De Bernardo de Claraval ao Cavaleiro Kadosh
Introdução
Quaisquer assuntos que envolvam os Templários promovem uma atenção especial, devido ao romantismo das histórias da Cavalaria e Igreja Católica que foi envolvida em muitas lutas e mistérios.
Registros iniciais dos Templários foram encontrados por volta do ano de 1118 d.C. e estavam directamente ligados a utilização das instalações do antigo Templo construído pelo Rei Salomão. Da mesma forma como surge a Ordem é extinta, sem deixar rastros.
A maior referência, quando se trata da estruturação da Ordem dos Templários foi o Abade Bernard de Claraval.
Bernardo de Claraval
Patrono dos Templários, foi um abade francês do século XII, da Ordem de Cisterciense – Ordem Beneditina Reformada, estruturou regras para a Ordem dos Templários. Encarregado pelo Papa para pregar a segunda cruzada, arregimentou uma grande multidão.
O uso da violência incentivado pelo Papa foi defendido por São Bernardo, abade de Clairvaux, o qual refutou as críticas dos clérigos ortodoxos, segundo as quais o derramamento de sangue era vedado àqueles que desejassem ingressar em ordem clerical. Eis a sua exortação dirigida aos Cavaleiros do Templo:
“Na verdade, os cavaleiros de Cristo travam as batalhas para o seu Senhor com segurança, sem temor de ter pecado ao matar o inimigo, nem temendo o perigo da sua própria morte, visto que causando a morte, ou morrendo quando em nome de Cristo, nada praticam de criminoso, sendo antes merecedores de gloriosa recompensa. Assim, sendo, por Cristo! E então, Cristo será alcançado. Aquele que em verdade, provoca livremente a morte do seu inimigo como um acto de vingança mais prontamente encontra consolo na sua condição de soldado de Cristo. O soldado de Cristo mata com segurança e morre com mais segurança ainda. Serve aos seus próprios interesses ao morrer e aos interesses de Cristo ao matar! Não é sem razão que ele empunha a espada! É um instrumento de Deus para o castigo dos malfeitores e para a defesa do justo. Na verdade, quando mata um malfeitor, isso não é um homicídio, mas um malicídio e ele é considerado um carrasco legal de Cristo contra os malfeitores.”
(SILVA, 2001)
São Bernard teve fundamental importância no desenvolvimento da Ordem dos Templários, pois a ampla experiência com a Ordem de Cisterciense proporcionou a estruturação e determinação em reestabelecer a segurança dos caminhos dos peregrinos à Jerusalém, além do combate armado aos muçulmanos. A herança da tradição das vestes dos Templários veio da doação da túnica branca que era utilizada por Bernard na Ordem Cister.
Bernard foi, de facto, o autor da Regra dos Templários – que foi baseada na de Cister – e foi um dos seus protegidos quem, como papa Inocêncio II, declarou, em 1139, que os Cavaleiros apenas seriam responsáveis perante o papado a partir daquela data. Como as Ordens dos Templários e de Cister evoluíram em paralelo, pode discernir-se alguma coordenação deliberada entre elas – por exemplo, o suserano de Hugues de Payens, o conde de Champagne, doou a S. Bernardo as terras de Clairvaux, em que ele construiu o seu « império» monástico. E, de modo significativo, André de Montbard, um dos nove Cavaleiros fundadores, era tio de Bernardo. Tem sido sugerido que os Templários e os cistercienses actuavam em conjunto, segundo um plano pré-estabelecido, para dominar a Cristandade, mas esse plano nunca teve êxito. .(PICKNETT e PRINCE, 2007)
Foi no Concílio de Tryes em 1128 que a Ordem Templária foi reconhecida como uma ordem militar e religiosa:
Graças ao apoio bem-sucedido de São Bernardo, em Janeiro de 1128, o Concílio de Troyes reuniu-se com o objectivo de analisar as pretensões de Hugo de Payns e de André de Montbard. Entre os membros do Concílio contavam-se, entre outros, Bernardo, o abade de Clairvaux, o núncio do papa e os arcebispos de Reims e Sens. Precisamente pela decisão destas personalidades da Igreja por ordem do Papa Honório e de Estêvão, patriarca de Jerusalém, foi criada uma norma como directriz de actuação para a Ordem, sendo-lhes atribuído o hábito branco. Este foi o melhor apoio que a Ordem poderia receber, na Idade Média, porque ela deixou de ser Plano da Jerusalém latina; o Plano de Cambrai, 1150 uma organização clandestina para ganhar notoriedade e reconhecimento pela Igreja Católica.
(SILVA, 2001)
O Templo de Salomão foi a materialização de um sonho do Rei David por intermédio do seu filho Rei Salomão. O primeiro Templo destruído pelo Rei Nabucodonosor por volta de 587 a.C. e no século VI a.C. foi reconstruído.
O Templo de Salomão mantém profundas ligações com a Ordem Templária, pois além de abrigar a Ordem, empresta o seu nome, conforme registro:
Em 1118, juntamente com Godofredo de Saint-Omer, outro valoroso cavaleiro, resolveram fundar uma ordem religiosa e militar conhecida por Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis, ou seja, “Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”, e passaram a ser chamados sucessivamente de “Os Pobres Soldados de Jesus Cristo e do Templo de Salomão”, “Os Cavaleiros do Templo de Salomão”, “Os Cavaleiros do Templo”, “Os Templários”, e finalmente “O Templo”. Adoptaram a divisa Non nobis, Domine, non nobis sed nomini tuo da gloriam, “Não para nós, Senhor, não para nós a glória, mas só em teu Nome”.
(SILVA, 2001)
A extinção da Ordem dos Templários pelo Papa Clemente V e executada pelo Rei Frederico , o Belo, em 1307, foi praticamente testemunhada por um dos maiores poetas nascido na Itália no século XIII, Dante Alighieri que escreveu a obra “A Divina Comédia”. Dante possuía o título de Cavaleiro Kadosh no FSKIPFT, o antigo “Fidei Sanctae Kadosh Imperialis Frater Templário Principado“, uma ordem de parentesco dos Templários; Como muitos iniciados do seu tempo, ele expressou mensagens filosóficas e culturais usando um código, a fim de proteger essas mensagens pelas autoridades, proibindo o livre pensamento e a expressão.
Mais notável, no entanto, é a ligação que Dante e os seus colegas místicos apresentam com os Templários. Foi um dos seus mais entusiásticos apoiantes, mesmo após a sua extinção, quando era desaconselhável estar ligado a eles. Na sua Divina Comédia, Dante estigmatiza Filipe, o Belo, como o « novo Pilatos», pelos seus actos contra os Cavaleiros. O próprio Dante é considerado como tendo sido membro de uma ordem Templária terciária, denominada La Fede Santa. Estas ligações são demasiado sugestivas para serem ignoradas – talvez Dante não fosse a excepção, mas a regra, dos Templários, que estavam envolvidos num culto do amor. (PICKNETT e PRINCE, 2007)
O Título de Cavaleiro Kadosh é encontrado na Maçonaria no 30º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. No ritual encontra-se a origem do grau, e a sua história assemelha-se a mesma confusão na interpretação do grau Rosa Cruz com os Rosa Cruzes Alquimistas do século XVII, da mesma forma o grau 30 quando cita a abreviatura Cavaleiro “T.” (de Teutónicos) e foi interpretado como Cavaleiro Templário.
Posteriormente foi atribuído ao grau de vingança e a comemoração da abolição dos Cavaleiros do Templo e o suplício de Jacobus Burgundus Molay, seu último Grão-Mestre, que pereceu como mártir nas chamas, a 18 de Março de 1314, tendo como seus algozes Filipe o Belo e do Papa Clemente V Responsáveis pela sua extinção e morte dos seus líderes. De outra forma a Maçonaria Templária Alemã tratava da lembrança em reclamar os seus bens invadidos e roubados pela Ordem dos Cavaleiros de Malta.
Na Maçonaria, em especial no Brasil, podemos encontrar referências sobre os Cavaleiros Templários em vários ritos e graus.
No Rito Escocês Antigo e Aceito encontramos parte da história e da lenda Templária nos rituais do grau 30 do Cavaleiro Kadosh ou Cavaleiro da Águia Branca e Negra. O Grau de Cavaleiro Kadosh encerra a máxima da Razão e da Virtude.
O Rito Escocês Rectificado, criado a partir da reforma da Estrita Observância Templária, surge como um rito de essência cristã que porta apenas os valores morais das ordens Templárias.
Nas Ordens de Aperfeiçoamento Maçónico encontra-se a Ordem dos Cavaleiros Templários, herança directa das tradições transmitidas directamente pela Grande Loja de Inglaterra.
O Rito de York contempla no seu último estágio o Grau de Cavaleiro Templário.
Conclusão
Os assuntos e ritos Templários são envoltos em lendas e mistérios, rememoram as tradições Templárias nos seus aspectos místicos e morais.
A Ordem Templária sempre presente na história do Brasil com os seus símbolos, acima de tudo, é uma ordem de carácter ecuménica, não faz distinção de raça, credo, nacionalidade e de estirpe, respeitando em qualquer caso, as leis e as tradições de todos os povos e de todos os países por onde estendem as suas actividades. Espera-se que os maçons brasileiros absorvam da melhor forma os ensinamentos contidos nos rituais templários, e que seja crítico em identificar as distorções históricas e lendas que são amplamente cultuadas aqui no Brasil.
A Maçonaria brasileira mantém as tradições morais dos Cavaleiros Templários nos seus principais ritos tradicionais históricos e praticados para que o Maçom possa experienciar as doutrinas para a grande batalha interna individual e colocar em acção os valores morais, aliás, a acção é uma prerrogativa da cavalaria.
Arthur Feitosa Vieira Monteiro
Referências
- CARVALHO, William Almeida de – História da Maçonaria: Das Origens Corporativas à Maçonaria Moderna – Distrito Federal – UnyLeya, 2017.
- PICKNETT, Lynn; PRINCE, Clive – A REVELAÇÃO DOS TEMPLÁRIOS: Os Guardiões Secretos da Verdadeira Identidade de Cristo. Tradução de Adriano José Sandoval. São Paulo: Editora Planeta – 2007
- Ritual do Grau 30 do Supr. Cons. do Brasil do Grau 33 para o REAA
- SILVA, Pedro – História e mistérios dos templários – Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
