Freemason

Colmeia

✍️ Desconhecido 📅 04/04/2024 👁️ 8 Leituras

avental, colmeia
Avental que pertenceu a Sidney Mason, o primeiro cônsul da América em Porto Rico, e data de cerca de 1822. O desenho impresso foi criado por Edward Horsman de Boston em 1814 [1].
Postado em 4 de Novembro de 2015, por David Harrison, em Os Símbolos Perdidos da Maçonaria: A Colmeia, [2], Harrison afirma que “A colmeia é um símbolo maçónico muito antigo que ainda é usado em muitos países, mas na Inglaterra e no País de Gales foi abandonado após a União de 1813, mas que ainda pode ser visto em algumas lojas pré-União mais antigas, por exemplo, como um símbolo na Prelecção de 3º Grau da Loja Real Cumberland n° 41”

Portanto, depreende-se que o símbolo colmeia é um ícone muito antigo na Arte Real e o seu uso antecede o marco da União de 1813 entre os Antigos e Modernos, e o seu abandono após o Acto de União. A pergunta que suscita é: Por que após a União das duas Grandes Lojas da Inglaterra o símbolo da colmeia deixa de ser usado? Que motivo levaria a cair em “abandono”, (segundo David Harrison), o símbolo da colmeia na Maçonaria?

Em Colmeia – um símbolo perdido da Maçonaria [3], assim escreve Bernard Emile Pels: “Não se sabe a partir de quando a Colmeia passou a constar nos Rituais maçónicos, mas já estava presente na Maçonaria desde, pelo menos, o início do século XVIII, como evidencia um catecismo maçónico irlandês datado de 1724 em que trata como “grande mistério ou hieróglifo”:

“Uma abelha tem sido, em todas as épocas e nações, o grande hieróglifo da Maçonaria, pois supera todas as outras criaturas vivas, na capacidade de criação e amplitude da sua habitação. Construir parece ser da própria essência ou natureza da abelha”.

“Há vários registros de colmeias, como parte integrante e de destaque de Templos e Rituais maçónicos, em Inglaterra, Irlanda, Escócia e EUA, no século XVIII. Porém, com a renovação dos Rituais, em boa parte do Reino Unido, a partir de 1813, este importante símbolo foi, de certa forma, ignorado, surgindo, uma vez ou outra, em Lojas de Pesquisa, com excepção da Maçonaria americana, que manteve a sua importância no Ritual”.

Segundo The Freemason at Work, do ínclito Irmão Harry Carr, “a colmeia sempre foi um emblema da indústria, e aparece com frequência na segunda metade do século XVIII em Tábuas de Delinear, certificados de Loja, jóias, vidros e cerâmicas. A Loja de Emulação, N° 21 (fundada em 1723), teve a colmeia como seu emblema por quase 200 anos, pelo menos, e é representada em recipientes para beber apresentados à Loja em 1776, e nos seus copos de fogo do mesmo período. Dring, no seu grande estudo da evolução das Tábuas de Delinear (AQC 29), reproduziu um grande número de fotos de ‘Panos’ [4] e Tábuas das primeiras Lojas, e a colmeia aparece regularmente em quase todos os conjuntos. No momento em que atingiu tal grau de proeminência no simbolismo da Loja, não pode haver dúvida de que também estava sendo apresentado na obra explicativa, ou Prelecções, e no ritual do século XVIII da Loja Real Cumberland, N° 41, contém o seguinte na sua Prelecção de Terceiro Grau:

“A Colmeia nos ensina que nascemos no mundo como seres racionais e inteligentes, então devemos também ser trabalhadores, e não ficar ociosos ou olhar com indiferença apática até mesmo o mais cruel dos nossos semelhantes num estado de angústia e está no nosso poder ajudá-los sem prejuízo para nós mesmos ou as nossas ligações; a prática constante dessa virtude é imposta a todos os seres criados, desde o mais alto serafim do céu até o mais cruel réptil que rasteja no pó”.

(Extraído de GW Bullamore,
The Beehive and Freemasonry‘,
AQC, Vol. 36, p. 222.)

Na União das Grandes Lojas rivais em 1813, muitos dos antigos símbolos que anteriormente adornavam as Tábuas de Delinear foram abandonados; entre eles estavam a Ampulheta, a Foice, a Arca e a Colmeia. A explicação desses símbolos desapareceu da prática inglesa. Mas muitos rituais americanos modernos, que devem as suas origens a fontes inglesas pré-União, preservaram as explicações que descartamos. Para citar apenas um exemplo, a citação de Royal Cumberland, acima, aparece quase palavra por palavra no Trestle-Board de terceiro grau publicado pela Grande Loja de Massachusetts em 1928.

Os símbolos listados aqui, incluindo a colmeia, devem a sua sobrevivência nos trabalhos “monitoriais” americanos a Thomas Smith Webb, um proeminente ritualista e conferencista maçónico (nascido em 1771; morto em 1819), que pode muito bem ser descrito como o William Preston de Maçonaria americana. Ele ainda era um jovem de vinte e poucos anos quando conheceu John Hanmer, um inglês, bem versado nos rituais ingleses e especialmente no sistema de Preston. Com a ajuda de Hanmer, Webb publicou a primeira edição de The Freemason’s Monitor: or Illustrations of Masonry, em 1797. A sua secção principal era uma reprodução substancial das ilustrações de Preston, embora Webb tenha esquecido de mencionar isso. Houve pelo menos seis outras edições durante a vida de Webb, todas “ampliadas e aprimoradas”, e a obra se tornou muito popular. A edição de 1802 continha a sua interpretação do simbolismo da colmeia e é provavelmente a explicação mais conhecida em uso hoje.

Outro ponto de interesse, conforme Harry Carr, é a questão: Qual grau continha a colmeia? Nos primeiros trabalhos ingleses, ele invariavelmente aparece no primeiro, mas às vezes num primeiro e segundo ‘combinados’. No trabalho Royal Cumberland, ele apareceu na terceira Lição, e o trabalho de Massachusetts afirma que todos os símbolos listados acima, incluindo a colmeia, pertencem ao terceiro grau.

Conforme salienta Harry Carr, “- Há um mistério aqui”.. Na Inglaterra, apesar das numerosas aparições da colmeia em jóias maçónicas do século 18, certificados, tábuas de delinear e móveis, provou-se impossível rastrear quaisquer relíquias de rituais ou comentários do século 18 relacionados à abelha, ou a colmeia como símbolos maçónicos, excepto o trecho citado acima da Prelecção do Terceiro Grau usada na Loja Real Cumberland, nº 41. Esta Loja existia em 1733 e não seria surpreendente encontrar itens isolados de práticas rituais primitivas sobrevivendo lá; mas irmão PR James, que foi membro daquela Loja por muitos anos (e cujo trabalho académico nas Prelecções de Preston impõe o mais alto respeito), sustentou que a ‘nota da colmeia’ na Prelecção em inglês era material do século XIX”.

O símbolo da colmeia é muito antigo, representando a loja de trabalho. Geralmente são vistas sete abelhas voando ao redor da colmeia, sendo sete o número para formar uma loja perfeita. A abelha foi usada como símbolo no antigo Egipto, e o símbolo da colmeia remonta pelo menos à Roma antiga.

O escritor romano Porfírio, na sua obra De antro nympharum (A Caverna das Ninfas), conta-nos que nos ritos romanos de Mitra , o mel de um favo de mel era derramado sobre o iniciado durante o ritual de Leão (Leão) enquanto ele era admoestado a evitar tudo o que é impuro no mundo.

Em Masons of Califórnia [5] temos um outro conceito do símbolo colmeia na Maçonaria:

“Colmeia: As abelhas são há muito tempo um símbolo de trabalho duro e trabalho em equipe. Para o pedreiro, a colmeia é especialmente fascinante, porque o favo de mel é uma estrutura geométrica perfeita”.

Harrison traz-nos informações interessantes sobre colmeia, com vestígios do século XV, como:

“Uma colmeia foi descoberta na Capela Rosslyn [6] durante as recentes reformas. Ficava dentro de um pináculo na cobertura que havia sido escavado pelos pedreiros para esse fim. As abelhas entraram por um buraco numa flor decorativa no pináculo. O interessante é que a sua construção não permitiu a extracção de mel. O único propósito parece ter sido proteger as abelhas das intempéries da região”.

E de acordo com Ritual Americano Preston-Webb, citado por Harrison:

A colmeia é explicada como um “símbolo de indústria e cooperação, e como uma advertência contra a preguiça intelectual, alertando que “aquele que se rebaixar a ponto de não se esforçar para aumentar o estoque comum de conhecimento e compreensão, pode ser considerado um zangão na colmeia da natureza, um membro inútil da sociedade e indigno da nossa protecção como maçons”.

“A referência maçónica mais antiga conhecida à colmeia é encontrada num manuscrito intitulado A Letter from the Grand Mistress of the Female Free-Maçons to Mr Harding the Printer, encontrado na Colecção Halliday, Royal Irish Academy, Dublin. Acredita-se que este documento tenha sido criado entre 1727 e 1730 e, embora originalmente atribuído a Jonathan Swift, o verdadeiro autor permanece desconhecido.

Abelha Hieróglifo “Uma abelha tem sido em todas as Eras e Nações o Grande Hieróglifo da Maçonaria, porque supera todas as outras Criaturas vivas na Invenção e Comodidade da sua Habitação ou favo; … não, a Maçonaria ou Construção parece ser da própria Essência ou Natureza da Abelha, pois a sua Construção não é o Caminho comum de todas as outras Criaturas vivas, é a Causa Geradora que produz os Jovens…”. [7]

“O que os maçons modernos chamam de Loja era, pelas razões acima, chamada pela Antiguidade de uma Colmeia de Maçons Livres, e pelas mesmas razões, quando uma dissidência acontece numa Loja, a saída e a formação de outra Loja é até hoje chamada “ENXAME””. Ou, ainda, uma “produz” a outra, ou, uma “nasce” da outra. – Abelhas gerando outra colmeia.

Em outro artigo de David Harrison, também sobre a colmeia, postado em 9 de Dezembro de 2015 [8], assim discorre sobre a lenda de Trophonius [9], retratado como símbolo de uma lenda mítica à colmeia:

“Trophonius é um herói grego e semideus que é frequentemente retratado com o símbolo da Colmeia. De acordo com a tradição, Trofónio e seu irmão Agamedes construíram o Templo de Apolo no oráculo de Delfos, e o oráculo lhes disse que poderiam fazer o que quisessem por seis dias, e no sétimo dia o seu maior desejo poderia ser atendido. Eles viveram a vida plenamente por seis dias, mas no sétimo dia ambos foram encontrados mortos. Outra história mostra os irmãos construindo uma câmara do tesouro para um rei e, usando uma entrada secreta que só eles conheciam, roubaram o tesouro. Agamedes, entretanto, foi pego numa armadilha, e Trofónio cortou a sua cabeça para não ser reconhecido e fugiu para uma caverna onde desapareceu”.

“A caverna só foi descoberta muitos anos depois, quando houve uma praga; ao consultar o oráculo de Delfos, foi dito ao povo que um herói estava zangado por não ser adorado e que deveriam encontrar o seu túmulo para adorá-lo. A busca pelo herói perdido foi infrutífera, até que um pastor seguiu uma trilha de abelhas até um buraco no chão, e o túmulo do herói perdido foi encontrado e a praga cessou. Outras tradições ligam os dois irmãos a cavernas, e até mesmo o Clube do Fogo do Inferno, no século XVIII, construiu uma caverna de Trofónio, completa com pinturas murais explícitas, para se entregar às suas festas ritualísticas”.

Em A Abelha na Maçonaria, de Sérgio Quirino Guimarães [10]:

“Visitando o museu maçónico da Grande Loja Unida da Inglaterra, os Irmãos encontrarão abelhas e colmeias ilustrando diplomas, páginas de rituais, objectos de decoração maçónica e até aventais, comprovando a admiração que nós maçons devemos ter por esta criatura de Deus que sabe o valor de edificar uma casa”.
.
“E ao descobrirmos que uma abelha operária vive no máximo dois meses, devemos reflectir que a vida realmente é muito curta. E não devemos contar os dias como sendo como o despertar das manhãs, mas sim o labor das tardes.
.
A abelha operária também tem a sua graduação: O seu primeiro estágio ou grau, é o básico, executa pequenos trabalhos de ir e vir, cuidando principalmente da faxina, seu número é o três, afinal a partir do quarto dia, ela é elevada a outras obrigações.
.
Agora acompanham e abrilhantam os trabalhos das irmãs mais experientes. O seu título é de nutrizes. Recebem as substâncias (instruções) das outras, fazendo dentro de si uma mistura de pólen, mel e água e regurgitam nos alvéolos em que existam larvas (candidatas???) e também cuidam da Venerada Rainha.
.
Mas chega a hora em que adquirindo instruções superiores elas são promovidas a “Mestres de Obra” e vão trabalhar construindo os favos e as paredes da colmeia. Com níveis, esquadros e prumos divinos executam os seus trabalhos com fervor e zelo”.

Segundo David Harrison, “O símbolo da colmeia é, portanto, uma imagem tradicional, com conotações quase rústicas e de classe trabalhadora, e isto pode explicar porque foi retirado da colecção de símbolos de ciência, geometria e precisão que agora dominam a Maçonaria moderna da UGLE”..

Seria apenas por ser a colmeia uma imagem tradicional e de conotações “rústicas” e de classe trabalhadora, uma vez que outros símbolos e instrumentos de trabalhadores na Maçonaria continuam entre nós até hoje?

A colmeia, a olhos vistos, não possui qualquer relação directa com o ofício de pedreiro, e parece esta a maior fundamentação para considerar os instrumentos de trabalho na Maçonaria: Construção em pedras, em canteiros de cantaria, edificações em pedra, construções de templos e outros prédios. Instrumentos como “Ampulheta, Foice, Arca, Ouroboros, Águia ..”. são símbolos que, como a colmeia, trazem inspiração para meditarmos; inspirações ou temas especulativos, contemplativos, mas, a rigor, qual a relação simbólica da colmeia com as ferramentas utilizadas na construção por pedreiros? Seria, talvez, (ou muito provavelmente o é), este o motivo de ter sido a colmeia abandonada após o Acto de União de 1813 entre os maçons Antigos e Modernos?

Por este raciocínio, por que não foram abolidos, também, instrumentos simbólicos de trabalho que nada ou muito pouco têm a ver com a operacionalidade dos construtores pedreiros da Antiguidade e Era Medieva, como turíbulos, incensos, enxofre, lâmpada de licopódio, e outros elementos, e não admitiram exclusivamente as heranças dos símbolos directamente relacionados aos pedreiros e os seus instrumentos simbólicos nos actuais rituais maçónicos?

Por quê, então, alguns maçons mantiveram até hoje o símbolo da colmeia nos seus trabalhos, utilizando a simbologia da colmeia, do trato com a natureza; construindo “favos” perfeitos e produzindo “mel”, em hierarquia, organização, harmonia e união, em exactamente numa disposição contrária a este advento misterioso do “abandono” do símbolo colmeia na Maçonaria?

–  Seriam realmente estes os reais e fundamentais motivos do abandono desse símbolo perdido, – a colmeia – em parte da Maçonaria?

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

Notas

[1] Extraído de: https://americanhistory.si.edu/explore/stories/brother-washingtons-apron-masonic-mystery-part-2-3

[2] Extraído de: https://dr-david-harrison.com/freemasonry/the-lost-symbols-of-freemasonry-the-beehive/

[3] Extraído de: https://www.freemason.pt/colmeia-um-simbolo-perdido-da-maconaria/

[4] As antigas lojas dos pubs foram, aos poucos, deixando de fazer os desenhos no chão (e empreendia muito trabalho) e passaram a pintar em pedaços de tecidos, que depois eram enrolados e guardados para a reunião seguinte. É a essas pinturas que se refere o termo “panos”.

[5] Extraído de: https://www.dummies.com/article/body-mind-spirit/religion-spirituality/freemasonry/how-to-decipher-less-well-known-freemasonry-symbols-195616/

[6] A Capela de Rosslyn ou Catedral de Rosslyn foi construída em 1446, em Roslin, na Escócia. Foi fundada, por William Sinclair, 1.° Conde de Caithness, com o nome de Collegiate Chapel of St. Matthew.

[7] Extraído de: https://dr-david-harrison.com/freemasonry/the-lost-symbols-of-freemasonry-the-beehive/

[8] Extraído de: https://dr-david-harrison.com/freemasonry/back-to-the-beehive/

[9] Trophonius, Trofónio (português europeu) ou Trofônio (português brasileiro) foi um hábil arquitecto, construtor do Templo de Delfos. A caverna onde foi sepultado era célebre pelos seus oráculos. Os que consultavam o oráculo de Trofónio ficavam melancólicos para toda a vida. Desta forma, criou-se a expressão proverbial entre os gregos: Consultou o oráculo de Trofónio ou Saiu da caverna de Trofónio, para designar uma pessoa grave e taciturna.

[10] Extraído de: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/05/25/a-abelha-na-maconaria/

Referências

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo