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Editorial: Nunca deixamos de ser aprendizes

✍️ Desconhecido 📅 29/10/2026 👁️ 3 Leituras

cadeia de união, Nunca deixamos de ser aprendizes

Quando evocamos os nossos primeiros passos na Maçonaria, certamente muitos de nós recordamos aquela mistura de curiosidade, entusiasmo e incerteza com que entramos pela primeira vez numa Loja. Tudo era novo: os símbolos, as palavras, os silêncios e uns ensinamentos cujo significado começávamos a descobrir, pouco a pouco, à medida que avançávamos no nosso caminho.

Com o passar dos anos, adquirimos conhecimentos, acumulamos experiências e assumimos novas responsabilidades. Aprendemos com os nossos Irmãos, com os nossos rituais e com tudo o que acontece dentro e fora dos nossos Templos. No entanto, há uma verdade que nunca devemos esquecer: por mais que avancemos na nossa jornada maçónica, nunca deixamos de ser aprendizes.

E talvez este seja um dos ensinamentos mais profundos que a Maçonaria nos oferece.

A nossa Ordem não pretende dar-nos respostas definitivas para todas as perguntas. Pelo contrário, convida-nos a reflectir, a questionar as nossas próprias certezas e a aprofundar o conhecimento de nós próprios. Lembra-nos que há sempre algo que podemos melhorar, um ensinamento que ainda não compreendemos plenamente ou uma perspectiva diferente que merece ser ouvida.

Há muitos anos, escolhi como nome simbólico “Eterno Aprendiz”. Naquela altura, mal podia imaginar até que ponto estas duas palavras viriam a acompanhar-me ao longo do meu percurso maçónico. Hoje, após os anos que se passaram e tantas experiências vividas, continuo convencido de que não poderia ter escolhido outro nome que expressasse melhor a minha forma de entender a Maçonaria.

Porque, quanto mais avançamos no nosso caminho, mais conscientes devemos estar de tudo o que ainda nos resta aprender.

Por vezes, os anos de pertença à Ordem, a experiência acumulada ou as responsabilidades assumidas podem levar-nos a acreditar que conhecemos suficientemente a Maçonaria e os seus ensinamentos. No entanto, basta uma conversa com um Irmão, uma reflexão partilhada durante uma Reunião ou uma interpretação diferente de um símbolo para descobrir novas nuances naquilo que pensávamos compreender perfeitamente.

Ao longo da minha vida maçónica, tive o privilégio de conhecer Irmãos com uma longa trajectória que mantêm intactas a curiosidade e o entusiasmo dos seus primeiros dias. Irmãos que sabem ouvir, que não têm medo de perguntar, que partilham generosamente os seus conhecimentos sem pretender impô-los e que mantêm viva a vontade de continuar a aprender.

Essa atitude constitui, a meu ver, uma das melhores expressões da autêntica maturidade maçónica.

Porque a experiência deveria ensinar-nos a ser mais humildes, nunca a sentirmo-nos superiores aos outros.

Os graus, os cargos e as responsabilidades fazem parte da nossa organização e do nosso percurso iniciático. Cada um tem o seu significado e a sua função, mas nenhum deles nos torna, por si só, melhores maçons nem melhores pessoas. O que é verdadeiramente importante não é o quanto sabemos nem quais as responsabilidades que chegámos a desempenhar, mas sim a forma como somos capazes de transformar aquilo que aprendemos na nossa maneira de pensar, de agir e de nos relacionarmos com os outros.

E para continuarmos a aprender, há uma virtude que considero imprescindível: saber ouvir.

Ouvir o Irmão que há quarenta anos trabalha na sua Loja, mas também aquele que acabou de receber a Luz. Ouvir aqueles que partilham as nossas convicções e, especialmente, aqueles que nos oferecem uma perspectiva diferente. Porque, por vezes, uma pergunta aparentemente simples, formulada a partir do olhar puro e curioso de um Aprendiz, pode convidar-nos a reflectir com maior profundidade do que muitas explicações elaboradas.

As nossas Lojas oferecem-nos, neste sentido, uma oportunidade extraordinária. Nelas convivem Irmãos de diferentes gerações, profissões, culturas, sensibilidades e experiências pessoais. Cada um contribui com a sua própria história, os seus conhecimentos e a sua maneira particular de compreender o mundo.

Esta diversidade, longe de representar uma dificuldade, constitui uma das nossas maiores riquezas. Desde que, naturalmente, saibamos abordá-la com respeito, humildade e uma sincera disposição para o diálogo.

A fraternidade não consiste apenas em partilhar ideais ou em reconhecermo-nos como membros de uma mesma Ordem. Implica também aceitar que podemos aprender uns com os outros, compreender as nossas diferenças e reconhecer o valor das contribuições de cada Irmão, independentemente da sua idade, antiguidade ou grau que detenha.

Neste processo, a humildade ocupa um lugar fundamental. Não como uma simples atitude de modéstia, mas como a capacidade de reconhecer as nossas próprias limitações e aceitar que o nosso conhecimento será sempre incompleto.

Na Maçonaria, ninguém sabe tudo. E talvez uma das maiores qualidades da nossa Ordem resida precisamente no facto de nos oferecer um espaço onde possamos continuar a descobrir, a partilhar e a aprender ao longo de toda a nossa vida.

A pedra em bruto que começámos a trabalhar no dia da nossa iniciação nunca chega a estar completamente acabada. Encontramos sempre alguma aresta que devemos suavizar, alguma imperfeição que corrigir ou algum aspecto de nós próprios que merece uma reflexão mais profunda.

Este trabalho, que constitui uma das expressões essenciais do nosso compromisso iniciático, exige paciência, perseverança e, acima de tudo, honestidade para connosco próprios.

Porque nem sempre é fácil reconhecer os nossos erros, rever as nossas convicções ou aceitar que podemos estar errados. No entanto, é precisamente nesse exercício de autocrítica que encontramos algumas das oportunidades mais valiosas para o nosso crescimento pessoal e maçónico.

Por tudo isto, creio que nunca devemos permitir que o passar dos anos apague aquela curiosidade que nos acompanhou nos nossos primeiros passos. Nem que o hábito substitua a reflexão, nem que a experiência nos faça perder a capacidade de nos surpreendermos perante um ensinamento que pensávamos conhecer.

A Maçonaria tem muito para nos oferecer, mas também exige de nós uma atitude activa e empenhada: a vontade de continuar a aprender, a generosidade de partilhar o que sabemos e a responsabilidade de acompanhar aqueles que iniciam o seu próprio caminho.

Não se trata de acumular conhecimentos, graus, cargos ou reconhecimentos. Trata-se de que a nossa pertença à Ordem tenha um sentido verdadeiro e contribua para nos tornar mais conscientes das nossas responsabilidades, mais respeitosos para com os outros e, em última análise, melhores Irmãos e melhores pessoas.

Com o tempo, as nossas circunstâncias, as nossas responsabilidades e até a nossa forma de compreender muitos dos ensinamentos recebidos vão mudando. Mas há algo que deve permanecer inalterável: aquela vontade sincera de aprender e aperfeiçoar-nos com que iniciámos o nosso percurso.

Porque ser Aprendiz não é apenas uma etapa da nossa vida maçónica, nem um grau que deixamos para trás à medida que avançamos no nosso caminho iniciático.

Ser Aprendiz é, acima de tudo, uma atitude perante a Maçonaria e perante a vida.

É conservar a humildade necessária para reconhecer que podemos sempre melhorar. É manter viva a curiosidade que nos impele a procurar novas respostas. É saber ouvir antes de julgar e compreender que o verdadeiro conhecimento não nos afasta dos outros, mas deve aproximar-nos deles.

E talvez, após muitos anos de trabalho, cheguemos a compreender que um dos ensinamentos mais valiosos da nossa Ordem é precisamente este: que o aperfeiçoamento pessoal não constitui uma meta que possamos alcançar definitivamente, mas sim um compromisso que renovamos ao longo de toda a nossa existência.

Porque enquanto mantivermos viva a vontade de aprender, de reflectir e de trabalhar sobre nós próprios, continuaremos a percorrer o caminho que um dia decidimos empreender.

Nunca deixamos de ser aprendizes.

Shaun Parsons Herrera – Grão-Mestre da Grande Loja de Espanha

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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