixadas à posteridade, … ocultas? E considerando que a Maçonaria, enquanto construção social é um corpo multifacetado e dinâmico em meio ao qual se mesclam, sem que se possa claramente distinguir as idiossincrasias dos “pais fundadores”, nem entre os Operativos e menos ainda entre os Especulativos, não é possível descartar o nexo enquanto possibilidade que, antes e além de tudo, é lógica, até imediata. Contudo, essa, conforme adiante será visto, não se confunde, na íntegra, com a “hipótese Yates”.
Embora o marco de referência histórica para o surgimento da Maçonaria Especulativa seja o evento de 1717, não pode ser perdido de vista,
- em primeiro lugar, o que diz Guerra [43]: “a distinção entre operativos e especulativos nunca poderá ser absoluta por dois factores: o primeiro, que as Antigas Obrigações contêm parte de natureza especulativa na forma de uma espécie de lenda alegórica do Ofício […]”. À lenda alegórica, própria de cada ofício, acrescente-se as preces rogativas e de agradecimento, assim como a prática de oferendas, quando não de sacrifícios, usos e costumes que de tão difundidos no quotidiano da Antiguidade ao Medievo, permeavam também as Lojas. E para ter mais claro o que se refere, é importante distinguir as reuniões dos maçons (operativos) enquanto profissionais dedicados aos projectos de construção (A), das reuniões desses mesmos profissionais, porém fora do ambiente (ou tempo) de trabalho, nos momentos de lazer e por vezes extensivas aos familiares – para festejos, confraternização com outras corporações, união de laços familiares, etc. – (B). Enquanto nas primeiras (A) se ocupavam dos assuntos eminentemente profissionais, nas segundas estes mesmos assuntos (ferramentas, propósitos, estratégias) constituíam as referências naturais às actividades especulativas que nelas (B) se desenvolviam. Infelizmente, essa diferenciação (natural, inclusive porque sempre e até hoje presente nos grupamentos) nem sempre é clara na historiografia oficial, mas torna-se mais patente na literatura, como é o caso do já citado Abrahão [44], e também pode ser vista em O Físico, romance-histórico de N. Gordon [45] ambientado na Inglaterra do séc. XI e que tem por base os usos e os costumes de uma Corporação Ofício, a dos Carpinteiros. Por oportuno, um esclarecimento: é na literatura, como é o caso de Gordon e Abrahão, que podem ser encontradas as páginas que entrelaçam a descontracção do quotidiano (vida familiar-comunitária-profissional) com o rigor e o formalismo da historiografia oficial (produto académico) que então, mutuamente, podem ser confirmados, complementados ou mesmo contrapostos, daí a tipificação como “literatura (romance) realista” ainda que por vezes com notas ficcionais, seja no contexto maçónico ou não. E nada melhor do que alguns exemplos, e dentre os mais conhecidos: as “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar; “O Vermelho e o Negro, de Stendhal”; “O Leopardo”, de Giuseppe T. di Lampedusa; “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende; junto aos quais poderiam ser alinhados inúmeros títulos de F. Dostoiévsky, L. Tolstói, Machado de Assis, entre tantos outros; e,
- em segundo, que desde há muito os Aceitos vinham, pouco a pouco, introduzindo mudanças no dia a dia das Lojas Operativas, assim, o evento de 1717, ao dar institucionalidade à nova era, catalisou um processo que, a depender da fonte, desde o Renascimento já estava em curso.
Estão, pois, estabelecidas as considerações iniciais que permitem fazer um debate mais aprofundado acerca de uma das questões já levantadas: a “hipótese Yates” da existência de uma lacuna explicativa da passagem da fase Operativa à Especulativa. Para maior facilidade do entendimento, pela via da aproximação, ora são resgatadas duas dentre as citações anteriores: a primeira, de Yates [46]; a segunda, de Cooper [47], bem como, agora e sobre as quais são destacados alguns trechos:
Penso que a resposta para esse problema [a passagem da maçonaria operativa à especulativa] possa vir da história da arte da memória. A memória oculta do Renascimento […] pode ser a verdadeira fonte de um movimento hermético e místico que não utilizava a arquitectura real da maçonaria “operativa” como veículo dos seus ensinamentos, mas sim a arquitectura imaginária ou “especulativa” da arte da memória. Um exame minucioso do simbolismo das irmandades rosa-cruz e da franco-maçonaria podem, talvez, confirmar esta hipótese;
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Não só o Templo de Salomão era a mais velha construção em pedra da Bíblia, e, portanto, era edificado pelos predecessores no ofício dos pedreiros; a arte hermética da memória oferecia um meio pelo qual poderiam buscar melhorar as suas habilidades mentais e as suas vidas morais e espirituais. Este meio ligava a arte da memória com a sabedoria particular dos pedreiros e os fazia especiais e únicos num aspecto compartilhado por nenhum outro ofício ou negócio. Uma vez que o ritual e todas as palavras associadas e os signos do conhecimento esotérico eram dessa maneira enviados à memória e, então, passados para cada geração seguinte dessa mesma maneira, as partes do cerimonial se tornaram fixas, assim como a sua relativa importância de uma geração para a outra. O construto do Templo do Rei Salomão tornou-se absolutamente central para tudo que a Loja fazia, e isso, eu sugiro, fica claro a partir do seu lugar nos rituais iniciais.
Muito embora 1717 seja um marco para a Maçonaria, assim como 1789 o é para a Revolução Francesa, enquanto processo histórico a passagem da Fase Operativa à Especulativa foi gradual, tendo antecedido em mais de um século o surgimento da Grande Loja da Inglaterra. Ademais, a Lenda de Hiram e com ela o substrato arquitectónico do imaginário simbólico da Maçonaria surgida na Era Moderna, denominada Especulativa – o Templo de Salomão -, só foram introduzidos a partir dos anos 20 do séc. XVIII; até então, e ainda por durante muito tempo as confrarias (por falta de recursos, lideranças, etc.) se reuniriam em tabernas, clubes, igrejas ou qualquer outro espaço, como é o caso das Lojas itinerantes que até hoje reúnem militares em trânsito. Exemplo de antecedência sempre mencionado é o da Loja Mary´s Chapel (também citada como Loja de Edinburgh), reconhecida, na versão escocesa, como a Loja mais antiga (Adrião [48]; Coil [49]).
Assim, considerando que os Templos que actualmente se confundem com as próprias Lojas [50] foram inovações introduzidas somente a partir do último quarto do século, mais precisamente em 1776 (Castellani [51]), é provável que a actividade especulativa referida por Yates – cujo foco de estudo é Renascença – não guarde relação directa com os desenvolvimentos e as introduções pós1717, como é o caso da Lenda do Terceiro Grau combinada à arquitectura do Templo, mas antes à sua percepção de que os Templos se revelavam como um espaço ideal (à semelhança de um teatro) para o exercício e o desenvolvimento da arte da memória. Lembrando que o Renascimento se estendeu até o séc. XVII, período de registro dos primeiros Aceitos, Yates inferiu que a arte da memória estaria muito mais próxima das actividades típicas da Fase Especulativa, alavancada pelos Aceitos, do que das actividades dos maçons operativos. E em razão dessa afinidade, que também se revela extremamente útil à nova práxis, a própria arte da memória teria contribuído para a consolidação da passagem Operativa-Especulativa.
Como existem muitas lacunas nos estudos relativos à introdução da Lenda e do Templo no corpus maçónico, notadamente no que tange ao planeamento e à intencionalidade estratégia, e à luz dos factos e da cronologia acima, cujo desconhecimento por Cooper não é razoável admitir, a fala do autor só pode ser entendida em sentido mais amplo, talvez devida à larga tradição judaico-cristã em meio a qual a realidade e a ficção se misturam e mesmo confundem na forma de lendas, mitos e símbolos que desde há séculos permeavam as reuniões tipo “A” e “B”. Segundo esse entendimento, a importância que Cooper atribui ao Templo peca pelo anacronismo.
Para o melhor entendimento da “hipótese Yates” é preciso lembrar que ao lado da racionalidade e da objectividade científica, que por constituírem a própria génese da Modernidade [52] são sempre citadas, ocorreu, também nos séculos XV/XVI, um segundo Renascimento, o qual, por analogia ora se denomina Renascimento Místico – um dos componentes do humanismo que também identifica o período. Embora sejam fenómenos paralelos, quando citados, por opção (foco temático, estratégia ou crenças) do autor, em geral um tende a ofuscar o outro, e na maioria das vezes o destaque é conferido ao racionalismo que viria a atingir o ápice durante o Iluminismo. Ademais, chama a atenção que entre os estudiosos brasileiros esse assunto (a simultaneidade dos “Renascimentos”), de regra, seja deixado à margem, sobretudo pelos Iniciados comprometidos com o Iluminismo quando delineiam o contexto histórico da passagem da Fase Operativa à Especulativa, o que se constituiu em motivação adicional para a elaboração deste ensaio com notas ainda preliminares. Já a literatura internacional, conforme aos poucos se dará a conhecer, é mais rica; Stevenson [53], por exemplo, um não-Iniciado, é um dos que além de trabalhar com a “hipótese Yates” reconhece a importância do renascimento místico. Também Yates [54], pedra angular deste estudo no que tange à ars memoriae, reconheceu a densidade do pensamento místico na Maçonaria, o que se depreende a partir da sua pergunta e resposta:
Onde mais existe igual combinação de tolerância religiosa, vinculada emocionalmente ao passado medieval, com uma ênfase nas boas obras, além de um imaginativo apego à religião e ao simbolismo egípcio? A mim ocorre uma única resposta: na maçonaria, herdeira da ligação mítica com os maçons medievais e com a sua tolerância, a sua filosofia e o seu simbolismo egípcio.
O renascimento do pensamento místico (mágico) e nas crenças em geral deu-se, sobretudo, a partir da tradução, realizada por M. Ficino (séc. XV), das obras de Hermes (Mercúrio) Trismegisto [55]. Yates [56] (1990, p. 37-8) esclarece os motivos:
Ficino, no seu comentário sobre o tratado, mostra-se imensamente impressionado pelas notáveis semelhanças entre este livro e o Génese […] Ele viu a criação surgir graças à Palavra Divina e o homem ser criado segundo imagem de Deus e, depois, a sua queda da esfera inteligível para o corpo […] Depois, ele nos instrui sobre como podemos novamente nos elevar para aquela natureza inteligível e imortal de onde degeneramos […] o que impressionou Ficino foi, acima de tudo, aquilo que lhe pareceu semelhante a Moisés na sua obra.
G. Pico della Mirandola (1463-1494), J. Boehme (1575-1624) e. Swedenborg (1688-1772), entre tantos outros serão sensibilizados por essas ideias que, por sua vez, terão grande influência e ascendência intelectual sobre os ideólogos dos mais diferentes Ritos e Rituais que povoarão a Maçonaria em transformação e expansão – como visto, de Operativa à Especulativa, da Ilha para o Continente e deste para Além Mares, onde estes últimos não são apenas referências geográficas, mas antes imagens das dimensões da emergência de um novo actor com relevante actuação nos domínios políticos, sociais e religiosos.
G. Galilei, J. Kepler e I. Newton, apenas para citar aqueles que são notoriamente reconhecidos como “homens de ciência”, eram também homens presos aos dogmas das Escrituras, religiosos, portanto, também “homens de fé”; entre tantos, Gleiser [57] sublinha:
Mas, para Kepler, o Sol era muito mais do que isso: ele era o trono de Deus, o Seu poder permeando o sistema solar. O sistema de Kepler não era apenas heliocêntrico; ele era também teocêntrico. Como notou Holton, o Sol tinha três papéis complementares no Universo de Kepler: o de centro matemático das órbitas planetárias, o de centro físico, garantindo a continuidade dos movimentos orbitais, e o de centro metafísico, o templo da Divindade;
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As acções de Galileu tornaram a igreja que ele tanto desejava servir numa inimiga, contra as suas ideias e contra os seus discípulos;
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Newton via o Universo como manifestação do poder infinito de Deus. Não é exagero dizer que sua vida foi uma longa busca de Deus, uma longa busca de uma comunhão com a Inteligência divina, que Newton acreditava dotar o Universo com a sua beleza e ordem; e,
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[…] vou abraçar a verdadeira religião de Cristo com toda a minha alma […] e irei ou fazer da teologia o meu objecto principal de estudo, tornando-me membro do clero quando o tempo prescrito por esses estatutos chegar, ou renunciar a minha posição no College.
Como se nota, aqueles que hoje são reconhecidos como “gigantes da ciência”, os arquitectos da Modernidade Científica, também foram místicos e praticantes das chamadas “ciências ocultas” (a exemplo da alquimia e da astrologia), como de sorte o foram vários integrantes da The Royal Society (à época o mais significativo Templo da Ciência), o que lhes trouxe não só angústias pessoais, familiares e profissionais, como também efectivos dilemas na medida em que o avanço das suas investigações deixava à evidência as lacunas, as inconsistências ou quiçá as incorrecções nas Escrituras (Gleiser [58]; Fanning [59]).
A proximidade entre esses dois grandes domínios – a ciência e o ocultismo [60] -, assim como os laços com a maçonaria podem ser vistos a partir da seguinte observação de Prinke61:
Sir Robert Moray (1609-1673, iniciado em 1641) e Elias Ashmole (1617-1692, iniciado em 1646), também foram os membros fundadores da Royal Society em 1661, e o primeiro foi seu primeiro presidente. Ao mesmo tempo, ambos eram, assim como alguns outros membros iniciais, muito interessados em alquimia, astrologia e hermetismo renascentista.
Hanegraaff (apud Derosa [61]) ratifica: “ […] divorciada do catolicismo devido ao seu espírito revolucionário, a ciência moderna foi construída sob bases esotéricas e místicas, como mostra a história pessoal de nomes como Isaac Newton, René Descartes, Francis Bacon e outros”. Em que pese a afirmação de Lima [62] de que “Isaac Newton [foi] provavelmente Maçom” não encontrar suporte em outras fontes, não há dúvidas quanto ao seu profundo envolvimento com as ciências herméticas, em especial a alquimia, por mais de 30 anos, bem como do seu relacionamento, na Royal Society, com inúmeros maçons e ocultistas (Fanning [63]).
Mas mais do que a proximidade, o que se constata é a efectiva superposição por força do Zeitgeist (espírito do tempo) que, se se manifesta em diferentes níveis, também mantém relações cruzadas: de visões de mundo, paradigmas, instituições e indivíduos. Tome-se, mais uma vez, o caso de um dos primeiros maçons especulativos documentalmente reconhecidos:
Elias Ashmole (1617-92) reverenciava John Dee, cujos escritos coleccionava e cujos ensino alquímicos e mágicos buscara pôr em prática […] Em 1652, Ashmole publicou o Theatrum Chemicum Britannicum […] simpático ao rosacrucianismo […] Ashmole aspirava a ressuscitar de uma forma nova a alquimia matemático-cabalista de Dee (Fanning [64]).
Portanto, é preciso observar que ao contrário do que muitos crêem, que não havia um movimento exclusivo e hegemónico (o curso inexorável da ciência), mas pelo menos dois e em permanente tensão que, embora da mesma raiz – a curiosidade e a dúvida que levaram à filosofia, à indagação das causas primeiras (ou últimas conforme o ponto de partida) – aos poucos foram mutuamente distanciando-se a ponto mesmo de em determinados campos e momentos serem observadas animosidades, ora veladas, ora mais explícitas. E ainda: se havia dois polos (ciência vs. crenças), um deles, à época maioritariamente representado pelo cristianismo católico, estava sob severo ataque e já apresentava fracturas – movimento conhecido como Reforma – que viriam a multiplicar as formas de interpretar as Escrituras.
Estão pois, criadas as condições para melhor verificar a “hipótese Yates”, que captura todas as mudanças em andamento: (1) o duplo Renascimento que, por sua vez leva (2) à ampliação e em certa medida o redireccionamento dos estudos e práticas mnemónicas; (3) à transformação da Maçonaria de Operativa à crescentemente Especulativa; bem como (4) os influxos que esta recebe a partir do resgate do hermetismo e a alavanca proporcionada pelo (res)surgimento da Sociedade Rosa-Cruz – séc. XVII. A sequência de algumas citações de Anderson [65] e Prinke [66] pavimentam o caminho no sentido aos objectivos:
I) Anderson:
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[…] a Maçonaria está ligada ao Rosicrucianismo. Este link tornar-se-á importante, ao considerarmos a arte da memória […] A Arte da memória, ou ars memorativa, era uma técnica específica para memorizar coisas, bem conhecida na época em que Schaw estava escrevendo, que tinha as suas origens nos tempos Clássicos. Originalmente, a intenção da arte da memória era aumentar grandemente a capacidade natural da memória humana […] Nos tempos medievais e renascentes tardios, a arte da memória gradualmente tornou-se altamente simbólica. Os neoplatonistas e hermetistas gradualmente a adaptaram para desenvolvê-la numa forma especial de conhecimento, uma maneira especial de se relacionar com o universo;
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Nos tempos medievais e renascentistas, juntamente com as configurações arquitectónicas usadas na arte clássica da memória, os praticantes faziam uso de todo o cosmo ptolemaico de esferas concêntricas como cenário para as suas imagens de memória. Hermetistas do Renascimento levaram isto um passo adiante. Eles argumentavam que, se a memória humana podia ser reorganizada à imagem do universo, ela tornou-se um reflexo de todo o reino das Ideias platónicas e, portanto, a chave para o conhecimento universal. O microcosmo da memória reflectiria o macrocosmo do universo. As imagens colocadas num edifício não precisam ser usadas para associar e lembrar ideias externas arbitrárias. As próprias imagens podem ser usadas para lembrar o observador de certas ideias. A ênfase muda de expansão da memória para a busca de uma linguagem universal de símbolos. O templo da memória pode se tornar não apenas um método para lembrar discursos, mas uma ferramenta para ensinar.
Ressaltam, nas citações acima, dois dentre os Sete Princípios Herméticos: 1) “O Princípio do Mentalismo – o todo é mente; o Universo é mental”; e, 2) “O Princípio da Correspondência – assim como no alto, embaixo; assim como embaixo, no alto” (Três Iniciados [67]). Em síntese, o renascimento neoplatónico-hermetista (re)colocou no centro do palco dos debates a questão da unidade entre o homem (a matéria – o micro) e o cosmos (o espiritual – o macro), bem como a existência de um liame entre os polos e, por conseguinte, um meio (um canal) e uma linguagem para a comunicação entre esses planos. O conjunto, assim constituído, compunha o plano divino, e desvelar este plano, inscrito na natureza, é um dos objectivos fundamentais do homem com o auxílio dos magos que desvelam os segredos, abrem os portais e operam através de talismãs. Em meio a tanto, uma dificuldade: a linguagem divina é simbólica, sendo as palavras insuficientes para revelar os seus planos.
Decorre das colocações de Anderson, a admissão de que a fase Especulativa, ao contrário do senso comum, se não antecedeu, concorreu com fase Operativa. Segundo esse pensamento, os templos foram construções inspiradas no entendimento (à época) existente acerca da ordem cósmica, as edificações correspondiam, antes, a imagens especulares e especulativas com o intuito de explicar e dar um sentido às questões fundamentais que acompanham os homens desde a pré-História: de onde eu vim, para aonde vou e por que estou aqui? Origens, fins e razão de ser da humanidade. Envoltos por esse macroambiente e por vezes favorecidos (quiçá mesmo estimulados) pelo microambiente (os templos) os pedreiros, pela via da fé, ressignificavam os seus instrumentos de trabalho.
A actividade especulativa no seio da Maçonaria não surge, pois, por acaso, aqui e acolá, sem antecedentes e motivações. Esta “nova” linha de pensamento, além de conferir continuidade histórica ao preencher a lacuna observada por Yates, não necessariamente colide com a interpretação clássica, standard, pois pode com ela conviver, eis que a arquitectura (lato sensu) continua como um instrumento ímpar a serviço das mnemotécnicas. Ademais, ao invés de recorrer e acumular interpretações isoladas, quando inverte o sentido histórico, que passa da actividade especulativa à operativa, mas que não impede que desta se promova acréscimos (novas configurações e usos) àquela, abandona as representações particulares e passa a admitir a existência de um quadro sistémico mais amplo passível de acesso pela memória e, por extensão, de um conhecimento universal e perene. Nesses termos o autor (Anderson) conclui:
Cada Loja é, de facto, um Templo da Memória, projectado para provocar efeitos específicos através da lembrança das suas imagens e símbolos, e os nossos movimentos físicos à medida que avançamos através da loja. Cada grau enfatiza um aspecto deste Templo. A palestra do grau de Aprendiz lembra-nos o nosso lugar no esquema cósmico das coisas, o macrocosmo. O grau de Companheiro traz-nos de volta à terra, enquanto nos movemos através do mundo material. O grau de Mestre Maçom traz a espiral ainda mais para dentro, para dentro de nós, para o microcosmo da psique humana. Assim, a arte da memória continua a ser uma parte essencial da iniciação maçónica. O método da iniciação maçónica é ensinar-nos a construir, e a viver, um templo da memória, um templo repleto de símbolos que nos lembrem daquele edifício espiritual, daquela casa não feita com as mãos, eterna nos céus.
II) Prinke analisa um período posterior e admite mesmo que pode ter havido um retrocesso no desenvolvimento da própria Maçonaria. Se antes, na Fase Operativa as actividades especulativas eram largamente praticadas a partir de larga base de conhecimentos e com o lastro da memória, a emergência e consolidação da Fase Especulativa, em certa medida, promoveram e mecanização das actividades:
As ferramentas dos pedreiros se tornaram idealizadas e os seus significados foram explicados de maneira verdadeiramente neoplatónica, muito parecida com a arte hermética da memória. As palestras dadas aos candidatos nas cerimónias de iniciação do século XVIII seguiam uma sequência de símbolos exibidos num tapete pintado ou prancha de traçar. Curiosamente, o termo latino tractare, da qual deriva a palavra inglesa “traçar”, era usado no escolástico medieval ars memoriae para denotar “colecta” de objectos de memória em locais de memória. Também se pode dizer que a arquitectura e mobiliário de uma Loja Maçónica Moderna servem como um edifício de memória ou teatro de memória, onde objectos são trazidos em pranchas de traçar para facilitar a visualização dos iniciados e explorar o mundo ideal por trás dos símbolos;
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Tal abordagem do significado e ritual de maçonaria, com as suas raízes na magia hermética neoplatónica e técnicas de visualização cabalística, ainda pode ter sido praticada no século XVII na Inglaterra, quando o auge da Revolução Cientí