Boécio, “a consolação da filosofia” e o Rito Escocês Rectificado (RER)
Introdução
À pergunta do Venerável Mestre – “O que é a Maçonaria?” -, o Irmão Chanceler responde: “É uma Instituição que tem por objectivo tornar feliz a Humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à religião” [1] (GLMRS, 2007, p. 28). O Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), o mais praticado no Brasil, vai directo ao ponto: não só declara o objectivo da Ordem, como os meios pelos quais pretende atingi-lo. E ao afirmar o respeito à crença de cada um, a rigor nem mesmo os ateus poderiam ser afastados, pois há quem pense que crer na inexistência de um transcendente metafísico não deixa de ser … uma crença. A defesa do ateísmo é tão vigorosa quanto a das crenças, cada qual argumentando a partir da desconstrução dos argumentos levantados pela outra (COMTE-SPONVILLE, 2016), e a exemplo de tantos outros temas, tal como as duas faces da moeda, parecem compor a unidade.
Entretanto, o tema não é livre de controvérsias, pois se de um lado a crença em Deus, presente nos Landmarks (Old Charges) que subsidiaram o Rev. Anderson na elaboração do documento fundador da Maçonaria Moderna – As Constituições -, foi mantida na maioria dos sucessivos Landmarks posteriores, a exemplo do de A. G. Mackey, de outro, ainda que ao custo da irregularidade (perante a Grande Loja Unida da Inglaterra) o “GOdF [2] […] decidiu, no seu Convento de 1877, suprimir menções ao GADU [Grande Arquitecto do Universo] dos seus rituais e aceitar ateus nos seus quadros […] Nascia assim a chamada Maçonaria Liberal ou Agnóstica” (ISMAIL, 2021, p. 121).
No meio desta discussão, é sempre um achado precioso encontrar textos que dialogam com os dois campos, o que de certo modo asseguraria o atributo “universal” que também caracteriza a Maçonaria: o dos ateus que têm por lastro o conhecimento proporcionado pela Ciência Moderna (herdeira da Filosofia Natural) e o dos crentes, que têm por base o conhecimento revelado e a fé. Já manifestei a preocupação de construir pontes quando analisei o legado de Viktor Frankl [3] aplicado à Maçonaria (PINHEIRO, 2021). Ademais, a carência de produção intelectual (para além dos aspectos históricos) no universo editorial-maçónico brasileiro (assim como produções avulsas de menor porte disponibilizadas nas redes) no contexto do RER já me levou a publicar, individualmente ou em parceria, entre outros, pelo menos dois textos específicos sobre a matéria: “Produzindo Trabalhos & Textos no RER”, com vistas não apenas a destacar as singularidades do Rito mas também sugerir bibliografia apropriada.
Feitas essas considerações preliminares este trabalho tem por objectivo principal trazer ao público maçónico mais um autor que transita com desenvoltura por entre a fé e a razão filosófica: Boécio, em “A Consolação da Filosofia”, obra escrita no séc. VI, portanto ainda nos momentos iniciais da formação do cristianismo – dos primeiros concílios, do enfrentamento e superação das heresias, do estabelecimento dos dogmas, etc. – período conhecido como Patrística (HAMMAN, 2011; SPANNEUT, 2013). Ademais, Boécio é particularmente relevante para o maçons rectificados, cujos fundamentos doutrinários, em parte, distinguem-se dos demais Ritos, o que tem levado não só os Iniciados no RER, mas também os que, já Mestres, fizeram a migração, ao cometimento de equívocos por não terem se dado conta das suas particularidades, o que leva ao segundo objectivo deste texto: dar notícia de novas e mais específicas fontes bibliográficas.
Porque não aprofunda nenhum dos temas que levanta, o que demandaria muito mais páginas, mas também para atiçar a curiosidade acerca do que fica em suspenso, este texto melhor se enquadra como uma Comunicação.
A biografia & a obra – pinceladas
Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius, nascido no seio de uma família cristã, em Roma e em 480, foi homem de Estado, filósofo e poeta. Portanto, Boécio foi contemporâneo da Queda do Império Romano do Ocidente. De família aristocrata (seu pai foi Cônsul), não lhe faltaram recursos para os estudos, aos quais se dedicou com afinco, tendo traduzido para o latim obras de Platão e Aristóteles. Fez carreira exitosa no sector público romano, tendo já aos 30 anos, pela primeira vez, chegado a Cônsul. Pelo seu conhecimento e projecção, foi mantido na Administração de Teodorico, visigodo que derrotou Odoacro, hérulo (povo germânico) que destituíra o último imperador romano – Rómulo Augusto. Até então julgava-se perfeitamente feliz.
Entretanto, em pouco tempo e rapidamente, um conjunto de factores (inimizades, invejas e a solidez de princípios que o fez sair em defesa pública de amigos) o levou a ser acusado de conspirar contra o rei, sendo preso, torturado e morto em 524.
E foi na prisão, já com a marca dos condenados à morte registrada na pele (marcada na carne) [4], que escreveu aquela que viria a ser considerada a sua obra-prima: “A Consolação da Filosofia”. Somente esta circunstância, por si, já faria da obra um objecto de curiosidade pois, afinal, como um condenado à morte e torturado pode encontrar paz de espírito para escrever um livro, e sobre o que este texto poderia versar e ter utilidade?
Marc Fumaroli, no prefácio à obra consultada, dá a dica:
A Consolação de Boécio restabelece o sentido original e radical que essa palavra carrega: o de uma razão de ser que pode manter de pé, inflexível e fiel, o homem golpeado pelos carrascos. (BOÉCIO, 2012, p. IX).
Acredito que o Maçom Rectificado de imediato evocou o dístico do painel do Primeiro Grau (“Adhuc Stat!”), enquanto que os demais Iniciados anteriormente já haviam voltado a atenção para significado da escada que no sentido ascendente conduz da prática (da matéria, do concreto, da acção) à teoria (às ideias, à abstracção, ao pensamento, à vontade, ao ideal).
Deixando à margem “o sentido original e radical” da palavra “consolação”, uma consulta ao Google actualiza o significado:
- “A origem de consolo é o Latim CONSOLARI, formada por COM-, “junto”, mais SOLARI, “reconfortar, aliviar, suavizar” [5]; e,
- “Consolação (latim consolatio, –onis) […] [6]
- acto ou efeito de consolar. = CONSOLO
- prazer, deleite (que substitui dor, desgosto ou mal-estar).
- lenitivo, alívio.
- acto de incutir alívio de penas.
- conforto
- pessoa ou coisa que consola.
Como é dado a perceber, o passar dos séculos não corrompeu os sentidos, o antigo e o contemporâneo se mostram compatíveis, complementares até, pois quem consola está junto para aliviar o sofrimento, e ao reconfortar ampara o consolado para manter-se de pé e fiel às suas crenças e princípios em que pese as vicissitudes da Roda da Fortuna.
Com efeito, a obra segue o estilo do fundador da Escola da qual é seguidor [7]: um diálogo entre ele, Boécio, e a Filosofia, que após aparecer-lhe em sonho o acompanha, instrui-o [8] e, assim, o consola. Angustiado e sem a devida compreensão do que se passa, depois de tudo o que fez por Roma e pelos romanos, sentindo-se mesmo injustiçado, Boécio, com a orientação da Filosofia mergulha a fundo na sua alma, passa em revista os acontecimentos da sua vida por meio dos quais debate sobre o sentido da existência, o significado da felicidade, o problema da teodiceia, o que é o bem, a justiça, a harmonia do uno e das leis universais, a questão do livre-arbítrio versus a presciência e o determinismo (?) divino, o significado do tempo na perspectiva dos homens vis-à-vis à de Deus, entre outras tantas questões.
As reflexões e a riqueza das lições passíveis de apreensão com a obra à luz das circunstâncias em que foi elaborada são incomensuráveis, só encontrando paralelo, quiçá, no episódio da condenação e morte de Sócrates [9] que, entretanto, foram imortalizadas não por este, mas por Platão [10], seu discípulo, notadamente em Fédon (PLATÃO, 2013).
Spoiler gourmet
À guisa de despertar o interesse na leitura da obra, reflexões e trabalhos posteriores, pois nada é livre de análise crítica e actualização, destaco algumas citações e, sem agregar comentários, encaminho as considerações finais:
Por que então, ó mortais, buscais fora de vós mesmos o que se encontra dentro de vós? O erro e a ignorância vos cegam. Vou te mostrar rapidamente no que consiste a suprema felicidade. (BOÉCIO, 2012, p. 35-6);
Os mortais têm todos uma única preocupação pela qual não medem esforços; seja qual for o caminho tomado, o objectivo é sempre o mesmo: a felicidade […] E é realmente o bem supremo, que contém em si mesmo todos os bens: se apenas um faltasse, ele não poderia ser o bem supremo, pois fora dele haveria algo ainda a ser desejado. É claro, portanto, que a felicidade é um estado de perfeição, pelo facto de reunir em si mesma todos os bens […] Com efeito, todos os homens têm em si o desejo inato do bem verdadeiro, mas os erros da sua ignorância desviam-nos para falsos bens. (op. cit., p. 55);
[…] cada um considera que a felicidade reside naquilo que deseja mais do que qualquer outra coisa […] as diversas formas de felicidade que os homens concebem: riquezas, honras, poder, glória, prazeres […] (op. cit., p. 56);
[…] tu queres de esforçar para ficar rico? […] alcançar o brilho das honrarias? […] ambicionas o poder? […] procuras então a glória? […] qualidades físicas? […] (op. cit., p. 69);
O que torna o Céu admirável não são tanto as suas propriedades quanto a Razão que o move (op. cit., p. 69);
Vejo claramente que não se pode encontrar a independência nas riquezas, nem o poder no exercício das magistraturas, nem o reconhecimento público nas funções honoríficas, nem a celebridade na glória e tampouco o contentamento nos prazeres […] É porque o erro humano divide o que é por natureza simples e indivisível, e transforma o verdadeiro no falso e o perfeito no imperfeito. (op. cit., p. 71);
“Ora, esse facto mesmo nos leva a admitir que a independência, o poder, a celebridade, a consideração social e a alegria certamente têm nomes diferentes, mas são iguais em tudo quanto à sua substância”. “Certamente”, respondi. “Portanto, aquilo que é por natureza uno e simples é dividido pela ignorância dos homens, e, ao esforçarem-se por obter uma parte de um todo que não comporta partes, não obtêm nem a parte almejada, visto que ela não existe, nem a totalidade, nem sonham obter”. (op. cit., p. 72);
Nessas condições, já que sabes distinguir a verdadeira felicidade das suas cópias, resta-te apenas descobrir onde podes encontrar a verdadeira felicidade […] que achas que devemos fazer agora, para merecermos saber onde reside o bem supremo? “Invocar o Pai de todas as coisas, pois esse é o ritual com que se começam todas as coisas”, respondi. “Tens razão” disse ele […] (op. cit., p. 74);
Eis uma conclusão absolutamente irrefutável e verdadeira […] para evitar prolongar o raciocínio infinitamente, é preciso admitir que o Deus soberano contém o perfeito e soberano bem. Mas nós tínhamos estabelecido que o bem perfeito é a verdadeira felicidade, portanto a verdadeira felicidade reside necessariamente no Deus soberano. “Eu o admito e afirmo que é totalmente impossível contradizer-te”, respondi. (op. cit., p. 77);
“Dessa forma”, disse ela, “é preciso admitir que Deus é a suprema felicidade.” Eu respondi: “Não tenho como refutar tuas proposições anteriores e vejo que elas levam a essa conclusão.” (op. cit., p. 78);
Este universo, composto de partes tão díspares e opostas entre si, não poderia ser construído numa forma única sem a existência de um ser único, capaz de reunir elementos tão diferentes. Por outro lado, essa reunião se desfaria e desapareceria devido à disparidade dos seus elementos a menos que houvesse um ser único capaz de manter a coesão entre os elementos ligados entre si. A ordem da Natureza não poderia agir de maneira tão segura […] em lugares e tempos determinados com eficácia, quantitativa e qualitativa, sem a existência de um ser único capaz de atribuir uma regularidade a esses diversos movimentos, permanecendo ele mesmo imutável. (op. cit., p. 88);
Acabaste de aprender que tudo o que é é uno, e essa unidade é o bem […] Mas, como somente a bondade pode elevar um homem acima da natureza humana, é necessário concluirmos que a maldade rebaixa os que a ela se aplicam para aquém do nível humano. Portanto, podes concluir que não se pode considerar um ser humano aquele que foi metamorfoseado por muitos vícios. (op. cit., p. 105);
[…] há uma ordem geral que abarca todas as coisas; o que escapa de um lado aparece sempre de outro, a fim de que, no reino da Providência, nada seja deixado ao acaso […] Mas acho difícil falar dessas coisas como se eu fosse um deus. Não há homem algum que possa compreender apenas com os seus recursos nem explicar com palavras todo o mecanismo da obra divina. Que baste, portanto, ter compreendido apenas isto: é o mesmo Deus, criador de todos os seres, que dispõe todas as coisas orientando-as para o bem e que, do mesmo modo, assimila e mantém próximos a si todos os seres por ele criados, servindo-se do Destino para eliminar o mal de onde se exerce a actividade divina. E é dessa forma que, se observas a repartição que efectua a Providência daquilo que se acredita ocorrer ao acaso sobre a Terra, poderás ver que não há aí nenhum mal. (op. cit., p. 123-4).
Considerações finais
O mais leitor atento, mesmo a partir de somente alguns fragmentos, percebe que a estrutura da obra, independentemente do acerto das conclusões a que chega acerca de cada tema é, em si, uma ferramenta para desenvolver o pensamento crítico e elevar-se. Outras ferramentas auxiliares na busca pela verdade podem ser vistas em Pinheiro (2021c).
Marc Fumaroli conclui o prefácio com as seguintes palavras:
É estranho que a história da filosofia, das sociedades, das técnicas, que fizeram tudo “evoluir”, deixem-nos ainda ler a Consolação, depois de catorze séculos, como se ela fosse dirigida a nós, como se hoje ela fosse até uma intensa novidade (BOÉCIO, 2012, p. XXXVII).
Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom (licenciado) do Quadro da ARLS Mário Juarez de Oliveira, 4547, GOB-RS; da LEP Universum, 147, GLMERGS; da Loja de MESA Victor Meirelles; e Membro Correspondente da Academia Maçônica de Letras, Ciências, Artes e Ofícios do GOB-BA. O autor se expressa como livre pensador, os seus pontos de vista são absolutamente pessoais, não representam as Potências, Obediências e Lojas das quais participa, razão pela qual não raro se manifesta também com o recurso à primeira pessoa do discurso. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 07.02.22.
Notas
[1] Uma breve pesquisa na internet deixará à evidência que existem pequenas variações do mesmo texto, enquanto o citado refere à religião, outros mencionam as crenças.
[2] Grande Oriente de França.
[3] Como cientista publicamente manteve cautela e reserva em matéria de fé, conquanto a sua biografia e a sua obra, o que confirmam vários autores, parecem não deixar dúvidas quanto ao seu posicionamento.
[4] As letras gregas Pi e Theta ligadas pelos degraus de uma escada. Em nota de rodapé o tradutor (Willian Li) esclarece: a primeira e abaixo corresponde a abreviatura da palavra “prática”, a segunda e acima, a abreviatura da palavra “teoria”.
[5] Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/palavras/consolar/. Acesso em: 07.02.22.
[6] Disponível em: https://dicionario.priberam.org/consola%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 07.02.22.
[7] Boécio é considerado um neoplatónico.
[8] O leitor interessado descobrirá que a Filosofia antes lhe chama a atenção ao incitar a sua memória, pois inicia as suas explanações com o resgate dos conhecimentos já esquecidos nos recônditos da sua (de Boécio) memória, portanto, com uma efectiva anamnese que, em se tratando do seu caso pessoal, ele tem dificuldades para estabelecer as conexões entre a teoria (conhecimento) e a prática.
[9] 469/470 – 399 a.C.
[10] 428/427 – 348/347 a.C.
Bibliografia citada
- BOÉCIO, Anício M. T. S. A Consolação da Filosofia. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. Colecção Clássicos WMF.
- COMTE-SPONVILLE, André. O Espírito do Ateísmo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.
- GLMRS. Rito Escocês Antigo e Aceito – Ritual do Grau de Aprendiz Maçom. Porto Alegre: Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul, 2007.
- HAMMAN, Adalbert-G. Os Padres da Igreja. São Paulo: Paulus, 20111.
- ISMAIL, Kennyo. Maçonaria Brasileira: história ocultada. Brasília, DF: No Esquadro, 2021. Vol. 1.
- PINHEIRO, Ivan A. Logoterapia & Maçonaria: elementos para a convergência entre Ritos e a prática maçónica. In: PATUTO, Gustavo V. (Coord.). Os Grandes Pensadores da Humanidade e o Rito Moderno. Curitiba, PR: Independently published, 2021a. Tomo III, Cap. 26, p. 194-298.
- PINHEIRO, Ivan A. Produzindo Trabalhos; Textos no Rito Escocês Rectificado (RER) – II. Publicado em: Novembro, 2021b. Disponível em: ivan.pinheiro@ufrgs.br.
- PINHEIRO, Ivan A. Buscadores da Verdade … Sois Mesmo? Revista Ad Lucem, vol. 1, n. 2, p. 14-28, Mai.-Ago., 2021c.
- PINHEIRO, Ivan A.; PELLEGRINI, A.; VAREJÃO, A. Produzindo Trabalhos & Textos no Rito Escocês Rectificado (RER). Publicado em: Agosto, 2021. Disponível em: ivan.pinheiro@ufrgs.br.
- PLATÃO. Fédon. In: A Teoria das Ideias. São Paulo: Hunter Books, 2013, p. 103-195.
- SPANNEUT, Michel. Os Padres da Igreja. São Paulo: Loyola, 2013. Vol. 1 e 2.
