Freemason

Autoconhecimento: Contribuições para uma abordagem Maçónica

✍️ Desconhecido 📅 07/07/2024 👁️ 6 Leituras

autoconhecimento

Considero o autoconhecimento como o corolário da nossa existência, enquanto humanidade, quer nos assumamos como seres espirituais a viver uma experiência humana, quer como seres materiais com a capacidade de formular ou vivenciar experiências espirituais.

Tanto num como noutro caso é o ser humano que está no centro, podendo este ser considerado como “a entidade na qual a matéria mais densa e o espírito mais subtil se unem através da mente” [1].

Mas a compreensão do processo que leva ao autoconhecimento – a exacta consciência próprio – requer que abordemos primeiro a problemática do conhecimento.

Acreditando os maçons regulares, que praticam uma maçonaria especulativa (baseada em raciocínios abstractos), na existência de um Ser Supremo, ou Grande Arquitecto do Universo, enquanto emanação do Absoluto, a Raiz de toda a Existência, consideram que Ele se manifesta através de três aspectos principais: a Força, a Sabedoria e a Beleza. Cada um destes princípios, válidos para todos os planos que constituem o Universo, traduzem-se no plano cósmico particular a que pertence o nosso Sistema Solar no conjunto polar de:

  • Vontade e Imaginação (Força).
  • Amor e Sabedoria (Sabedoria).
  • Inteligência e Actividade (Beleza).

A Força (… de Vontade, o Pai) desperta a Sabedoria (… pelo Amor, o Filho) que dela (Força) emana, e ambas “provocam” a Beleza (Inteligência em actividade, o Espírito Santo).

O Rei Salomão (Sabedoria) pediu ajuda ao rei de Tiro, Hiram (a Força) para a construção do Templo perfeito, e este recorreu ao arquitecto Hiram Abiff (a Beleza) para que orientasse a sua construção.

Em Loja – um universo em pequena escala – Salomão é representado pelo Venerável Mestre, Hiram pelo 1° Vigilante e Hiram Abiff pelo 2° Vigilante, sendo que este modelo estruturado hierarquicamente também existe no corpo humano, o templo do espírito interno individual de cada um.

Daqui resulta que a Força (o Poder) não se possa dissociar da Sabedoria (o Verbo), que ultrapassa o mero Conhecimento, por muito extenso que este seja, nem da Beleza, (o Movimento) que dinamiza as formas e os processos evolutivos. Em termos maçónicos, esta trilogia constituída pelos aspectos referidos poderá depois gerar outros atributos, de índole artística, científica, devocional e mágico-ritualística, tal como acontece com a Luz branca que, por refracção se decompõe em três cores primárias que, por sua vez, originam quatro cores secundárias.

Sabemos que o Conhecimento é indissociável do Poder, pelo que a sua apropriação e utilização sempre tem suscitado enorme controvérsia e perplexidade utilizando-se, geralmente, a comunicação como o instrumento que permite controlar a qualidade do fluxo informativo. Numa perspectiva sociológica subjaz quase sempre a identificação de uma dimensão manipuladora nesse processo de transmissão do conhecimento. E ela é tão eficiente e explícita nos regimes totalitários e autoritários quanto nos regimes democráticos, embora nos primeiros se recorra a processos mais explícitos (revelados) e primários, geralmente instrumentalizando o medo social, enquanto nos segundos, embora o medo continue presente, são subliminarmente utilizados métodos que obedecem a figurinos da mais maquiavélica subtileza e sofisticada elaboração conceptual. Aqui, recorre-se sistematicamente a uma reificação, a uma deturpação e esvaziamento dos sistemas de conhecimento da sua matriz essencial, concretizada por determinados agentes do poder – na sua expressão económica, política, religiosa, comunicacional, militar e outras – que intencionalmente contribuem para instaurar ambientes que conduzem a situações de facto consumado, suportadas pela aceitação generalizada das opiniões públicas, depois de suficientemente… anestesiadas”. Trata-se, no fundo, de exercer o poder através da deturpação da informação recorrendo a uma verdadeira “engenharia do consenso social” [2].

“A distorção, a descontextualização, o exagero, a omissão, a fusão de temas e de personagens, a desqualificação, a desconfirmação, a engenharia de factos sociais infundados, o excesso de informação que distrai ou provoca o ruído, o levantamento de suspeitas ou a difamação em momentos precisos e outros tantos mecanismos do género são presentemente o paradigma que norteia o quotidiano das sociedades modernas” [3].

Assistimos, na Natureza, a uma complexificação do processo comunicacional à medida que a onda de vida vai evoluindo de reino para reino, apetrechando as formas que neles habitam de instrumentos mais adequados que culminam, no ser humano, na construção de um cérebro para processar pensamentos e de uma laringe para os transmitir. Nas formas em que a vida anima seres cuja constituição física é ainda muito elementar – e que na prática, mais do que viverem, são vividas pela grande consciência cósmica – assiste-se a um predomínio do condicionamento genético sobre os legados da memória, da aprendizagem e da comunicação. Está provado que a memória retida por um peixe (em média) não sobrevive para lá de uns escassos três segundos, o suficiente, portanto, para que volte a morder o anzol.

Já a complexificação do cérebro humano evoluiu ao ponto de assegurar certas capacidades e competências que permitem ao espírito manifestar as prerrogativas do livre-arbítrio, da simbolização, da inventiva e da epigénese, podendo criar algo de novo sem qualquer condicionamento que não seja o cultural. E todos estes “ingredientes” contribuem para uma enorme complexidade relacional.

Efectivamente, o contexto relacional é todo o ambiente no qual e pelo qual a comunicação se processa e, concomitantemente, é nele que se estabelecem as teias inerentes ao exercício do poder e ao processamento dos conteúdos que constituem o conhecimento.

Quando as instâncias do Poder representativo dos diversos interesses é mais centralizado e os meios tecnológicos para a divulgação da informação e do conhecimento são escassos e controlados, assiste-se a formas de imposição dos quadros legislativos centrados sobretudo na repressão física exercida pelo aparelho de Estado. Mas quando se constata uma fragmentação e desconcentração do Poder, e logo do conhecimento, que se distribui por inúmeras entidades e organizações, com livre acesso aos órgãos de informação e a tecnologias avançadas, permitindo a ultrapassagem dos agentes convencionais de representação dos diversos interesses – quer estejam ou não legitimados – torna-se então mais difícil controlar e abafar os meios de divulgação da informação, sem se abdicar da liberdade.

Cada vez mais vivemos num mundo multipolar em que os preconceitos e os estereótipos baseados em interpretações dualistas se têm revelado    insuficientes para analisar, diagnosticar e propor soluções alternativas aos enormes desafios com que a humanidade se confronta, sobretudo num momento de aceleradas mudanças a todos os níveis. O mundo a preto e branco acabou e esgotaram- se as visões baseadas exclusivamente na economia, na geopolítica ou em princípios de matriz religiosa.

Exige-se uma mundividência e cosmogonia assente numa nova ética que sirva de contraponto à nova ordem em formação, que tudo tende a uniformizar e controlar. Reclama-se uma ecologia que crie alicerces no pensamento e na mente dos indivíduos a par das preocupações meramente ambientais, igualmente importantes. Mas sem existir um esforço individual de aperfeiçoamento, começando por pequenas práticas que contrariem as rotinas unicamente alicerçadas no bem estar material e no egoísmo, dificilmente se conseguirá expandir uma nova ordem assente mais nos valores e nos princípios do que exclusivamente nos interesses.

Assim como o reino mineral está a aprender a reagir, o vegetal a sentir e o animal a pensar, assim está a humanidade a preparar-se para um estágio superior de desenvolvimento em que o intelecto, assento do pensamento concreto, dará lugar à intuição, assento do pensamento abstracto. E o alinhamento social decorrente de uma alteração profunda das mentalidades, socorrido pela tal ecologia do pensamento, só será possível realizar quando um número suficiente de indivíduos conseguir, por si só, corresponder a essa exigência ética de responsabilidade individual que será depois vertida no colectivo.

Assistimos hoje, frequentemente, a um desalinhamento entre os diversos princípios que constituem o ser humano que pensa uma coisa, diz outra, sente ainda outra e pratica o contrário de tudo isso, exteriorizando um poço de contradições, muitas vezes decorrentes de estados de espírito carregados de hipocrisia, falsidade, incoerência, preconceitos, complexos e desorientação que acabam, inclusivamente, por conduzir à doença e contaminar as relações sociais, produzindo um círculo vicioso de causa e efeito entre o individual e o colectivo.

Talvez que uma das primeiras tarefas que se imponha a cada indivíduo responsável passe por uma reflexão crítica e isenta sobre os seus procedimentos, o que não se afigura fácil por exigir um desdobramento de uma parte de si que se propõe observar a outra parte. Sendo uma tarefa difícil, assenta no entanto num esforço tendente à prossecução de um nobre objectivo que pode ser o princípio de uma tomada de consciência que conduza ao autoconhecimento. E como o conhecimento está intrinsecamente ligado ao poder, no caso individual à força de vontade, e também à actividade do pensamento, que é beleza, voltamos ao princípio da equação maçónica abordada neste ensaio.

Esotericamente, o Segredo Maçónico tem a ver com o carácter iniciático da Ordem, que conduz ao aperfeiçoamento espiritual do indivíduo. Este segredo é intransmissível porque resulta do desenvolvimento de esforços anímicos como a vontade, a concentração e o autocontrole que conduzem à capacidade de intervir na altura certa, só possível com um discernimento apurado.

O resultado desses esforços surge naturalmente, sem apelo aos domínios da razão, assentando numa experiência íntima e emocional e conduzindo ao verdadeiro Poder, que não se compra com dinheiro nem fama e que é, acima de tudo, o Poder do indivíduo em se saber controlar a si próprio. Diz-se que esse Poder se adquire pelo despertar dos centros de energia que possuímos ao longo da coluna vertebral, à medida que os nossos esforços vão surtindo efeito e que assim poderemos, pela clarividência e pela intuição, alargar a faixa vibratória dos nossos sentidos físicos conhecidos e entrar em contacto com outras realidades, com outros planos e dimensões da Natureza.

O autoconhecimento conseguido através do esforço individual produz o discernimento e permitirá transformar o mero conhecimento em Sabedoria. A frase Conhece-te a ti mesmo, do filósofo grego Sócrates reflecte, para muitos, o corolário da nossa existência, enquanto humanos.

Com o autoconhecimento atinge-se um ponto de viragem no nosso longo percurso evolutivo. Esta fase já adiantada do processo evolutivo permitirá, verdadeira e definitivamente, libertar o ser humano das amarras do medo e da escravidão – para que possa possuir sem ser possuído -, das ciladas do intelecto, configurando uma atitude ética superior e uma melhor realização enquanto Pessoa.

Não há, assim, fórmulas mágicas, nem colectivas, nem racionais, para que se possa alcançar o autoconhecimento (a palavra exclui, por si só, qualquer generalização e partilha).

Uma das dificuldades em atingir este estado evolutivo reside no logro decorrente da nossa forma de pensar em termos analíticos, tudo separando em função de um sujeito que pretende conhecer um objecto, recorrendo a… representações, preconceitos (ideias feitas), generalizações e estereótipos.

A substituição da ingenuidade infantil – que observa sem aqueles atributos – pelo virtuosismo de alguns adultos nem sempre será uma atitude sábia. Como sábia parece ser a genuína expressão artística, fundamento da percepção directa, da apreensão da totalidade de uma forma plena e integrada, muitas vezes escapando ao intencional, mas enriquecida pelo intuicional que tudo abarca: a razão, o sentimento e a autenticidade.

A própria ciência materialista, com todo o mérito das suas descobertas baseadas na objectividade e método analítico, permitindo a classificação e catalogação, quando disseca para investigar, investiga um cadáver, um corpo já sem vida no qual as funções vitais não existem, mas tão só o aspecto “forma”. Não pode nunca descrever nem explicar o que é o homem, de onde vem, por que está aqui e para onde vai.

E acima de tudo, não consegue explicar a prorrogativa que está inscrita em cada ser humano de aprofundar o conhecimento acerca de si mesmo, num permanente esforço de superação, de autoconfiança e determinação, permitindo-lhe rasgar horizontes e continuar a senda deste seu percurso desde a pedra lascada à pedra polida!

Fernando Z

Notas

[1] Annie Besant (1847, Inglaterra – 1933, Índia). Escritora, teósofa e activista do direito das mulheres.

[2] Fernando Nogueira Dias (2017), A Engenharia do Consenso Social, Lisboa, Chiado Editora.

[3] Fernando Nogueira Dias (2013), Os Sistemas de Conhecimento Patológico e a Nova Ordem, Lisboa, Instituto Piaget.

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo