Duas Faces do Dever: O Desafio Moral do Líder
Ouvimos falar muitas vezes de direitos e deveres. Quem defende direitos, defende principalmente a dignidade humana quando esta está colocada em causa ou quando prevemos que possa vir a sê-lo no futuro. Associamos muitas vezes a defesa dos direitos a associações de caráter mais humanista. Os radicais, frequentemente, associam os defensores de direitos a pessoas de certos espectros políticos e a preguiçosos (os tais que não querem trabalhar). No entanto, todos usufruímos dos direitos que foram sendo conquistados ao longo da história da humanidade.
Mas não é sobre direitos que pretendo falar hoje. Hoje pretendo falar sobre deveres — aquele chavão que também não está livre de polémica. Os tais radicais de que falei atrás aparecem sempre com uma frase feita a dizer: “Estes gajos só querem é direitos… e os deveres? Também têm de ter deveres; com esses é que eles não se preocupam…”. No entanto, não é sobre esta dicotomia que pretendo falar. Pretendo que o leitor, faça uma reflexão sobre a forma como interpretamos, ou podemos interpretar, os deveres, partindo também da minha própria vivência e reflexão no âmbito maçónico.
Em primeiro lugar, temos de saber o que é neste artigo um dever. A definição de Kant é muito geral e diz: “Dever é uma ação prática por respeito à lei”. A lei a que Kant se refere é a lei moral que, não estando escrita nem sendo criada pelo Homem, é aplicável a todos os seres racionais, independentemente da sua cultura ou religião. Ou seja, a lei moral é algo intrínseco ao ser humano. Por sua vez, a ação refere-se não só a tarefas práticas, mas também a ordens, solicitações e outras que estejam subordinadas a um qualquer dever. Para este filósofo, as ações podem ser contrárias ao dever, por dever e conforme ao dever. As primeiras (contrárias ao dever) são as mais simples de entender, pois vão contra a lei moral. Agora, o meu foco vai para as ações praticadas por dever e as ações conforme ao dever, pois ambas cumprem exteriormente a lei moral.
Uma ação praticada por dever é uma ação determinada exclusivamente pelo respeito racional pela lei moral, independentemente das inclinações, afetos ou desejos de quem a executa. Um exemplo disso é o de um comerciante com dificuldades financeiras que, mesmo tendo a oportunidade de enganar um cliente (por exemplo, dando propositadamente menos troco) para salvar o seu negócio, escolhe não o fazer. Ele age assim não por medo de ser apanhado ou por esperança de ganho futuro, mas unicamente porque reconhece que a honestidade é um imperativo da lei moral. O valor moral da sua ação reside nesta submissão da vontade à lei, mesmo que isso lhe cause prejuízo pessoal.
Uma ação praticada conforme ao dever é aquela que cumpre a lei moral na prática, mas que é feita por interesse próprio ou por simples conveniência. Pegando no exemplo do comerciante em dificuldades, ele pode optar por não enganar a sua clientela apenas para a manter e assegurar o futuro do negócio. Socialmente, a ação é correta e aceitável, pois não viola a lei moral, no entanto, para a ética kantiana, não possui verdadeiro valor moral, uma vez que a motivação assenta no benefício pessoal e não no puro respeito pela norma moral.
Embora estes dois exemplos pareçam muito parecidos, pois, no plano prático e social, ambas as condutas parecem adequadas, a grande diferença reside no valor moral do dever. Este conceito desenvolvido por Kant define não só a consciência moral do ser humano, mas também o real valor das suas ações. Não é só dizer “eu fiz o meu trabalho”, é dizer “eu fiz o meu trabalho unicamente por respeito e conformidade à lei moral”.
Dando outro exemplo: quando não compareço numa sessão maçónica para dar apoio familiar ao meu filho que está doente, estou a agir por dever se a minha decisão for tomada por reconhecer conscientemente que o dever de proteção e cuidado parental é um imperativo moral universal, e não apenas por uma mera inclinação afetiva momentânea. Se comparecer na sessão, sei que ele não fica mal cuidado pela mãe (ela também sabe cuidar da criança), mas a questão não é essa. A razão diz-me que ambas as ações têm a sua importância, mas que o dever moral de assistência direta ao meu filho se sobrepõe ao dever de presença na sessão, assumindo eu com serenidade as desvantagens subjacentes de não tomar parte nas decisões do trabalho em loja e de não estar com os restantes irmãos.
A maçonaria tem uma quota-parte na responsabilidade de ter ajudado a erguer alguns dos Direitos de que hoje usufruímos e que constituem a base dos nossos valores na sociedade ocidental. Mas também é responsável pelo desenvolvimento de alguns dos deveres que praticamos diariamente. Afinal, embora nem sempre discutamos em sessão a filosofia kantiana de forma explícita ou académica, o nosso trabalho de aperfeiçoamento moral diário está profundamente relacionado com esta mesma temática.
Este texto foi publicado originalmente no A Partir Pedra no Substack .

