Entropia Maçónica: quando a forma permanece e o significado desaparece

“A maior ameaça à Maçonaria talvez não seja o desaparecimento das suas Lojas, mas a possibilidade de elas continuarem funcionando depois de perderem aquilo que justificava a sua existência.”
Templos podem permanecer abertos. Sessões podem ocorrer regularmente. Novos membros podem ser iniciados, Aprendizes elevados, Mestres exaltados. Cargos continuam sendo ocupados, actas redigidas, ágapes realizados. Externamente, tudo funciona.
Mas isso não significa necessariamente que aquilo que deveria ser transmitido esteja sendo transmitido e, é a esse fenómeno que proponho chamar de Entropia Maçónica: a conservação progressiva da forma acompanhada pela dissipação do significado.
A instituição pode sobreviver à própria finalidade
Quando pensamos no declínio de uma instituição, normalmente imaginamos redução de membros, dificuldades financeiras, fechamento de unidades ou desaparecimento completo.
Talvez este não seja o maior risco para uma instituição iniciática.
Existe uma forma mais silenciosa de decadência: a organização permanece funcionando, mas gradualmente deixa de cumprir a função que justificava a sua existência e na Maçonaria — como em todas tradições iniciáticas —,isso acontece quando o ritual deixa de ser instrumento de compreensão e passa a ser apenas repetição; quando os graus deixam de representar etapas de formação e passam a decorrer principalmente do transcurso do tempo; quando a instrução se torna episódica; quando cargos assumem importância superior ao conhecimento; e quando a convivência social começa a ocupar o espaço antes reservado ao trabalho iniciático.
Nada disso exige o fechamento de uma única Loja ou uma única Tradição Hermética, ao contrário: uma Loja pode estar cheia e sofrer profundamente esse processo.
Quando o ritual se transforma em rotina
A repetição faz parte do método maçónico. Portanto, repetir o ritual não constitui, por si, qualquer problema, o problema começa quando já não se sabe por que se repete, pois existe uma diferença fundamental entre ritual e rotina.
O ritual repete uma forma para preservar e transmitir um significado. A rotina preserva a forma porque ela sempre foi executada daquela maneira, quando essa diferença desaparece, inicia-se uma sequência perigosa:
- rito → hábito → rotina → formalidade → vazio.
As palavras permanecem. Os gestos permanecem. Os símbolos permanecem, mas, o significado, entretanto, começa a dissipar-se e, acaba sendo possível então executar correctamente uma cerimónia sem compreender aquilo que ela pretende produzir no iniciado. A liturgia sobrevive à sua interpretação.
O grau deixa de representar conhecimento
Talvez um dos sinais mais importantes dessa entropia seja a dissociação entre grau e formação.
Aprendiz, Companheiro e Mestre não deveriam constituir apenas posições sucessivas dentro de uma estrutura administrativa pois representam estágios distintos de uma caminhada.
Quando a passagem entre eles decorre predominantemente do calendário, produz-se uma aparência de progressão sem necessariamente haver progressão intelectual ou iniciática correspondente.
O Aprendiz não precisa mais demonstrar que se tornou Aprendiz. Basta que tenha transcorrido o período necessário para tornar-se Companheiro e, o mesmo processo o conduz ao grau seguinte.
O problema não termina nele, pois, esse Mestre — ou Magister, tratando-se de tradição hermética — poderá futuramente e provavelmente vai, ocupar funções de instrução e transmitir aos novos membros aquilo que recebeu. Se recebeu pouco, transmitirá pouco.
Forma-se então um mecanismo cumulativo:
- transmissão incompleta → formação incompleta → novo transmissor incompleto → nova perda de conteúdo.
A entropia torna-se geracional.
E aqui reside uma característica particularmente grave do fenómeno: depois de determinado tempo, já não se percebe facilmente aquilo que foi perdido.
Quando qualquer reflexão passa a ser instrução maçónica
A experiência pessoal possui enorme valor na construção do homem. Uma peça maçónica pode perfeitamente partir da morte, da família, do trabalho, do fracasso, do medo ou de qualquer outra experiência humana.
Mas a experiência deveria ser o ponto de partida, não necessariamente o ponto de chegada.
Para que exista propriamente reflexão maçónica, parece-me necessária alguma operação semelhante a esta:
- experiência → símbolo → tradição/ritual → interpretação → transformação.
Quando existe apenas: experiência → opinião pessoal, podemos estar diante de um excelente testemunho humano, mas não necessariamente de instrução maçónica, sendo que o problema institucional aparece quando perdemos a capacidade de distinguir uma coisa da outra.
Se qualquer texto apresentado recebe invariavelmente os mesmos elogios, se não existem critérios intelectuais mínimos, se correcção fraterna passa a ser confundida com desrespeito, e se exigir estudo passa a ser visto como elitismo, a instituição começa a perder os seus mecanismos internos de controle de qualidade.
E uma tradição incapaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que apenas acontece dentro dos seus templos começa, lentamente, a esquecer a sua própria identidade.
Quando o ágape passa a justificar o Templo
Não existe qualquer incompatibilidade entre Maçonaria e sociabilidade. A fraternidade, a amizade e o ágape pertencem legitimamente à experiência maçónica.
A inversão ocorre quando aquilo que deveria decorrer da experiência iniciática começa a substituí-la. Quando o principal motivo para frequentar a Loja passa a ser encontrar amigos, conversar, jantar, ocupar cargos ou participar de eventos, surge uma pergunta desconfortável: o que a Maçonaria ainda oferece que um excelente clube de convivência não poderia oferecer?
A resposta deveria estar justamente naquilo que é propriamente maçónico: método, iniciação, simbolismo, ritual, disciplina, estudo e transformação interior. Se retirarmos progressivamente esses elementos, a instituição pode continuar oferecendo fraternidade, mas fraternidade, isoladamente, não necessita de Maçonaria.
A entropia perfeita é quase invisível
Talvez aqui esteja o aspecto mais preocupante dessa hipótese. O iniciado de uma geração recebe determinada quantidade de conhecimento e, anos depois, transmite parte dela, levando a geração seguinte menos do que recebeu, porém, num fenómeno mais deficiente ainda, pois a geração contemporânea não possui parâmetro para perceber a diferença, porque nunca conheceu aquilo que deixou de ser transmitido e, posteriormente, ela própria se torna responsável pela transmissão a próxima geração… e o processo continua.
Ninguém necessariamente decidiu destruir coisa alguma, ninguém aboliu os símbolos, ninguém proibiu os estudos, ninguém extinguiu o ritual, o que ocorreu foi que simplesmente, a cada geração, uma pequena parcela de significado deixou de ser transmitida.
É justamente por isso que emprego a palavra entropia. Não para sugerir uma aplicação literal da termodinâmica à Maçonaria, longe disso, mas como modelo para compreender a tendência de sistemas complexos à desorganização quando não existe trabalho suficiente para conservar a sua estrutura informacional.
Tradições também exigem “energia” para permanecer organizadas e, nas Tradições Iniciáticas, essa energia chama-se estudo, instrução, disciplina, transmissão e trabalho, sendo que sem ela, a degradação não precisa ser decretada, ela simplesmente acontece.
A Maçonaria está morrendo?
Não necessariamente e, talvez essa seja inclusive a pergunta errada, pois, uma instituição pode desaparecer de duas maneiras: pode morrer por extinção, quando desaparecem os seus membros, as suas Lojas e as suas estruturas ou pode morrer por transmutação, quando conserva o nome e a estrutura, mas já não realiza aquilo para o qual foi constituída.
A segunda possibilidade deveria preocupar mais uma instituição iniciática.
Podemos imaginar uma Maçonaria futura com milhares de membros, belos templos, organizações financeiramente saudáveis, sistemas digitais eficientes, eventos concorridos e intensa actividade social, porém, imaginemos que os seus membros conheçam cada vez menos o simbolismo dos seus próprios graus, que o ritual seja apenas decorado, que a progressão seja automática pelo decurso do tempo, que a instrução seja periférica; e que os cargos sejam mais desejados que o conhecimento.
Esta Maçonaria estaria viva? Administrativamente, certamente, iniciaticamente, a resposta seria menos simples e, talvez por isso o verdadeiro sinal de decadência maçónica não seja encontrar um Templo vazio, mas sim encontrar um Templo cheio de homens que já não conseguem explicar por que aquilo que fazem ali precisa da Maçonaria para existir.
Entropia não significa destino
Entretanto, se a entropia é um processo, ela não precisa ser uma sentença, já que a sua própria existência pressupõe uma resposta: se a perda ocorre pela diminuição da transmissão, a reacção não está em criar mais títulos, mais cargos, mais cerimónias ou mais estruturas administrativas, está em aumentar novamente a densidade daquilo que transmitimos.
Menos preocupação em fazer o Aprendiz avançar rapidamente e mais preocupação em fazê-lo compreender profundamente onde está, menos quantidade de trabalhos e maior exigência intelectual sobre aquilo que chamamos de instrução, menos ritual executado mecanicamente e mais ritual compreendido, menos preocupação com a ocupação dos cargos e maior preocupação com a formação daqueles que um dia os ocuparão, e, sobretudo, recuperar uma ideia simples: uma tradição iniciática não é preservada apenas repetindo aquilo que os anteriores fizeram. É preservada compreendendo por que fizeram e tornando-se capaz de transmitir esse significado à geração seguinte.
Talvez a Maçonaria não esteja caminhando para o seu fim, mas toda geração maçónica recebe algo que não criou e que não lhe pertence exclusivamente: recebe uma tradição e a partir desse momento pode enriquecê-la, preservá-la ou dissipá-la. A Entropia Maçónica começa quando continuamos transmitindo perfeitamente a forma e, sem perceber, deixamos de transmitir aquilo que lhe dava sentido.
In silentio, labore et luce
Cristiano Barcellos Borba – A. M. – Loja Perseverança nº 171 – Pelotas – Rio Grande do Sul / Brasil (Rito Schroeder)
