Freemason

A Maçonaria e as novas tecnologias: qual o nosso futuro?

✍️ Desconhecido 📅 22/09/2023 👁️ 5 Leituras

ChatGPT, tecnologia

Naturalmente, em algum grau a resposta a qualquer pergunta que envolva tecnologia e ambientes prospectivos não escapa à especulação, e refiro aqui à especulação afirmativa, positiva. E se são muitas as incertezas e os vultosos os riscos, os ganhos potenciais são incomensuráveis (Kurzweil, 2018). Em outros termos, não há como escapar à especulação quando as bases do desenvolvimento tecnológico estão sobremodo assentadas nos progressos da ciência [1], das conjecturas preliminares à formulação de teorias, à modelagem, à realização de testes [2], experimentos de bancada, já em escala amostral e até que sejam finalmente validados. Superado esse conjunto de etapas – o que não é trivial em razão dos investimentos e riscos envolvidos -, resta ainda a análise mercadológica: é possível, a partir do novo “estado da arte” do conhecimento científico ofertar ao mercado algum produto-serviço (tecnologia) comercialmente viável? Ou seja: existe algum problema ainda não resolvido (por vezes ainda sequer percebido ou conhecido da população leiga) ou cuja solução, ainda que hoje existente, pode revelar-se mais eficiente, aos olhos dos futuros consumidores, a partir do emprego da então nova tecnologia? Por fim: quanto os potenciais interessados estarão dispostos a pagar para, pelo menos experimentar, constituir o grupo dos first adopters, vale a pena correr todos os riscos do investimento? Em síntese: as barreiras da ciência à tecnologia são inúmeras e não desprezíveis em razão dos riscos técnicos, regulatórios, económicos, financeiros, do conservadorismo que de regra modula os usos e costumes, etc. À guisa de provocação reflexiva, bem como teste do que foi dito, convidamos o leitor a pensar sobre 2 (dois) casos recentes: a aceitação da vacina contra a COVID-19 [3] e a difusão das plataformas de serviço a exemplo da Uber.

E curiosamente, nada mais além disto, é possível, e desde já, estabelecer um paralelismo entre a Ordem Maçónica e o desenvolvimento científico e tecnológico. Grosso modo, em síntese, as mudanças proporcionadas pelos avanços científicos e tecnológicos podem ser classificadas como incrementais ou radicais (por alguns denominadas de disruptivas ou paradigmáticas). As primeiras estão ao abrigo do grande guarda-chuva que comporta os modos de fazer largamente conhecidos – a experiência acumulada já os transformou em disciplinas nas escolas. Já as mudanças de ordem paradigmática diferem não apenas em grau, mas quanto à natureza do paradigma até então vigente (Christensen, 1997; Christensen e Raynor, 2003; Kurzweil, op. cit.), o que então dá origem a uma reacção em cadeia (por vezes comparada a uma avalanche) de novas mudanças, mas agora no tecido social, no dia a dia (nos modos de pensar, de fazer, nos valores, nos comportamentos – das relações familiares à profissionais) de todos os indivíduos e instituições – indistintamente -, o que aos poucos (mas cada vez mais celeremente) promove o rompimento (e em alguns casos completamente) com o passado [4]. Rompimentos que se para alguns constituem oportunidades, para muitos têm dimensões traumáticas [5], uma das mais imediatas refere às condições de empregabilidade [6], cujas repercussões sobre as demais esferas (saúde mental, relações familiares, etc.) dispensam maiores esclarecimentos – entre tantos que tratam do assunto, vide: Rifkin (1995), Bridges (1995), Forrester (1997) e Sennett (1999). Embora contemporâneos das mudanças em curso (os desenvolvimentos da C&T pós-II Guerra Mundial), mas já no final do séc. XX, em alguma medida os autores citados foram proféticos [7]; actualmente, uma nova geração se ocupa das consequências (sociais) das primeiras previsões já tornadas realidade, como é o caso, entre outros, de Han (2017, 2018).

Mas ora, o que tem a Ordem Maçónica e ver com tudo isso? Em primeiro lugar, o que é a Iniciação senão o rompimento (mediante a morte simbólica) com o passado até então eivado com vícios e paixões? E não é a Iniciação também um renascimento para uma vida virtuosa a partir de então lastreada por novos princípios, valores, atitudes e comportamentos – um novo paradigma? Na sequência, não apenas outros paralelismos, mas algumas afectações serão destacadas, bem como reflexões sobre o papel da Maçonaria no contexto que se delineia.

Dessarte, trazendo então o tema mais proximamente ao domínio da Arte Real, onde por certo que não se aplicam as especulações referentes à ciência, etapa comumente preliminar do desenvolvimento tecnológico – por exemplo, se os celulares e os computadores, como os conhecemos, não existiriam se não tivesse ocorrido enormes desenvolvimentos científicos (efectivas revoluções) nos campos da nanotecnologia e da digitalização (segunda metade do séc. XX), o que se dirá, então, da nova geração de computadores quânticos? Todavia, por oportuno, é importante ressaltar que nem todo desenvolvimento tecnológico, necessariamente, demanda um antecedente científico (na sua Moderna acepção), como pode ser visto em Rossi (1989, 1992), cuja análise antropossociológica passa em revista a evolução das ciências e das tecnologias, da Antiguidade à Modernidade [8]. Assim como há grandes mudanças no curso da História que não podem ser atribuídas exclusivamente (e tampouco maioritariamente) aos avanços científicos e tecnológicos, como é o caso da Revolução Industrial, cujos créditos em grande parte são devidos à Política e às Leis dos Cercamentos, bem como da Revolução Francesa que teve como alavanca mestre a alteração do sistema de votação, de “voto estamental” [9] (por Estados: o primeiro representado pelo clero; o segundo, pela nobreza; e, o terceiro, pela burguesia e os camponeses) para “voto por cabeça” – só assim, a Assembleia Nacional passou a representar, com melhor propriedade, a sociedade da época. É importante não perder de vista essas considerações pois o senso comum, equivocamente, condiciona (quando não submete) as mudanças necessárias às alterações de ordem técnica, quando, de facto, tanto no curso da História quanto no ambiente organizacional as alterações nos marcos regulatórios podem dar origem (pela sinalização de directrizes e a criação de estímulos) a profundas modificações nos usos e costumes do grupo de referência, seja ele uma comunidade de práticos, uma organização ou instituição; assim, aos poucos os povos constroem ou modificam culturas. Inovações nos marcos regulatórios, inclusive mediante reinterpretação (actualização) da legislação, são poderosos instrumentos de políticas públicas (Pinheiro, 2002) – vide, por exemplo, a discussão sem fim (com idas e vindas) sobre a menoridade penal, a prisão (a depender da instância decisória) e, mais recentemente, a imputação de crime de tráfico de entorpecente – no caso, a maconha – de acordo com o volume (peso) encontrado em posse do flagrado. Ademais, os marcos regulatórios (lato sensu, porque além dos Estatutos, Regulamentos e Regimentos Internos abrangem os actos administrativos – Portarias, Circulares, Instruções Normativas, etc.) também podem desestimular os comportamentos indesejáveis ao estabelecer variadas sanções, da simples repreensão reservada à exclusão pública. Objectivamente: há um largo espaço para a acção activa ou reactiva das administrações centrais (Potências) e das descentralizadas (Lojas) frente ao porvir, sejam as mudanças de ordem técnica ou não.

De outro lado, no que tange à gestão, quase que a totalidade dos eventos e das prescrições encontradas na literatura no que refere às novas tecnologias se aplica à Ordem Maçónica, notadamente (e este é foco deste ensaio) no que concerne às resistências à adopção (e, por extensão à transmissão) que, se em parte são fundamentadas (pois, conforme visto há custos e riscos), também não excluem as construções de narrativas defensivas ou em prol de interesses velados; e também aqui os acontecimentos que sucederam à emergência da COVID-19 se ajustam com perfeição. Sem dúvida que o acontecimento mais inovador e também importante, efectivo subproduto da epidemia no seio da Maçonaria, foi a inauguração da era das reuniões virtuais, as quais, constrangidos, à época poucos reconheciam como efectivas sessões. Isso, por si mesmo já chamaria a atenção pois as reuniões virtuais (assim como o trabalho à distância) já há tempos eram uma realidade no ambiente corporativo e no sector governamental – entre tantos, por exemplo, vide Pinheiro e Bitencourt (1998). E por que a demora na adopção desta, entre outras práticas tornadas possíveis pelas (então) novas tecnologias? Inúmeras causas podem ser alinhadas e, sem que se possa hierarquizar por ordem de importância, é razoável admitir que mutuamente se reforçam ainda que por vezes a partir de narrativas falaciosas:

  • o peso da tradição – real ou imaginada – na Maçonaria. Ora, se muitas lições da Ordem são extraídas das Escrituras e, mesmo estas, do Velho para o Novo Testamento sofreram profundas alterações (e se pode afirmar que foram de ordem paradigmática), não era de se esperar tamanha inflexibilidade dos Irmãos frente às mudanças e inovações. As Constituições Góticas (old charges) são datadas, escritas para realidades de espaços-tempos que não têm mais lugar no mundo contemporâneo, daí que insistir na sua aplicação implica em evidente anacronismo – vide, por exemplo, o trabalho de Gomes (2020). E em relação às Constituições de Anderson, portanto já da Era Moderna, da Fase Especulativa, leia-se o que diz Ismail (2023, p. 101) que, por sua vez, também cita D. Stevenson:

A Constituição de Anderson, de 1723 […] foi considerada “uma mistura de compilação e fantasia, invenção e manipulação, clareza e ambiguidade, e de fato e erro” e, ainda, “fantasiosa, não confiável e pretensiosa a um nível que muitas vezes chega ao absurdo”. Tendo apenas uma única edição posterior, em 1738, a versão de Anderson foi logo substituída na Inglaterra por uma mais coerente, em 1756. Essa Grande Loja da Inglaterra (dos Modernos) ainda adoptaria novas constituições, em 1767 e em 1784. E, desde a fusão com a Grande Loja dos Antigos, em 1813, o que deu origem à Grande Loja Unida da Inglaterra, já se promulgou [sic] dezenas de novas constituições e edições.

Portanto, s.m.j., ao contrário da ortodoxia defendida por alguns (por desconhecimento ou convicção formada a partir de bases ora desconhecidas) a análise longitudinal-cronológica dos documentos seminais da Maçonaria aponta no sentido à abertura frente às mudanças de toda natureza. Mais recentemente o conservadorismo da Ordem tem sido colocado à prova frente ao que se pode denominar de “questões de género” para o ingresso ou permanência na Maçonaria – vide, por exemplo, os trabalhos de Pinheiro (2019) e Bocchese (2019);

  • de outro lado, um dos principais amálgamas [10] da Maçonaria é ânimo fraterno, e este sim, pelo distanciamento, poderia vir a ser comprometido com a disseminação e a permanência no longo prazo dos encontros virtuais. Entretanto, as reuniões virtuais também mostraram as suas credenciais: menor custo, ampliação e larga diversidade de público representativo de diferentes Ritos, regiões e mesmo nacionalidades (o que sobremodo enriquece os debates), flexibilidade (de dia, de horário e de agenda), possibilidade de armazenamento do conteúdo (importante para a docência maçónica), etc. As oportunidades, as vantagens e o potencial dos ambientes virtuais (ainda em desenvolvimento) não podem, s.m.j., somente ao amparo da tradição e do ânimo fraterno, ser desprezados. Todavia, os prós e os contras dos efeitos da pandemia, com a mediação das tecnologias, no seio da Maçonaria, ainda aguardam avaliação conclusiva. O tema já mereceu inúmeras publicações, mas quase todas em carácter especulativo porque elaboradas ainda na fase inicial do processo, a exemplo da colectânea organizada por Morais (2021);
  • toda mudança nos usos e costumes, por menor que seja, além dos custos e riscos demanda motivação e esforço pessoal, na expressão popular, “sair da zona de conforto” que é característica dos ambientes conhecidos e estáveis, daí porque confere segurança e continuidade sem esforço adicional, bem como são menores as possibilidades de erros (custos e riscos). Eis porque foram as hierarquias administrativas das Potências, com maiores recursos para o enfrentamento dos custos e riscos, bem como condições de enforcement sobre equipes assalariadas, as primeiras adoptantes das novas tecnologias aplicadas ao gerenciamento das rotinas: cadastros para todos os fins, emissões de placets, pagamentos, relatórios, identificação, controle de frequência, comunicação interna, entre outras. Na sequência, com a criação de plataformas, canais de internet, estúdios, desenvolvimento de homepages, entre outras iniciativas, as aplicações foram estendidas à comunicação externa e à docência. De outro lado e contrário ao senso, talvez porque nas Lojas predomine a larga liberdade ancorada em fortes laços fraternos [11], a livre iniciativa e disponibilidade para aprender, estudar, praticar, testar alternativas, errar, disposição para ouvir críticas (principalmente), corrigir os erros e repetir o ciclo tantas vezes quantas necessárias, parecem requerer atitudes e comportamentos tão diferenciados quanto difíceis de, mesmo na Maçonaria, serem encontrados; destarte,
  • Iniciados e Elevados, e por que não dizer doutrinados, numa Ordem conservadora na qual a fraternidade é a pedra angular e a senioridade é apreciada em alta estima, nem mesmo os mais jovens (independentemente se de idade ou de Ordem) quando Exaltados (as lideranças emergentes) mantêm aceso o espírito empreendedor – mais aberto à adopção de inovações de toda ordem e propenso à realização de tentativas e erros até o alcance senão da solução desejada, dela o mais próximo possível.

Conforme mencionado quando da menção à pandemia da COVID-19, com efeito as tecnologias estão na Ordem do Dia da Maçonaria. Além da já citada compilação de Morais, 2 (duas) publicações também recentes deixam à vista a relevância conferida ao tema no contexto da Ordem: Morais (2020); e, Leite e Altafim (2023). Contudo, não se pode deixar de observar que a tecnologia disputa, em frequência de trabalhos, com outros temas, a exemplo dos pertinentes à gestão, e dos que tratam das atitudes, comportamentos e expectativas no seio da Ordem.

Mais recentemente o tema – as novas tecnologias e os seus impactos na Maçonaria – parece ter ascendido à condição de primeiro item da pauta da Ordem do Dia. O motivo, as notícias do mais novo gadget da Inteligência Artificial – o Chat GPT [12] – que, à propósito, de acordo com neurocientista M. Nicolelis [13], nem é inteligência e nem artificial. Entretanto, equivocada ou não, a expressão Chat GPT já viralizou como sinónimo de Inteligência Artificial (IA), mais um meme mundial à semelhança da associação estabelecida entre o “bóson de Higgs = partícula de Deus”.

Actualmente, o desenvolvimento e a implementação de tecnologias de inteligência artificial (IA) proporcionam resultados que não podem mais ser compreendidos só em termos quantitativos, pois determinam profundas alterações nas relações entre as pessoas e a tecnologia (Doria, 2023). Estas novas tecnologias facilitam a automatização da tomada de decisão em amplas e complexas situações, executando tarefas que eram consideradas como distintivamente humanas (porquanto oriundas da sua inteligência), chegando mesmo certas manifestações dessas tecnologias serem entendidas como resultados de uma “inteligência artificial”. Os computadores passaram a ser considerados não somente como máquinas destinadas a realizar cálculos, ordenações ou classificações, mas a possuir qualidades comparáveis às actividades humanas independentes. Em especial nas últimas décadas, com o incremento constante de mais recursos computacionais e também da disponibilidade massiva de informação, oriundos do desenvolvimento tecnológico e do Big Data, viabilizou-se o surgimento de sistemas de IA baseados não só em modelo de regras pré-fixadas, mas também supridos com elevada quantidade de dados, fundamentando as suas actividades e desenvolvendo padrões próprios de decisão. A chamada sociedade da informação tem trazido, desde então, impactos significativos no dia a dia das pessoas.

Alguns notórios benefícios que podem ser listados com o emprego destas novas ferramentas são os advindos com o provimento de cuidados com a saúde (em especial realizando diagnósticos mais acurados); viabilização de melhor acessibilidade (pessoas deficientes podem ter interacção melhorada com dispositivos apropriados); agricultura e meio ambiente; transporte (surgimento de carros autónomos e melhoria do tráfego); segurança pública e pesquisa científica. A área da educação em geral (do que se depreende que também deve repercutir nas instruções e na docência maçónica) tem merecido grande atenção (Santiago, 2023). Por outro lado, muitos ainda vêem perigos na adopção desta ferramenta, por parte dos alunos, em especial quanto ao necessário processo de aprender a pensar (Cafardo, 2023).

Tecnologias impactantes – inovações radicais – como a IA, a robótica e a biotecnologia, não só influenciam (determinando ou obstando) comportamentos individuais e sociais, mas também possuem o condão de modificar os próprios indivíduos e a sociedade. Quando desenvolvidas, essas tecnologias são criadas com determinados valores embutidos e, no momento em que são adoptadas e aprimoradas, as mesmas acarretam vários desafios e suscitam preocupações legítimas, mas por outro lado podem apresentar oportunidades para trazer benefícios inovadores à sociedade em geral.

No entanto, vemos diversos perigos serem divulgados nos meios de comunicação, como por exemplo o mau uso por pessoas mal-intencionadas (Amazon retira livros…, 2023), em especial nas campanhas políticas (Camillo, 2023; Fonseca, 2023); a potencial redução do controle humano (quando a adopção dessas tecnologias acarreta diminuição da necessária supervisão técnica); o perigo de transferir para a máquina a responsabilidade humana (um robô – existem alguns com feição humana – poderá ser responsabilizado por algum dano?); a desvalorização das competências humanas (como no campo dos diagnósticos em medicina); o perigo de o emprego de tecnologia modificar a autodeterminação humana (quando implicar mudanças nas actividades das pessoas e grupos para acomodar rotinas que facilitem a automação), e a possibilidade de facultar o surgimento e manutenção de preconceitos e injustiças (todo algoritmo herda viés oriundo das fontes existentes nos dados originais (Garbin, 2023).

Assim, a IA pode ser empregada tanto para o bem, como para o mal, o que levanta sérias preocupações, mas, como dissemos, o uso consciente desta complexa ferramenta pode também potencialmente trazer benefícios para as pessoas, resolvendo ou atenuando esses obstáculos. Como toda ferramenta, é necessária a fundamental discussão ética sobre o seu uso e possíveis implicações em todos os domínios. Isto se torna cada vez mais importante na medida em que nenhum debate actual parece estar lidando bem com o avanço desta tecnologia (Lemos, 2023). A oportunidade de maximizar os benefícios que essas tecnologias podem trazer, garantindo que danos e resultados negativos possam ser evitados, destaca a necessidade da Ética como um espaço para discutir e orientar a estratégia dos actores sociais e, aqui, principalmente os corporativos, visando endereçar proficuamente as suas práticas nesse campo.

As tecnologias, por si só, não geram necessariamente desenvolvimento ou possibilitam uma melhoria nas condições de vida para a colectividade. É necessária uma interacção efectiva entre os sectores privado, governamental e as Organizações Não-Governamentais para a formulação, implantação e aperfeiçoamento adequados de políticas de desenvolvimento que contemplem os aspectos positivos das tecnologias da informação / IA e minimizem os efeitos negativos da aplicação das mesmas.

O recurso a aspectos éticos pode ensejar considerar-se com a apropriada cautela situações que ainda não possam ser efectivamente objecto de regulação ou de actuação directa das camadas (em especial as Agências Governamentais) envolvidas, mas que, seja pela importância dos sujeitos e valores envolvidos, seja pelos seus potenciais efeitos, necessitam de uma intervenção ágil e ponderada sobre as alternativas e caminhos a serem tomados.

Neste ambiente, qual é o nosso futuro? Ora, a mudança técnico-científica se confunde mesmo com a História, com a evolução da humanidade e das civilizações. Considere-se uma das cenas icónicas de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” [14], filme de S. Kubrick, de 1968: quando um símio (proto-humano) descobre que o uso de uma ferramenta-técnica (um osso) o torna mais poderoso que os rivais – apto para ser o senhor das melhores fontes, o macho alfa. E desde então a revolução técnico-científica não sofreu descontinuidade, circunstância que Kubrick simbolizou com o transporte imediato dos expectadores para os interiores de uma nave espacial em viagem para os limites do universo. Em meio a tanto, surgiram muitos desafios, a exemplo dos citados luditas, assim como hoje se afiguram as novas tecnologias ora simbolizadas pelos gadgets de Inteligência Artificial.

A nós, além da automação, optimização e expansão das aplicações gerenciais (processo já em estágio avançado de disseminação) parece-nos que se abre uma amplo e relevante espaço à Maçonaria: a começar pela qualificação das Instruções, isto é, desenvolver a leitura, a decodificação e a ressignificação das lições morais veladas em fábulas, alegorias, etc., a partir de aplicações extraídas do dia a dia (familiar, profissional) dos Irmãos, como ilustram os exemplos citados acima; em segundo, ampliar as oportunidades de orientações e debates qualificados, isto é, fundamentados e conduzidos com profissionalismo multi, inter e transdisciplinar no âmbito de um programa de trabalho que transcenda os voluntarismos e as descontinuidades tão próprias da gestão de um Venerável. O entendimento formado é o de que se a Maçonaria – os líderes das Potências e das Lojas – desempenharem a contento a missão histórica da Ordem, na síntese de aperfeiçoar o homem integral (físico, psíquico e espírito), este estará apto para o trato responsável em qualquer ambiente, desde o seu íntimo, ao familiar, ao profissional e na sociedade em geral com plena responsabilidade social independentemente do cenário tecnológico.

Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br.

Lucas V. Dutra, Companheiro Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt nº 75, GLESP, Or. de São João da Boa Vista, Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com.

Para não exceder o limite de páginas sugerido os autores optaram por não subdividir o texto em secções, bem como evitar transcrições, oferecendo assim a ampla bibliografia à consulta e ao recomendável aprofundamento da matéria a partir de paráfrases – somente as ideias centrais dos autores consultados.

Notas

[1] Daí porque habitual o uso conjunto na forma da expressão binomial C&T: ciência e tecnologia; analogamente, alguns preferem a expressão revolução técnico-científica.

[2] A História atesta que por vezes se passam anos, mesmo décadas, até que estejam disponíveis as tecnologias que permitirão submeter à prova determinadas ideias, o exemplo mais conhecido é o da Teoria da Relatividade de A. Einstein. Corolário: actualmente há um portfólio de hipóteses, conhecimentos em parte amadurecidos e mesmo já em forma de tecnologias que aguardam o desenvolvimento de novas tecnologias para serem submetidos à comprovação ou mesmo larga aplicação – difusão.

[3] COronaVIrus Disease.

[4] Um exemplo bastante evidente é o que se passou (e continua ocorrendo) na telefonia: do telefone fixo ao móvel (celular), do analógico ao digital, e este como elemento integrador de inúmeros equipamentos: máquinas fotográficas, filmadoras, calculadoras, computadores, scanners, projectores, televisores, etc. Casos análogos foram a introdução da pílula anticoncepcional feminina e dos medicamentos para a disfunção eréctil. A emergência das “redes sociais digitais”, que só ganharam existência após grandes avanços científico e tecnológicos, também trouxeram profundas mudanças nos comportamentos e também nas formas de fazer negócios. Em comum a todos esses casos, o rompimento paradigmático com o passado.

[5] Se aos olhos de hoje os relatos beiram a comicidade, à época foram acontecimentos que causaram efectivo espanto, como foi o receio de que a locomotiva a vapor, desenfreada (directa, recta, veloz, “sem controlador”), arrancaria cabeças. Os cronistas também relatam que uma das primeiras iniciativas dos adquirentes de carros com pneus sem câmara, era dirigir-se a uma oficina de confiança para promover a troca por outros dotados de câmara de ar ou, nos originais de fábrica, instalá-las. Por incompreensão, medo e resistência sempre formaram a linha de frente contra as inovações mais radicais, o que não é de todo ruim, pois estimula cuidados redobrados; e mais uma vez o episódio COVID-19 e as tecnologias vacinais, porque recentes, constituem um bom exemplo.

[6] Entre os grandes exemplos históricos, atendo-se aos mais recentes, citam-se: o Ludismo na Inglaterra (séc. XIX), o Taylorismo-Fordismo (séc. XX) e o seu sucedâneo japonês já ao final do mesmo século: o Toyotismo, sistema de produção (originalmente) industrial desenvolvido por Taiichi Ohno.

[7] Ortega y Gasset (1883-1955), Richard M. Weaver (1910-1963), S. Bauman (1925-2017) e A. Tofler (1928-2016), entre outros, foram pensadores e futuristas que anteciparam os tempos contemporâneos, dando origem aos primeiros memes: sociedade massa, sociedade líquida, indiferenciada, atómica, entre outras expressões hoje quotidianas.

[8] A leitura desses textos, por parte dos Maçons, certamente reduziria o glamour que circunscreve a Fase Operativa da Maçonaria por vezes apresentada de modo acrítico e tendencioso pela ala romântica da literatura maçónica.

[9] Análogo ao voto censitário – discriminatório – dos Antigos; vide, entre tantos, Platão (2000), mais especificamente em A República. Para maior clareza, o seu oposto é o sufrágio secreto e universal, produto das lutas no período Iluminista.

[10] O outro, a juízo (e antecipa-se: discutível até que se submeta à prova), seriam “as questões de segredo” e atmosfera de mistério que, ao publicamente circunscreverem a Ordem, actuam como elementos atractores em razão da curiosidade – traço inato à natureza humana.

[11] Que tende a ser mais acentuados entre os padrinhos e afilhados.

[12] Ao já popular chat (consulta, conversa), a sigla agregada (GPT) corresponde a Generative Pre-Trained Transformer.

[13] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Fw8fJxWhQX8. Acesso em: 15.09.23.

[14] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QCaHi3H_lBo. Acesso em: 16.09.23.

[15] Em razão da actualidade da matéria (Chat GPT), do estado da arte estar em plena formação e em rápido desenvolvimento – a cada dia surgem novos recursos, possibilidades, cases – ainda não foi constituída a massa crítica de literatura académica clássica (livros, periódicos, anais) para consulta, razão pela qual os autores recorreram às fontes jornalísticas com o cuidado de excluir matérias com nítido interesse comercial ou outro direccionamento.

Referências bibliográficas [15]

  • AMAZON RETIRA LIVROS criados por IA em nome de escritora. Literatura Mercado. Cinco títulos, publicados sem a autorização de Jane Friedman, estavam à venda no site; empresa se desculpou. O Estado de São Paulo, Caderno Cultura & Comportamento. 14 de Agosto de 2023, p. C-3.
  • BOCCHESE, Pedro A. Landmarks, Antigas Obrigações e a Redesignação de Género: um estudo de caso na Loja Monteiro Lobato, Oriente de Flores da Cunha em 2018. In: CUNHA Jr., Adenilson S.; SOARES, Glauber Santos (Orgs.). Maçonaria e Temas Contemporâneos. BA, Vitória da Conquista: Motres, 2019, p. 108-125.
  • BRIDGES, William. Um Mundo Sem Empregosjobshift, o desafio da sociedade pós-industrial. São Paulo: Makron Books, 1995.
  • CAFARDO, Renata. IA, uma ameaça ao aprender a pensar. O Estado de São Paulo, caderno Metrópole. 30 de Julho de 2023, p. A-19.
  • CAMILLO, Mateus. Campanha conduzida por IA no México pode marcar nova era na política. Folha de São Paulo, Caderno folhacorrida, Coluna HASHTAG. 01 de Agosto 2023, p. B-10.
  • CHRISTENSEN, Clayton M. The Innovator`s Dilemma: when new technologies cause great firms to fail. USA, Massachusetts, Boston: Harvard Business Scholl Press, 1997.
  • CHRISTENSEN, Clayton M.; RAYNOR, Michael E. O Crescimento pela Inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
  • DORIA, Pedro. Onde está a ameaça digital? O Estado de São Paulo, Caderno Economia & Negócios. 30 de Junho de 2023, p. B-19.
  • FONSECA, Joel Pinheiro da. Os riscos da inteligência artificial. Folha de São Paulo, Caderno Política. 28 de Março de 2023, p. A-8.
  • FORRESTER, Viviane. O Horror Económico. UNESP, 1997.
  • GARBIN, Luciana. Quem inventou o avião no ChatGPT? O Estado de São Paulo, Caderno Cultura & Comportamento. 20 de Julho de 2023, p. C-8.
  • GOMES, Valdir. Vir a Ser da Maçonaria. In: MORAIS, Cassiano T. de (Org.). Maçonaria Perspectivas para o Futuro. Brasília, DF: CMSB, 2020, p. 15-41.
  • HAN, Byung-Chul. No Enxame. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.
  • _____ . Sociedade do Cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
  • ISMAIL, Kennyo. A Constituição de Anderson (1723). Traduzida e comentada por K. Ismail. Brasília, DF: No Esquadro, 2023. Edição comemorativa de 300 anos.
  • KURZWEIL, Ray. A Singularidade Está Próxima: quando os humanos transcendem a biologia. São Paulo: Itaú Cultural – Iluminuras, 2018.
  • LEITE, Helio P.; ALTAFIM, Ruy Alberto C. O Futuro da Maçonaria. São Paulo: A Gazeta Maçónica, 2023.
  • LEMOS, Ronaldo. Problema da IA será económico, não ético. Folha de São Paulo, Coluna TEC. 03 de Abril de 2023, p. A-19.
  • MORAIS, Cassiano T. de (Org.). Maçonaria Pós-Pandemia. Brasília, DF: CMSB, 2021.
  • _____ . Maçonaria Perspectivas para o Futuro. Brasília, DF: CMSB, 2020.
  • PINHEIRO, Ivan A. A Ideologia de Género e a Maçonaria: entre a tradição e a renovação. In: CUNHA Jr., Adenilson S.; SOARES, Glauber Santos (Orgs.). Maçonaria e Temas Contemporâneos. BA, Vitória da Conquista: Motres, 2019, p. 76-105.
  • _____ . Inovação em Políticas Públicas: a legislação ambiental como instrumento de modernização tecnológica – o caso da Infovia do Município de Porto Alegre. In: XXXVII Assembleia do Conselho Latino-Americano de Escolas de Administração, 2002, Porto Alegre, RS, Brasil. Anais em CD, CLADEA – 2002, 2002. v. 1. p. 1-15.
  • PLATÃO (epíteto de Arístocles). A República. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
  • PINHEIRO, Ivan A.; BITTENCOURT, Cláudia C. Technological Work at Home: revised expectations and some reflections on the Brazilian case. In: International Conference of Academy of Business and Administrative Sciences, 1998, Budapest. Book of Abstracts, 1998.
  • RIFKIN, Jeremy. O Fim dos Empregos: o declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. São Paulo: Makron Books, 1995.
  • ROSSI, Paolo. Os Filósofos e as Máquinas. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.
  • _____ . A Ciência e a Filosofia dos Modernos. São Paulo: UNESP, 1992.
  • SANTIAGO, Guilherme. Gamificação e o ChatGPT já tem lugar desde a gestão até o plano de aula. O Estado de São Paulo, Caderno EDU. 09 de Agosto de 2023, p. E-4.
  • SENNETT, Richard. A Corrosão do Carácter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo